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A nova tasca moderna na Lapa tem uma sobremesa inspirada no coração de D. Pedro

A chef Tânia Durão juntou-se a dois amigos para abrir o Pulso a 19 de maio, com pratos portugueses para partilhar.

O coração de D. Pedro IV está guardado na Igreja da Lapa há quase dois séculos. Agora, a poucos metros desse local histórico, há outro coração a captar a atenção dos portuenses. Não está numa urna nem faz parte de uma relíquia nacional. É uma sobremesa de chocolate branco, maracujá e pepino que se tornou um dos símbolos do Pulso, o novo restaurante que abriu a 19 de maio no Largo da Lapa.

A criação é apenas um dos detalhes que ajudam a perceber o espírito do projeto. O Pulso nasceu da união de três amigos com percursos muito diferentes, mas ligados pela mesma vontade de criar um espaço que refletisse a identidade do bairro onde se instalaram. À frente da cozinha está a bem conhecida chef Tânia Durão e ao seu lado surgem Artur Alves, arquiteto responsável pelo projeto, e Frederico Almeida, ligado à comunicação e ao design do conceito.

A ideia era criar um espaço vivo, em constante movimento, que acompanhasse o ritmo da cidade e das pessoas que a habitam. “Queremos que as pessoas comecem a sentir o pulsar”, explicam os sócios sobre o nome escolhido, numa referência à energia que pretendem criar naquele quarteirão da cidade.

Para Tânia Durão, este é mais um capítulo numa carreira construída entre cozinhas de referência e projetos próprios. Nascida e criada no Porto, cresceu rodeada pela comida da avó e dos pais. Licenciou-se em Geografia, mas acabou por seguir outro caminho. Enquanto estudava, trabalhou em restaurantes para pagar os estudos e descobriu que a cozinha era o lugar onde se sentia verdadeiramente realizada.

Passou por cozinhas como o Cantinho do Avillez, o DOP de Rui Paula e projetos liderados pelo chef Pedro Limão antes de abrir o Atrevo, em 2019. Mais tarde, mudou-se para a Polónia, onde trabalhou como consultora gastronómica. Regressou depois ao Porto para lançar o Barro, restaurante onde aprofundou a sua interpretação contemporânea da cozinha portuguesa. Agora, no Pulso, volta a explorar essa ligação às memórias e aos sabores tradicionais, mas num formato mais descontraído. “Se me deixarem estar na cozinha, é onde eu estou bem”, admite à NiP. “Gosto muito de ver os outros comerem e gosto muito de ver os outros comerem a minha comida.”

Apesar de a cozinha ser assinada por Tânia Durão, o Pulso nasceu de uma vontade partilhada entre os três sócios. Frederico, designer responsável pela identidade visual do espaço, já tinha trabalhado com a chef noutros projetos, como o Barro. Já Artur tem uma ligação ainda mais íntima ao bairro: nasceu no Hospital da Lapa e cresceu a poucos metros do local onde hoje recebe os clientes. Quando surgiu a oportunidade de ocupar a loja da esquina, a ideia de criar um projeto que dialogasse com a história da zona surgiu de forma natural.

“A Lapa sempre fez parte da minha vida. Nasci aqui, cresci aqui e continuo a sentir uma ligação muito forte ao bairro. Fazia sentido criar um espaço que não estivesse apenas na Lapa, mas que também falasse da Lapa”, explica Artur. Foi dessa proximidade que nasceram várias das referências presentes no restaurante, desde a homenagem ao coração de D. Pedro até à escolha de trabalhar uma cozinha que parte da tradição portuguesa sem a reproduzir de forma literal.

Para Frederico Almeida, o desafio passou por transformar essas histórias numa identidade visual coerente. “Queríamos um espaço simples, mas com personalidade. Há muitas referências ao coração, ao pulso e à ideia de vida e movimento, mas sem que isso se tornasse demasiado óbvio”, refere. O resultado é um restaurante onde o vermelho domina a decoração, das mesas às luzes néon suspensas sobre a sala, criando um ambiente intimista que contrasta com a luminosidade das grandes janelas voltadas para a Igreja da Lapa.

Os três sabem que abrir um restaurante independente no Porto continua a ser uma aposta arriscada. Ainda assim, acreditam que existe espaço para projetos mais pessoais e ligados à cidade. “Queremos que as pessoas sintam que este restaurante só podia existir aqui”, resume Artur.

A dupla de amigos por trás do Pulso.

A carta reflete essa filosofia. Há pratos familiares, mas reinterpretados com técnica e criatividade. O menu inclui rissol de frango com gema (3,50€), pão de massa mãe com azeite biológico e creme de especiarias (4,50€), sopa de peixe (6,50€), salada da época (7,50€), balde de terra vegan (9,50€), açorda do mar (14€), tártaro de novilho e couve (16€) e arroz de rabo de boi (17€).

Entre os favoritos da equipa está precisamente a açorda do mar. “Foi a primeira a entrar na produção”, revelou Tânia Durão durante a conversa. O tártaro de novilho e o famoso coração de D. Pedro também estão entre os pratos mais pedidos.

A sobremesa que reproduz o coração preservado do monarca tornou-se rapidamente uma das imagens mais partilhadas nas redes sociais. O processo é bastante mais complexo do que aparenta. Segundo a chef, cada unidade demora cerca de oito horas a ser produzida, entre moldagens, congelações e preparação dos diferentes elementos.

Mas o Pulso não vive apenas da comida. O espaço foi pensado para funcionar como uma espécie de tasca contemporânea de bairro. A ideia passa por receber clientes ao almoço, ao lanche ou ao início da noite, sem a formalidade associada a muitos restaurantes de autor. “Há uma coragem na simplicidade”, defende Tânia. “Uma tarte de vitela pode parecer simples, mas tem de ser a melhor tarte de vitela que aquela pessoa vai comer.”

A decoração acompanha essa visão. O interior esteve em obras durante três meses e passou inteiramente pelas mãos do grupo de amigos. Combina tons vermelhos intensos, iluminação suave e um ambiente intimista. No teto destaca-se uma instalação luminosa em néon vermelho que se tornou um dos elementos visuais do restaurante. As grandes janelas voltadas para a rua aproximam o espaço do bairro e da vida quotidiana da Lapa.

O restaurante tem cerca de 25 lugares sentados, embora a configuração permita alguma flexibilidade para grupos maiores. Há ainda uma zona de esplanada que reforça a ligação à rua e ao movimento do largo.

Outra das preocupações dos fundadores passa pela sustentabilidade e pelo apoio a pequenos produtores. O objetivo é trabalhar cada vez mais com fornecedores locais e desenvolver parcerias com projetos comunitários. Entre as ideias já em preparação está a utilização de fruta rejeitada pelos circuitos comerciais tradicionais, através de colaborações com iniciativas como a Fruta Feia.

Também nas bebidas existe uma tentativa de fugir ao habitual. A carta inclui kombuchas, chás, limonadas artesanais, vinhos naturais e cocktails de assinatura. O Pulso (9€) junta Aperol, morango, toranja, pepino e água com gás. Já o Minato (14€) combina rum, chocolate branco, sake de yuzu, limão e pó de framboesa.

Carregue na galeria para conhecer o novo coração pulsante da Lapa.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Largo da Lapa, 9
    4050-069 Porto
  • HORÁRIO
  • Terça-feira a sábado das 12h às 22h
PREÇO MÉDIO
Entre 10€ e 20€
TIPO DE COMIDA
Portuguesa, Contemporânea

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