Há histórias que começam numa chávena. Não pela bebida em si, mas por tudo o que está por trás dela — a origem, as mãos que cultivaram, o tempo que foi preciso para chegar ali. No caso da Criatura, marca portuguesa de tisanas, cada infusão é também o resultado de uma decisão difícil: deixar uma carreira estável para recomeçar do zero.
Diana Rego, 31 anos, é natural do Porto, mas cresceu entre a cidade e uma quinta da família em Penafiel. Foi aí que começou a construir a ligação à terra que, anos mais tarde, acabaria por mudar o rumo da sua vida.
“Acho que a minha ligação à agricultura resulta de um misto de ter crescido numa zona mais rural e de ter visto de perto o cuidado com que o meu avô cultivava os alimentos”, conta à New in Porto.
Em 2018, formou-se em Medicina Veterinária e trabalhou durante cinco anos na área, incluindo uma experiência em Inglaterra. Mas o regresso a Portugal, durante a pandemia, trouxe uma mudança de perspetiva.
“Não me sentia realizada e sentia que estava a perder o meu propósito”. Ao mesmo tempo, começou a aproximar-se novamente da realidade dos pequenos agricultores e das dificuldades que enfrentam.
O ponto de viragem surgiu com histórias concretas. Produtores com colheitas por escoar, fruta deixada nas árvores por falta de rentabilidade, ervas aromáticas sem destino. “Conheci um produtor que tinha metade da sua produção em armazém porque não houve procura. Outro decidiu não colher limões porque o preço não compensava”.
Foi aí que surgiu a ideia. “Decidi dar um salto de fé e ver o que conseguia criar com excedentes de pequenos agricultores”. As tisanas foram o primeiro passo. Por um lado, porque sempre gostou de chás e infusões. Por outro, porque permitiam transformar matérias-primas perecíveis em produtos com maior durabilidade.
“Nas tisanas, as plantas e frutas são desidratadas e isso ajuda a controlar melhor o desperdício”, continua a fundadora.
Três anos depois, a Criatura trabalha com mais de dez agricultores de norte a sul do País e já chegou a vários mercados internacionais. O crescimento foi gradual, começou em feiras e eventos e rapidamente passou para lojas físicas — hoje são mais de 30, incluindo em países como França, Suíça e Alemanha.
A base do projeto mantém-se: dar valor ao que muitas vezes é descartado. Fruta “feia”, ervas fora do padrão comercial ou produções em excesso ganham uma nova vida nas infusões da marca. Todas as matérias-primas são biológicas e de origem nacional.
Ver esta publicación en Instagram
Entre os produtores parceiros está Igor Pinto, no Marco de Canaveses, que cultiva mirtilos com recurso a práticas sustentáveis, desde rega gota-a-gota a energia renovável. “Queremos provar que a agricultura biológica pode ser eficiente e produtiva, enquanto preserva a biodiversidade”, explica Diana Rego.
Também João Tiago Ferreira, produtor de lúcia-lima e tomilho, trabalha com a marca desde o início. Para ele, o maior desafio continua a ser o acesso ao mercado. “Muitas vezes dependemos de intermediários e não conseguimos escoar os produtos diretamente”, diz à New in Porto. A ligação à Criatura permite dar outro destino a essas matérias-primas.
A oferta inclui atualmente seis variedades de tisanas, com combinações que cruzam frutas, flores e ervas aromáticas. Entre as mais procuradas estão a infusão de hortelã, flor de sabugueiro e limão, de perfil fresco e cítrico, e a de hibisco, cavalinha e mirtilo, conhecida pela cor intensa e sabor mais leve. Cada embalagem custa 12€, mas há também kits e edições especiais, como a recente “Flower Tea Box”, pensada para oferecer, por 35€.
Recentemente, em março, a marca lançou uma nova linha pensada para os dias quentes: preparados para cocktails que transformam as suas misturas de plantas e fruta em bebidas frescas e aromáticas. A proposta é simples — basta adicionar 500 mililitros de álcool à escolha, como gin, rum ou vodka, deixar repousar durante cerca de seis horas e depois filtrar o preparado. O resultado são cocktails infusionados prontos a servir com gelo, com sabores que vão do hibisco e limão ao zimbro ou ananás com hortelã. Entre as opções estão, por exemplo, o “Pink Hibiscus Daiquiri”, com notas cítricas e florais, ou kits completos como o “Jungle Mixer”, que incluem também shaker, medidor e sugestões de receitas. Os preços variam entre cerca de 17,50€ para os preparados individuais e 49€ para o kit completo, pensado para recriar uma experiência de bar em casa.
Além do produto, há uma identidade clara. A Criatura aposta num design colorido e irreverente, desenvolvido em colaboração com a irmã e ilustradora portuense Teresa Rego. “Queríamos mostrar que uma marca sustentável não tem de ser aborrecida”, explica Diana.
A marca tem também à venda uma linha de peças em cerâmica artesanal, produzidas em Portugal e pintadas à mão, que incluem canecas e acessórios para chá. As peças são ilustradas por Teresa, o que lhes dá um caráter mais artístico e pessoal. Cada peça é única, pensada para acompanhar o ritual do chá no dia a dia, seja em casa ou como presente. As canecas estão disponíveis por 14€, enquanto acessórios como o infusor para chá custam 7,50€.
O reconhecimento não tardou. A marca já recebeu vários prémios nacionais e internacionais, incluindo o segundo lugar no programa europeu Empowering Women in Agrifood e, recentemente, o Prémio “Resiliência de Pequenos Agricultores e Comunidades Rurais”, atribuído pelo Crédito Agrícola em 2026.
Mais do que distinções, Diana vê estes momentos como validação do caminho escolhido. “Este prémio celebra o nosso trabalho diário: apoiar pequenos agricultores e transformar excedentes em infusões sustentáveis.”
Os planos agora passam por continuar a crescer, entrar no grande retalho e reforçar a presença internacional. Mas sem perder a essência. “Queremos chegar a mais pessoas, mas mantendo a ligação aos produtores e ao que nos trouxe até aqui”.
Pode acompanhar as novidades da marca através das redes sociais e espreitar os produtos no site, onde também pode comprá-los. Carregue na galeria para conhecer a oferta da marca.

LET'S ROCK






