Foram dez as novas estrelas que o Guia Michelin deste ano trouxe para Portugal. Duas delas tiveram um significado muito especial, sobretudo porque levaram ao palco um casal. Se Tiago Bonito já conhecia a sensação, Angélica Salvador, a esposa, viveu o momento pela primeira vez. E juntos formam o casal que levou ao topo os seus dois projetos no Porto, na gala que teve lugar a 10 de março, no Funchal.
Tiago foi distinguido com uma estrela pelo trabalho no Éon, o restaurante gastronómico do Palacete Severo, no Porto. Poucos minutos depois, foi a vez de Angélica subir ao palco para receber a primeira estrela Michelin do In Diferente, na Foz. Uma semana depois, admitem que ainda não conseguiram afastar-se totalmente daquele dia.
“Ainda estamos um bocadinho a reviver o dia porque é um dia marcante nas nossas vidas, e é um dia marcante para as nossas equipas”, resumem. A sensação prolongou-se nos dias seguintes, alimentada pelo carinho recebido, pela reação dos clientes e pela motivação renovada dentro de cada restaurante.
Para Tiago, o que aconteceu naquela noite não pode ser visto apenas como uma vitória pessoal. “Tem um sabor muito especial porque é um misto só. É felicidade para o projeto pessoal, é felicidade para o projeto onde estou atual, é felicidade para o trabalho da Angélica.” A cozinheira usa uma expressão ainda mais direta para resumir a experiência: “Foi tudo a dobrar”.
A conquista da chef de 42 anos do In Diferente teve também um peso simbólico especial. Brasileira, natural do Paraná, vive em Portugal há cerca de 20 anos e tornou-se a primeira brasileira a conquistar uma estrela Michelin no País. Mais do que um dado estatístico, encara-o como um sinal do caminho feito até aqui. “É uma validação do percurso”, diz. “No Indiferente criámos um restaurante com identidade e cada vez mais fomos aperfeiçoando e dando continuidade para poder chegar onde estamos.”
Angélica chegou a Portugal com 21 anos e começou a trabalhar como copeira. Depois passou a ajudante de cozinha e foi aí que percebeu que havia algo naquele ambiente que a fascinava. “Descobri o bichinho que não sabia que estava ali escondido. Comecei por esta área, nunca mais desisti, nunca mais saí.” A partir daí, o percurso construiu-se em cozinhas de hotéis e restaurantes de referência, entre o Algarve, Tróia, Porto e outras paragens, até chegar ao projeto que hoje lidera.
No In Diferente, faz questão de manter um lado da sua identidade. A cozinha parte da base portuguesa, mas nunca perde totalmente a ligação ao Brasil. “Tenho hoje em dia sempre alguma coisa ligada às minhas origens”, explica. Cita o tucupi, vindo do Amazonas, como um dos produtos que integra. “O meu menu é pensado sempre a colocar alguma coisa ligada às minhas raízes e contar uma história.”
Essa lógica ajuda também a explicar o nome do restaurante, que é uma forma de afirmar um projeto com personalidade própria, nascido da mistura entre raízes brasileiras, produtos portugueses e uma visão de fine dining.
No caso de Tiago Bonito, a estrela do Éon surge numa fase diferente do percurso, mas não menos importante. Natural de Coimbra, com carreira consolidada e passagens por várias cozinhas de referência, assumiu o projeto do Palacete Severo com a ambição de criar algo de raiz. “Criar o Éon é um desafio profissional, que me define dentro e fora da cozinha: sou uma pessoa muito inquieta e, na altura, senti que estava na hora de desafiar-me para algo novo e diferente”, admite o cozinheiro de 40 anos.
Quando conheceu o projeto, o edifício ainda estava em obras e a ideia inicial não previa um restaurante gastronómico. Os proprietários franceses queriam um bom restaurante, mais próximo de um registo casual de um bistrô. Tiago insistiu numa proposta mais ambiciosa e acabou por convencer a equipa a avançar com dois conceitos distintos: o Bistrô Severo e o Éon. “Conseguimos abrir os dois espaços com duas identidades distintas. São irmãos, mas com personalidades diferentes.”
O desafio não foi simples. O edifício, com 125 anos, trouxe limitações e obrigou a adaptações. “Todos juntos acreditámos que conseguíamos.” Essa visão surge várias vezes no discurso dos dois, sempre que falam das equipas, da liderança e da exigência diária de trabalhar em restauração.
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É também aí que a vida profissional e a pessoal se cruzam. Angélica e Tiago conheceram-se há cerca de 20 anos, no Algarve. Na altura, estava a dar os primeiros passos na cozinha e ele já trabalhava na área. Foram crescendo juntos, acompanhando mudanças, novas propostas, saídas e regressos. “A Angélica acompanhou-me sempre, deu-me apoio em todas as decisões profissionais”, recorda Tiago. Com o tempo, o percurso deixou de ser apenas paralelo e ganhou um projeto comum.
Esse projeto é o In Diferente, que os dois tratam como uma extensão da própria vida. “O nosso filho é o In Diferente”, afirmam. A frase ajuda a perceber o nível de entrega de um casal que vive a restauração dentro e fora da cozinha, mas que garante conseguir separar os dois planos quando é preciso. “Conseguimos separar. Há dias para trabalhar e há dias para os dois”, dizem.
Na prática, o que os une também os obriga a negociar, discutir e tomar decisões em conjunto. Angélica fala em “discussões positivas” sobre o projeto. Tiago insiste no respeito pelo espaço, horário e rotina um do outro. Nenhum dos dois romantiza a exigência da alta cozinha, mas assume que, quando existe base, o trabalho deixa de ser um peso isolado e passa a fazer parte de uma construção comum.
Na gala Michelin, isso ficou especialmente visível. Angélica quase não teve tempo de processar a estrela de Tiago antes de ouvir o próprio nome. “Passaram três ou quatro minutos de eu estar a comemorar o Tiago e chamaram o meu nome.”
“É uma emoção muito grande”, resume Tiago. “Naquele momento pensamos nas equipas, nos clientes, nos colegas que trabalham connosco.”
Agora, com duas estrelas em casa, a prioridade não passa por mudar a identidade nem por alterar o rumo dos restaurantes. Pelo contrário. “É proteger mais a essência dos projetos”, defendem. A responsabilidade aumentou, mas a resposta passa por continuar a fazer o que os trouxe até aqui, com mais foco, mais exigência e os pés bem assentes na terra.

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