A fachada de vidro foi o primeiro desafio e acabou por dar nome ao projeto. Durante as obras, Victoria Fraga Alvares olhou para o exterior e comentou com o marido, Pedro Henrique Freitas, que se sentia dentro de um aquário. A observação ficou e batizou o Aquário, o novo snack bar que abriu a 18 de agosto.
Victoria, de 27 anos, e Pedro, de 29, são brasileiros e vivem no Porto há cinco e sete anos, respetivamente. Conheceram-se há pouco mais de três anos, quando trabalhavam num bar da cidade e atravessavam uma fase de incerteza profissional, mas a vontade de crescer na restauração acabou por aproximá-los. Entretanto, casaram-se e começaram a imaginar um negócio em conjunto.
O percurso de Victoria começou longe da cozinha. Estudou e trabalhou em advocacia no Brasil, mas passou grande parte da pandemia a cozinhar em casa, um interesse que a levou a Portugal para fazer uma formação breve na área. A intenção era regressar ao país de origem, mas acabou por se apaixonar pelo Porto e ficou.
Trabalhou na cozinha, em salas de restaurantes e ao balcão de uma cervejaria, ao mesmo tempo que foi aprofundando os conhecimentos com um curso de vinhos portugueses, uma certificação em Food Business e formações em gestão e organização. No Aquário, assume a administração, a gestão da equipa e a identidade visual, além de receber os clientes. “É a combinação entre gestão, estética e hospitalidade que mais define o meu papel no projeto”, explica.
Já Pedro, chegou a Portugal com o objetivo de continuar a carreira como jogador de futebol, mas várias lesões obrigaram-no a procurar outro caminho e foi com a ajuda de um amigo que conseguiu o primeiro emprego numa cozinha. Nos cinco anos seguintes, passou por uma casa de brunches, chegou a chef de uma risoteria e trabalhou numa cervejaria, onde conheceu Victoria.
O regresso à cozinha aconteceu no Provável, seguindo-se o Bosco e um estágio no DOM, restaurante de Alex Atala, em São Paulo, distinguido com duas estrelas Michelin. Já no Porto, integrou a equipa da Casa de Chá da Boa Nova, liderada por Rui Paula, antes de avançar com o negócio próprio.
O casal demorou cerca de dois meses a transformar o antigo café e pastelaria tradicional num espaço que refletisse aquilo que procuravam. “Queríamos que fosse algo sofisticado, mas, ao mesmo tempo, despretensioso, onde as pessoas pudessem comer bem ou simplesmente tomar uns copos depois do trabalho”, contam à NiP.
O arquiteto Arthur Abrantes, amigo dos fundadores, ajudou a tirar partido da área reduzida, num projeto em que o chão de madeira foi recuperado e o mesmo material passou para o topo do balcão, revestido com tijolos de vidro que refletem a luz da fachada. As cortinas brancas filtram a luz da rua, enquanto as mesas claras, as cadeiras de madeira e as flores altas criam um ambiente simples e luminoso, completado por uma fotografia da artista Paula Nardy e pelas garrafas de vinho expostas, uma solução decorativa que também responde à falta de arrumação.

A sala tem 24 lugares e a cozinha aberta permite aos clientes acompanhar o trabalho da equipa, mas em breve haverá também uma esplanada com capacidade para dez pessoas, junto à zona do bar. “Para nós, o Aquário é uma extensão da nossa própria casa. Tudo foi pensado e criado por nós, desde a cozinha e a carta até à estética, ao serviço e à forma como recebemos as pessoas.”
“É um bar onde se come bem”, resumem ambos sobre o conceito inspirado na cultura dos bares brasileiros, sobretudo de Belo Horizonte, onde Victoria cresceu, e no hábito do casal de receber amigos em casa. Foi com essa ideia que desenharam uma carta pensada para ocupar o centro da mesa e passar de mão em mão. A experiência pode começar pela focaccia da padaria vizinha Generosa, acompanhada por manteiga noisette de milho feita na casa (6€), mas também há azeitonas marinadas com tomilho e citrinos (3€), pickles caseiros (4€), presunto de produção local (4€) e uma seleção de queijos portugueses, servida com mel (6,50€).
Nos pratos maiores, Pedro aplica técnicas associadas à alta cozinha sem perder o espírito informal do espaço, como acontece com o crudo (16€), que junta peixe do dia, leche de tigre de pêssego, azeite de ervas, rabanetes fermentados, ovas e salicórnia. Já a barriga de porco (15€) cozinha durante 16 horas numa marinada de molho de soja e molho de ostras, antes de chegar à mesa com couve-roxa e sésamo.
O rosbife de vazia (15€) reinterpreta o vitello tonnato do Piemonte, região italiana onde Victoria colaborou na direção criativa de um documentário da Slow Food Brasil, e chega à mesa acompanhado por molho de atum e anchovas, pickles de mostarda e chalota, alcaparras fritas e azeite de endro.
Dois dos cinco pratos de partilha são veganos: a beterraba fermentada com creme de castanha de caju e amêndoas torradas (10€) e a tartelette de massa filo com puré de cenoura e cogumelos confitados (10€). Para terminar, há gelado (3€) e uma pavlova sazonal com compota caseira de frutos amarelos e gelado de tangerina (6€).
Grande parte dos ingredientes chega de comerciantes próximos. As carnes são compradas no Talho do Bolhão, os queijos e presuntos vêm da Casa Lourenço e o peixe é adquirido à Sónia, a poucos metros do restaurante. Os legumes chegam das frutarias de Cedofeita e as flores são escolhidas todas as terças-feiras à Teresa, no Mercado do Bolhão.
Victoria selecionou os vinhos, com opções a copo entre 4€ e 6€ e uma carta que inclui brancos, tintos, espumante e vinho do Porto, com referências como Muxagat, Nat’Cool, Bageiras e Kopke. No balcão, Rafael Pinto prepara clássicos como caipirinha (6€), port tonic, aperol e gin tónico (7€), cosmopolitan e pornstar martini (8€), negroni e whisky sour (10€).
O primeiro cocktail de assinatura chama-se Aquário e é uma bebida clarificada e translúcida, infusionada e decorada com salicórnia, responsável pelas notas salgadas e minerais que remetem para a identidade marítima do espaço.
A carta vai mudar consoante a estação, o clima e a disponibilidade dos produtos, estando também previstos eventos com cozinheiros convidados, provas e a possibilidade de começar a servir almoços em alguns dias. A 18 de outubro, o espaço recebe a cozinheira paraense Mandy para uma homenagem ao Círio de Nazaré, uma das principais celebrações do Norte do Brasil.
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