Quando Jéssica Ferreira começou a fazer bolos para vender na faculdade, Afonso Ligory encarregava-se de levar algumas encomendas para a sua. Ela terminava o curso de Secretariado Executivo e ele preparava-se para trabalhar na marinha mercante. A pastelaria era uma forma de ganhar algum dinheiro extra, mas acabou por se transformar num projeto profissional que atravessou uma pandemia, uma mudança de carreira e uma viagem do Brasil até Portugal. A história continua agora na Marquise, a confeitaria e café que o casal abriu a 16 de junho, na Praça do Marquês de Pombal, no Porto.
Jéssica tem 33 anos e Afonso, 32. Naturais de Belém do Pará, no norte do Brasil, conhecem-se desde a adolescência e viram a amizade dar lugar ao namoro e, mais tarde, ao casamento. Pelo caminho, os primeiros bolos de colher e tartes vendidos entre colegas despertaram em Jéssica a vontade de aprender mais sobre pastelaria. “Depois de algum tempo, senti necessidade e curiosidade de me aperfeiçoar e fui para o Paraná fazer um curso de confeitaria e pães”, conta. Passou seis meses em Curitiba, em 2015, antes de regressar a Belém para preparar a abertura do primeiro negócio.
Em 2017, inaugurou a Chez Nous, um espaço com capacidade para 40 pessoas e uma equipa de 12 funcionários, onde Afonso a apoiava, embora ainda não fosse sócio. Parte dos bolos e tartes mudava regularmente e o café de especialidade era outra das apostas, numa altura em que, segundo Jéssica, ainda era difícil encontrá-lo nos estabelecimentos da cidade. “O conceito foi bem aceite, tínhamos clientes frequentes e fiéis, mas, quando chegou a pandemia, não conseguimos manter e decidimos fechar.”
Depois do encerramento, os dois mudaram de área e passaram a trabalhar na indústria do açaí, fruto com uma forte ligação à região onde cresceram. Foi precisamente esse negócio que os trouxe a Portugal para explorar oportunidades de mercado e, ainda hoje, acompanham remotamente a gestão e a administração da empresa, em paralelo com a Marquise.
“O Afonso acreditava muito na ideia e foi o maior incentivador”, diz Jéssica. Entretanto, uma conhecida ofereceu-lhes o trespasse de um espaço no Marquês, onde tinham funcionado negócios de açaí e gelados. Recusaram duas vezes, por sentirem que ainda não estavam preparados, mas a proposta voltou a surgir quando já começavam a pensar em abrir um novo projeto. “Numa manhã de sábado, ele recebeu uma ligação a perguntar mais uma vez se não queria ficar com o espaço. Olhei para ele e disse: ‘Não é possível, vamos ficar com este espaço, acho que tem de ser nosso, vamos abrir a confeitaria.’”
Desta vez, decidiram avançar, mas com uma estrutura mais pequena do que aquela que tinham tido no Brasil. A remodelação e os equipamentos custaram cerca de cinco mil euros, além do trespasse, e, para reduzir o investimento e acelerar a abertura, foram os próprios a desenhar o interior e a fazer grande parte dos trabalhos, desde pintar as paredes e aplicar os revestimentos até instalar as prateleiras.
O resultado é uma casa com oito lugares, tons quentes, iluminação suspensa e um grande “Q” pintado na parede pela própria Jéssica, que acabou por se tornar o símbolo da marca. Já o nome Marquise junta a admiração da fundadora pela cultura francesa à localização do espaço: é o feminino francês de marquês.

Na montra, essa combinação de referências traduz-se numa pastelaria que Jéssica descreve como autoral. Algumas receitas são suas, enquanto outras partem de doces que conheceu ao longo do percurso e que adapta à sua forma de trabalhar. É o caso do brigadeiro brasileiro, que aparece nos recheios combinado com técnicas da pastelaria francesa. “Quero apresentar um doce mais leve, mais equilibrado, que seja prazeroso da primeira à última garfada”, explica. “Preferimos ter menos coisas, mas que tenham identidade, história e um motivo para estarem ali.”
O bolo de leite e morangos é o mais vendido e combina massa genoise, morangos macerados e mousse de leite. Entre os habituais estão também o Red Velvet, com creme de queijo, o Chocolatudo, com recheio de chocolate e cobertura de ganache, e o Dilatte, que leva massa de doce de leite e um recheio cremoso de leite.
As fatias custam entre 4,90€ e 5,50€ e os bolos inteiros, no tamanho apresentado na montra, variam entre 35€ e 45€. A seleção inclui ainda um bolo do mês, que já passou por combinações como coco e limão, maracujá e chocolate e brigadeiro com frutos vermelhos.
Para encomendas, há os sabores habituais e opções como coco e limão ou floresta negra, com tamanhos entre os 23€ e os 55€. Os bolos da casa devem ser pedidos com 24 horas de antecedência, enquanto as personalizações de sabor exigem pelo menos 48 horas. Na decoração, Jéssica segue uma linha clássica, com preferência por acabamentos simples.
A oferta salgada completa a montra com pão de queijo, coxinhas, tostas e sandes. O croque monsieur combina brioche, mostarda Dijon, queijo emmental, fiambre e béchamel, enquanto a sandes de pernil junta carne assada, cebola caramelizada e maionese de coentros. Para beber, há espresso, cappuccino, latte, versões frias de café, chocolate quente e chás.
Toda a pastelaria é produzida no local, enquanto os salgados e os pães de fermentação natural chegam através de fornecedores, uma solução adaptada à dimensão da cozinha e da equipa. Com a procura a crescer, o casal está agora a integrar mais uma pessoa.
“O público brasileiro tem mais familiaridade com este tipo de bolo. O público português surpreende-me quando diz que estava tudo maravilhoso”, conta Jéssica. Depois de uma primeira confeitaria no Brasil, do encerramento durante a pandemia e de um recomeço num espaço mais pequeno no Porto, é essa resposta que lhe dá confiança. “Os elogios fazem-nos ver que estamos no caminho certo.”
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