Aos 28 anos, Artur Silva decidiu sair das cozinhas de hotéis e restaurantes de luxo para cozinhar diretamente em casa dos clientes. Depois de vários anos na restauração, lançou a 15 de janeiro o projeto Artur Private Chef, um serviço personalizado que leva experiências de alta cozinha a jantares intimistas caseiros.
A mudança não foi apenas profissional, foi também pessoal. O ritmo exigente da hotelaria deixava pouco espaço para a família e para a vida fora da cozinha. “O que faltava mesmo era tempo. Tempo para mim, para a minha família e para a minha vida pessoal”, explica. A decisão nasceu dessa necessidade de equilíbrio e de proximidade com quem se senta à mesa.
Natural de Felgueiras, o chef cresceu rodeado pela restauração da família. Antes de pensar numa carreira, já ajudava nas tarefas mais simples da cozinha. Lavava loiça, descascava batatas e provava tudo o que aparecia.
Entre todas as memórias, há uma que permanece central: o bolo de bolacha. Mais do que uma sobremesa, tornou-se um símbolo familiar. Recorda o ritual de o preparar com a mãe, o esforço de bater as natas e a voz da tia a repetir que era preciso bater mais para ficar perfeito. Hoje continua a ser uma das sobremesas de eleição, pela simplicidade direta e pela carga emocional.
A ligação à cozinha também veio dos pais. O pai teve uma relação forte com a hotelaria, interrompida por problemas de saúde. A mãe sempre cozinhou em casa e mantém o sonho de abrir uma pequena tasca. Esse ambiente familiar transformou a cozinha num legado natural.
A decisão de seguir a vida na cozinha não foi complicada. Frequentou o curso profissional de Cozinha e Pastelaria no Externato Senhora do Carmo, mas a adaptação inicial não foi simples. A timidez marcou os primeiros meses e trouxe insegurança. “No primeiro ano tive muita dificuldade em adaptar-me. Tinha medo de errar e acabava por me retrair”, recorda. O contacto com cozinhas reais durante os estágios mudou esse cenário e confirmou que estava no caminho certo.
Seguiram-se passagens por duas casas de referência: o The Yeatman e o Altis Belém. No Altis recebeu uma proposta de trabalho ainda antes de terminar o estágio, sinal de reconhecimento precoce. Já no hotel de Vila Nova de Gaia, onde permaneceu cerca de três anos e passou por várias secções, viveu uma aprendizagem determinante. “Foi aí que percebi verdadeiramente a exigência da profissão e o quanto ainda tinha para aprender”, explica.
Curiosamente, foi na cozinha do staff que mais cresceu. Preparava diariamente sopa, peixe, carne e opções vegetarianas para dezenas de pessoas, muitas vezes sozinho e recém-formado. “Foi uma enorme responsabilidade, mas ensinou-me que cozinhar é humildade antes de ser ego”, recorda.
O passo seguinte aconteceu no Hotel Infante Sagres, no Porto. Entrou como cozinheiro de primeira, evoluiu para subchefe e acabou como chef, liderando uma equipa de cerca de 15 pessoas desde a primavera do ano passado, percurso que se estendeu até dezembro. “Foi o lugar onde mais cresci e onde senti verdadeira responsabilidade sobre uma equipa e um projeto”, resume.
Trabalhou sob a direção do chef executivo Sylvain Royer, aprofundou técnicas de cozinha francesa e acompanhou a mudança do restaurante para um conceito mais jovem, com maior foco em vegetais e sazonalidade. A exigência diária marcou esse período. “Foi uma fase muito intensa e desafiante, mas essencial para a minha maturidade profissional”, explica.
Apesar da progressão, começou a sentir que algo não estava alinhado com o que procurava para a vida. A necessidade de criar sem estruturas rígidas e de estar mais próximo das pessoas tornou-se cada vez mais evidente. “Sentia que me faltava tempo para a família e para mim. Precisava de encontrar outra forma de viver a cozinha”, admite.
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Abrir um restaurante chegou a ser hipótese, mas o investimento necessário tornava o cenário difícil. Em vez disso, decidiu apostar num modelo ainda pouco comum em Portugal: ser chef privado. “Queria algo que pudesse chamar de meu, mais intimista, onde conseguisse criar memórias verdadeiras”, explica. Assim nasceu o Artur Private Chef, um projeto sem fórmulas fixas, aberto a diferentes formatos e pensado para se adaptar a cada cliente.
O conceito começou a ser apresentado em dezembro do ano passado e vai além de levar um restaurante a casa. Procura criar experiências à medida, ajustadas ao espaço, ao momento e às pessoas. Num dia pode ser um jantar para dois, no outro um evento ou um menu criado de raiz.
Tudo começa com o primeiro contacto. O cliente recebe uma apresentação com o conceito, sugestões de menu e informações práticas. Segue-se a definição da data, número de convidados e preferências alimentares.
No dia do serviço, Artur desloca-se a casa do cliente com parte das preparações feitas antecipadamente. Finaliza os pratos na cozinha do espaço, apresenta cada momento do menu e mantém proximidade com os convidados ao longo da refeição. No final, inclui a limpeza completa da cozinha.
Os menus base variam entre 55€ e 85€ por pessoa, com confeção, empratamento e serviço incluídos. As bebidas podem ser acrescentadas à parte e existem alternativas como buffet ou formatos mais descontraídos. “O objetivo é que as pessoas se sintam satisfeitas e com vontade de repetir”, resume.
Lançado a 15 de janeiro, o projeto está numa fase inicial, sustentado por recomendações próximas, eventos pontuais e novas parcerias. O crescimento futuro passa por formar equipa, criar um espaço próprio de produção e, eventualmente, desenvolver uma sala para eventos privados.
Apesar dessa ambição, a essência mantém-se simples: cozinhar com proximidade, criar memórias e valorizar o momento à mesa. “A verdadeira sofisticação não está no excesso. Está no cuidado. Talvez por isso tudo continue a regressar ao mesmo ponto de partida: uma mesa, pessoas à volta e comida feita com verdade. Como um bom bolo de bolacha”, defende.
Carregue na galeria para conhecer o trabalho do chef.








