Há cerca de sete anos, Ana Fernandes passava os dias a trabalhar na área da audiologia e as noites numa das cozinhas mais conhecidas do Porto. Não recebia salário e nem sequer sabia se queria trabalhar na restauração. Só sabia que precisava de mudar de vida. Hoje, aos 31 anos, acaba de abrir dois novos espaços da Emiglia no Porto — um pasta bar na Rua do Rosário e uma fábrica-loja na Rua do Conde Ferreira — depois de transformar um pequeno projeto de massas feitas em casa numa das marcas artesanais mais conhecidas da cidade.
Tudo começou quando Ana conheceu o responsável pelo restaurante Antiqvvm, no Porto, através do trabalho que tinha na área da saúde. Durante uma conversa, comentou que sentia curiosidade pela cozinha e vontade de explorar um caminho profissional diferente. Pouco tempo depois, foi convidada a integrar a equipa do restaurante em regime de voluntariado, uma vez por semana, depois do horário laboral.
“Foi aí que tive o primeiro contacto com massas frescas e percebi que queria ter um projeto ligado à cozinha”, conta a portuense de 31 anos à NiP.
Ao longo de cerca de um ano, Ana Fernandes conciliou a profissão na audiologia com as noites de quinta-feira no Antiqvvm, onde aprendia o funcionamento de uma cozinha profissional. Foi também nesse período que percebeu que não queria ser chef, mas sim criar uma marca própria.
Em 2020, com 25 anos e em plena pandemia, despediu-se da área da saúde e começou a produzir massa fresca artesanal em casa para vender através do Instagram. Nascia assim a Nonna Pasta Fresca, um projeto criado a partir da cozinha doméstica da fundadora, onde tudo era feito manualmente e entregue ao domicílio.
“Na altura, a ideia era apenas vender massas para as pessoas cozinharem em casa. Nunca imaginei que, passados cinco anos, estivéssemos a fornecer mais de 25 restaurantes no Porto.”
Hoje em dia, Ana lidera uma marca que acaba de entrar numa nova fase. A antiga Nonna Pasta Fresca passou oficialmente a chamar-se Emiglia e divide-se entre dois espaços distintos inaugurados a 11 de maio: o Emiglia Pasta Bar, na Rua do Rosário; e o Emiglia Pasta Fresca, na Rua do Conde Ferreira, em Campanhã.
Apesar de terem aberto no mesmo dia, os conceitos são diferentes — e Ana faz questão de reforçar essa distinção. “É importante as pessoas perceberem que existem dois espaços e que só num deles é possível fazer refeições.”

O restaurante ocupa a antiga morada da loja e fábrica da marca, na Rua do Rosário. Já o novo espaço em Campanhã funciona exclusivamente como fábrica, cozinha de produção e loja de massas frescas, molhos e refeições semi-prontas. A separação surgiu sobretudo por falta de espaço.
“Já não conseguíamos ter a fábrica junta no mesmo sítio que o restaurante”, explica. “Decidimos dividir as duas coisas e criar um espaço mais confortável para as pessoas.”
O rebranding aconteceu ao mesmo tempo. O nome Nonna surgiu numa fase em que Ana queria transmitir tradição e cozinha familiar. Além disso, utilizava muitos ingredientes vindos do quintal da avó nas receitas da marca. Agora, o projeto chama-se Emiglia — precisamente o nome da avó.
“Precisávamos também de um posicionamento diferente porque já existiam várias marcas chamadas Nonna. Queríamos distinguir-nos.”
A nova identidade mantém a ligação à tradição italiana, mas aposta numa abordagem mais jovem, informal e descomplicada. A fundadora nunca quis criar um restaurante italiano clássico. “Queríamos ter um pasta bar e não um restaurante italiano tradicional”.
A empresária acrescenta: “Não queríamos servir uma carbonara cheia de trufa ou versões demasiado elaboradas. Queríamos servir uma carbonara simples.”
O novo Emiglia Pasta Bar tem cerca de 40 lugares sentados e foi desenhado em parceria com o atelier de arquitetura Cunha del Solar. O espaço aposta em tons bordô, inox, madeira clara e uma cozinha aberta, mantendo o ambiente informal que já existia anteriormente, agora com mais conforto e capacidade.
A carta foi construída a partir dos pratos mais vendidos da marca e de receitas italianas tradicionais. “Quisemos abranger várias zonas de Itália mantendo preços justos e próximos daquilo que as pessoas encontram lá.”
Entre os pratos disponíveis estão o spaghetti alla carbonara (€12), preparado com gema de ovo, guanciale, parmesão e pimenta preta, o pappardelle al ragù (€12), com carne lentamente cozinhada e desfiada, e o clássico cacio e pepe (€11), feito com molho de queijo pecorino e pimenta preta. A carta inclui ainda casarecce al pesto (€12), servido com pesto, tomate cherry e burrata, linguini ai gamberi (€13), com camarão, bisque, tomate cherry e malagueta, e lasagna bolognese (€13), preparada com carne de vaca e porco, bechamel e parmesão. Há também ravioli de três queijos e funghi (€13), opções vegetarianas e vegan e tiramisù (€7).
No Emiglia Pasta Fresca, em Campanhã, o foco está na produção e venda de produtos para levar para casa. Os clientes podem comprar massas frescas simples, de alho, malagueta ou tomate seco, com preços entre os 4€ e os 6€. Há também molhos como pesto (5€), tomate e manjericão (10€), parmesão (12€) e ragù (15€). A loja vende ainda ravioli frescos, lasanhas semi-prontas e tiramisù por encomenda. As lasanhas custam 20€ para duas pessoas e 38€ para quatro.
Grande parte dos ingredientes continua a vir diretamente do quintal dos avós da fundadora. Espinafres, abóbora, alho, manjericão e malaguetas entram regularmente nas massas e molhos produzidos pela equipa. “Somos nós que produzimos todos os molhos e tentamos sempre utilizar ingredientes italianos e produtos frescos”, refere Ana.
Além dos dois espaços próprios, a Emiglia fornece atualmente mais de 25 restaurantes da cidade do Porto. As entregas são feitas diretamente pela equipa várias vezes por semana. “Conseguimos garantir a qualidade porque somos nós que tratamos das entregas e mantemos uma relação muito próxima com os restaurantes.”
Para esta nova fase, Ana Fernandes conta também com Ricardo Rodrigues como sócio. O empresário integra o Grupo do Avesso, responsável por espaços como Sushiaria, em Leça da Palmeira, Fauna & Flora e Faminto, em Lisboa, Fava Tonka, em Leça, e Brusco, na Foz.
A adesão dos clientes aos novos espaços acabou por superar as expectativas da equipa. Tanto que a entrada nas plataformas de delivery teve de ser temporariamente adiada. “Não estávamos mesmo à espera desta adesão”.
Apesar do crescimento, Ana garante que o projeto continua a seguir a mesma lógica que já tinha em casa, há cinco anos: fazer massas artesanais de forma simples, acessível e sem perder identidade.
“As pessoas ficam felizes por verem o projeto crescer sem perder a essência”.







