Durante o dia, Sílvia Baptista trabalha como web developer. À noite e aos fins de semana, passa horas a esculpir personagens, pintar detalhes comestíveis e a transformar universos de videojogos, anime e fantasia em bolos e bolachas personalizadas. O resultado chama-se Sahri Dessert Art, uma marca de pastelaria geek lançada oficialmente em janeiro, no Porto, mas que começou muito antes disso, entre testes na cozinha, cosplay, programação e uma obsessão assumida por cultura pop.
Há bolos inspirados em Pokémon, referências a “World of Warcraft”, bolachas com estética retro de arcade e sobremesas que parecem pequenas peças de coleção. Alguns demoram quase 20 horas a concluir. Outros exigem três dias de trabalho, planeamento estrutural e dezenas de detalhes modelados em chocolate.
“Adoro o universo geek. Sou geek desde que me conheço”, conta a portuense de 35 anos à NiP.
A ligação a este universo começou ainda nos anos 90, quando a mãe comprou um computador para trabalhar em casa. Sílvia passava horas a explorar os CD de demos que vinham com o equipamento e rapidamente se apaixonou pelos videojogos. Mais tarde chegou o primeiro Game Boy e, daí para a frente, vieram os jogos online, as cartas, as coleções, os universos de fantasia e a cultura gaming que ainda hoje faz parte da sua vida.
Ao mesmo tempo, existia outro lado igualmente forte: o artístico. Sílvia estudou artes, sempre gostou de pintura, escultura, bordado e trabalhos manuais. A pastelaria acabou por surgir como ponto de encontro entre essas duas áreas.
“Mesmo a programação tem um componente artístico. E a pastelaria acabou por ser o curso natural das coisas”, explica.
Hoje continua a trabalhar na área tecnológica, sobretudo ligada à saúde, enquanto gere sozinha toda a operação da Sahri Dessert Art. Faz produção, atendimento, orçamentos, redes sociais, packaging, fotografia e desenvolvimento do site da marca. Tudo encaixado entre reuniões, aprovações de trabalho e pequenas pausas ao longo do dia.
“Há minutos que contam. Se tenho dez minutos livres, aproveito para editar conteúdo, responder a mensagens ou planear encomendas.”
A marca começou informalmente no verão do ano passado, entre julho e agosto. Na altura, Sílvia ainda procurava perceber qual seria a identidade do projeto. Sentia que estava a comunicar “para ninguém” até participar no primeiro mercado presencial este ano.
“Percebi que fazia mais sentido falar para pessoas que eu compreendo e que me compreendem a mim.”
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Foi só em janeiro deste ano que decidiu assumir totalmente a vertente geek da marca — algo que hoje está presente não só nos bolos, mas também na linguagem usada no site, nos nomes dos sabores e até na comunicação das redes sociais. Os recheios têm nomes como “Choco Critical Hit”, “Pixel & Cookie”, “Dark Ruby” ou “Comfort Gaming”. Há referências subtis a RPG, videojogos e cultura online espalhadas pela marca inteira, incluindo “easter eggs” no site.
“Não quero focar-me só em jogos. Acho que dentro de todos nós existe um geek, seja científico, artístico ou cultural.”
Grande parte do trabalho é autodidata. Sílvia estima que cerca de 85 a 90 por cento do seu conhecimento advém da pesquisa própria, experiências e cursos online feitos ao longo dos últimos anos. Hoje em dia continua a estudar técnicas de chocolataria e modelagem artística através de formações internacionais, sobretudo dos Estados Unidos e do Brasil.
O passado ligado ao cosplay também acabou por influenciar muito a forma como constrói os bolos. As técnicas de escultura, estruturas internas, pintura, teoria da cor e modelagem são frequentemente adaptadas para a pastelaria. “Muitas das técnicas podem ser transferidas. O conhecimento fica.”
Isso nota-se especialmente nas criações mais complexas. Um dos projetos mais exigentes até agora foi um bolo de casamento de dois andares, com rosas e borboletas totalmente modeladas em chocolate. Demorou cerca de três dias a concluir e obrigou a um planeamento minucioso, incluindo transporte até à Ribeira do Porto.
Outro dos bolos mais ambiciosos foi uma criação inspirada em Pokémon, feita em 3D, que demorou entre 16 e 20 horas de trabalho distribuídas por quase três dias. “Mesmo antes de fazer o bolo, há muito trabalho de estrutura e planeamento.”
Um dos objetivos da pasteleira é tornar quase tudo comestível. Sempre que possível, evita elementos decorativos artificiais e tenta construir figuras, texturas e detalhes apenas com chocolate modelar e outros ingredientes consumíveis. “Se a pessoa puder comer, eu quero que ela coma.”
Atualmente, a Sahri Dessert Art funciona sobretudo por encomenda online, com levantamento local no Porto. As bolachas podem ser enviadas por correio para todo o País. No site existem opções mais standard, mas os projetos mais personalizados acabam quase sempre por passar diretamente pelo contacto direto com a marca. Sílvia pede pelo menos 15 dias de antecedência para conseguir desenvolver cada encomenda com tempo.
Os preços começam nos 28€ para um bento cake simples, de 16 fatias, e podem ultrapassar os 200€ em projetos maiores e esculpidos. Há cinco tamanhos diferentes de bolos disponíveis, além de bolachas decoradas, bolos de casamento e sheet cakes personalizados.
Os sabores disponíveis incluem combinações como chocolate com ganache, red velvet com framboesa, manteiga de amendoim, laranja com cream cheese ou Oreo. Alguns continuam em desenvolvimento experimental.
Apesar de estar focada sobretudo no Porto, já recebeu encomendas de Coimbra, Aveiro, Sintra e Charneca da Caparica. Uma das mais especiais veio de uma cliente francesa que estava de férias no Porto e que quis encomendar um bolo durante a viagem.
“Fico muito feliz por saber que alguém veio passar férias cá e decidiu escolher-me.”
O crescimento ainda é recente, mas Sílvia sente que encontrou finalmente um equilíbrio entre o lado técnico da programação e a componente criativa que sempre precisou de manter presente na vida. “Aprendi muito sobre resiliência, disciplina e paciência. Às vezes é preciso confiar no processo.”
Se pudesse criar um bolo sem qualquer limite de tempo ou orçamento, já sabe exatamente qual seria. “Gostaria de fazer Hogwarts inteira ou então a Estrela da Morte de Star Wars. Mas grande.”
Carregue na galeria para conhecer melhor o trabalho de Sílvia Baptista.







