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Igrejinha, o novo bar do Porto onde a blasfémia se perdoa de copo e prato cheio

No spot da Rua da Alegria há petiscos portugueses e brasileiros para provar, sob o olhar das santas locais.
Nesta igreja não há óstias.

As mãos em forma de prece desenham-se na montra da pequena loja na Rua da Alegria, no Porto. No interior, figuras santas emolduradas espalham-se pelas paredes. Mas um segundo olhar é tudo o que basta para perceber que pouco há de religioso neste bar.

Os néons vermelhos dão-lhe um ar profano. As santas não são santas, mas sim figuras pop em farda de santo: Beyoncé, Britney Spears, o Padrinho. O brasileiro Rodrigo Soares imaginou o espaço que, confessa, “não passa de uma brincadeira”. Optou por não usar santos reais — e fazer estas criações com ajuda da IA — para “não ofender ninguém”.

Pelo contrário, o Igrejinha Boteco, a funcionar desde 10 de agosto, quer é mesmo que quem o visita beba bem e coma ainda melhor. Em 2021, nasceu naquele mesmo espaço o Tonton Cake, uma pastelaria criada pelo brasileiro de 50 anos, que trabalhou três décadas como estilista e diretor criativo.

Só mais tarde regressou à paixão pela cozinha, alimentada desde a adolescência. Começou pelos doces, passou para os salgados e regressou às sobremesas numa passagem pela parisiense Cordon Bleu. Já a morar no Porto, quis criar ali algumas das mais bonitas tarteletes que a cidade viu nos últimos anos.

“Eu já tinha imaginado uma evolução para a Tonton. Essa marca nasceu como uma referência à infância, aos meus sobrinhos. Depois haveria uma evolução para a adolescência e depois para a idade adulta, que seria o bar”, conta sobre o conceito que tinha idealizado. Só que “o boom imobiliário” trocou-lhe os planos de crescimento.

Chegou a ver outras possibilidades, uma loja nova no Porto. Eventualmente Lisboa. Acabou por decidir pôr as tarteletes em pausa, apesar “do muito sucesso”, para as recuperar mais adiante, num “contexto melhor”.

“Sou meio inquieto”, confessa. E, por isso, preferiu fazer uma mudança radical, do mundo cor de rosa do Tonton e dos doces para o ambiente blasfemo desta capelinha que combina o espírito brasileiro do boteco e do bar português.

A ideia, mais uma vez, nasceu no seio da família. “Quando a minha irmã mais nova nasceu, foi construída uma capela para ela ser batizada. Isso ficou gravado na minha cabeça: para mim, que sou mais velho, nada. E agora decidi que iria ter a minha própria igreja (risos).”

“Não é uma crítica. Não tenho relação nenhuma com o catolicismo. É simplesmente o meu lado criativo e artístico a brincar com esses códigos”, confirma.

Além dos shots e cocktails com nomes criativos — da pink lemonade com cachaça chamada Cu de Padre (4,99€) à caipirinha Besta Safada (5,99€) — há inúmeros petiscos. Da polenta frita (2,99€) ao bestseller Dadinho de Tapioca (5,49€), tapioca com queijo coalho, cortado aos cubos e frito, servido depois com uma geleia apimentada.

“Quis puxar para esse lado do nordeste brasileiro, onde vivi quatro anos, mas também tenho coisas do sul e de Minas Gerais, entre os salgadinhos. Tenho aquilo que gosto de comer, no fundo”, explica. Tudo para petiscar num espaço completamente renovado, sempre com esse lado católico como inspiração.

Para o futuro, fica ainda a promessa de que as constantes chamadas para trazer de volta as tarteletes não vão ficar esquecidas. “Há mais coisas a caminho”, garante Rodrigo. E enquanto isso não acontece, a missa noturna mantém-se em vigor na nova Igrejinha da cidade, sempre das 17 às 22 horas, de quarta a domingo.

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