As últimas semanas têm sido uma azáfama. Entre anúncio de encerramento de um dos espaços e a abertura de uma nova loja, a vida de Américo Pinto tem sido agitada. Mas o que o dono do Gazela garante é que os pratos, as cervejas, a equipa e até o molho picante, cuja receita continua a ser um segredo, continuam a servir-se como sempre na zona da Batalha. A Cervejaria Gazela abre esta quarta-feira, 23 de setembro, a maior casa da sua história, na Rua Alexandre Herculano, no Porto. A mudança, porém, não aconteceu apenas por vontade de crescer: o edifício onde funcionava a Gazela 2 foi vendido e deverá dar lugar a um hotel.
A segunda cervejaria da marca fechou definitivamente na passada sexta-feira, 19 de setembro, depois de oito anos no número 8 da Rua de Entreparedes. Américo soube há cerca de um ano que teria de deixar o imóvel e começou logo a procurar uma alternativa na mesma zona, já que levar o negócio para outro ponto da cidade nunca foi uma hipótese que considerasse seriamente. “A razão de estar aqui foi tentar encontrar um espaço à volta para poder manter a marca. Por acaso, tive sorte de encontrar este mesmo aqui ao lado”, conta à NiP.
O proprietário garante que não houve margem para negociar a permanência no prédio e não sabe identificar o grupo hoteleiro envolvido no futuro projeto. Sabe apenas que os novos donos são espanhóis e que terá de entregar a antiga morada completamente desocupada a 1 de outubro.
A solução apareceu no espaço do antigo restaurante Lobito, entretanto transformado na Gazela 4. Quando falou com a NiP, em março, durante a abertura da terceira unidade, Américo já estava a preparar esta nova casa, maior do que todas as anteriores. Na altura, preferiu não revelar a localização, porque a saída da Gazela 2 ainda não tinha sido tornada pública e a mudança continuava a ser preparada. Antes de anunciar o novo capítulo, queria garantir a transição e manter o negócio na Batalha.
A abertura prolonga uma história que começou em 1962, quando a Cervejaria Gazela nasceu junto ao Teatro Nacional São João. O nome foi escolhido pelo primeiro proprietário, um apaixonado por animais africanos, e a casa tornou-se rapidamente uma paragem para quem saía do teatro ou do cinema e queria comer um petisco antes de regressar a casa.
Américo chegou à cervejaria aos 13 anos, quando veio trabalhar para o Porto, no início da década de 70. Começou como funcionário, aprendeu o negócio atrás do balcão e acabou por assumir a casa em 1981. Foi naquela pequena cervejaria da Travessa de Cimo de Vila que construiu a sua vida profissional e viu crescer o petisco que viria a tornar-se um símbolo da cidade.
Nos primeiros tempos, o cachorrinho era servido inteiro, preso por um guardanapo, até que um cliente pediu que o cortassem em pedaços mais pequenos para o poder comer devagar. A sugestão ficou e tornou-se uma das imagens de marca da Gazela, mas a receita pouco mudou: pão fino e estaladiço, salsicha fresca, linguiça, queijo derretido e um molho picante cuja receita só Américo e o genro conhecem.
A nova Gazela mantém o balcão, as mesas, o serviço rápido e os tons de azul, branco e dourado associados à marca, mas apresenta-se num espaço completamente renovado, com uma imagem mais moderna e cuidada e capacidade para 100 pessoas. “Ficou muito linda, linda, linda. Costumo dizer que, para mim, esta é a melhor casa e é a minha cara”, afirma Américo, que admite que a equipa vai precisar dos primeiros dias para se habituar à disposição da cozinha, do balcão e dos equipamentos, “quase como quando se constrói uma casa nova”.
Na carta, o cachorrinho continua a ser o protagonista e custa agora 4,70€. Também há francesinhas desde 13,50€, ou com ovo por 15€, pregos em prato entre 9,30€ e 12,30€, pica-pau simples por 10€ e pica-pau à Américo por 15€ ou 20€. Os bifes ao alho custam 22,50€ e as omeletes começam nos 9€. Para acompanhar, há batatas fritas (2,70€), caldo verde (2,80€), cervejas, vinhos e sangria.
Com esta abertura, a marca mantém três restaurantes: a casa original, na Travessa de Cimo de Vila, a Gazela 3, na Rua de Entreparedes, e a nova Gazela 4. Mas, enquanto se prepara para abrir aquela que considera a maior e mais bonita unidade da marca, Américo vive com a possibilidade de perder o espaço original do Gazela, onde tudo começou.
O edifício da casa-mãe também mudou de proprietários e, segundo o empresário, os novos donos poderão avançar com a constituição da propriedade horizontal para depois vender as diferentes frações. Ainda não há uma decisão definitiva nem uma proposta concreta, mas a incerteza deixa-o visivelmente angustiado. “Ainda não sei o que vai acontecer ali. Vamos ver o que isto vai dar”, admite.
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A Travessa de Cimo de Vila é muito mais do que uma morada comercial para Américo. Foi ali que começou a trabalhar ainda adolescente, aprendeu a profissão, assumiu o negócio e acompanhou a transformação da Gazela numa referência gastronómica procurada por portuenses e turistas. “Foi ali que nasci”, resume, referindo-se ao início da sua vida profissional. “É uma vida inteira.”
A possibilidade de perder a casa original custa-lhe ainda mais a aceitar por a cervejaria integrar o programa Porto de Tradição, criado para reconhecer e proteger estabelecimentos históricos. Américo explica que o selo lhe permite prolongar a luta pela permanência, mas não impede a venda do prédio nem garante que o negócio possa continuar naquele lugar.
A relação com a Câmara também está longe de ser pacífica. O proprietário considera contraditório reconhecer o valor histórico destas casas e, ao mesmo tempo, dificultar intervenções simples de que precisam para funcionar. Diz que tem encontrado obstáculos para instalar um toldo na nova morada e resolver outras questões ligadas ao espaço. “A Câmara podia ser diferente nestas coisas”, critica. “Posso estar aqui a lutar mais um bocadinho por causa desta questão, mas, sinceramente, não acho justo. Complicam.”
Para Américo, o Gazela também ajudou a levar o nome do Porto além-fronteiras, sobretudo depois da visita de Anthony Bourdain, em 2017. Acredita, por isso, que preservar a casa original seria também uma forma de proteger a identidade da cidade, numa Batalha que descreve hoje como dominada pelo turismo.
Apesar da ligação emocional àquele espaço, reconhece que há um limite para aquilo que poderá fazer do ponto de vista financeiro. Se a única forma de permanecer na Travessa de Cimo de Vila for comprar a fração por um valor que não consegue pagar, terá de sair. “Se me pedirem um ou dois milhões para ficar ali, vou embora. Não consigo.”







