Dois anos depois da abertura, a consagração. O Pata Gorda, no Porto, conquistou a 13 de abril um Sol, o seu primeiro, na edição de 2026. A distinção coloca o restaurante entre os projetos que melhor trabalham o produto em Portugal, seja pela criatividade ou pela reinterpretação da cozinha tradicional. Para João Magalhães, um dos responsáveis pelo espaço, o reconhecimento surge como consequência natural do trabalho diário. “Acho que o reconhecimento é sempre bom pela qualidade do produto e pela qualidade de serviço e de comida que tentamos fazer”, explica. E acrescenta que o próprio Guia Repsol tem vindo a alargar o seu olhar: “Engloba um bocadinho mais abrangente no que toca não só ao fine dining”.
O conceito do Pata Gorda encaixa nessa lógica. Não é um restaurante tradicional, mas também não entra no território mais formal da alta cozinha. A proposta vive nesse meio-termo que, segundo o responsável, fazia falta no mercado. “Havia um gap entre o tasco tradicional, que há muito bons, e o fine dining também há muito bons. Mas não havia um meio termo”, diz.
Esse espaço intermédio é ocupado por uma cozinha que parte do produto português e o trabalha com liberdade, sem perder o lado reconfortante. A experiência mantém-se descontraída, com uma relação próxima entre equipa e clientes. “Conseguimos ter uma experiência de produto mais especial, com uma troca de carta constante, também nos vinhos produtores mais específicos, mas sem termos a formalidade de um fine dining.”
Apesar da distinção, a ambição nunca passou por acumular prémios. “Não tínhamos essa ambição, ainda hoje em dia não temos”, admite. “Queremos fazer aquilo em que acreditamos e aquilo que gostaríamos de receber enquanto pessoas e clientes de outros sítios”, conclui. O reconhecimento, garante, “é uma consequência disso”.
Ainda assim, o impacto de um Sol faz-se sentir. A exigência aumenta e as expectativas também. “Quanto mais prémios e distinções um estabelecimento tem, mais exigência existe por parte dos clientes”, reconhece. É uma pressão natural, mas que reforça a necessidade de consistência.
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O Pata Gorda abriu no final de 2023, a poucos metros do antigo Manso, o restaurante que funcionou como laboratório para a equipa. A mudança permitiu afinar o conceito e ganhar escala. “Quando abrimos o Pata Gorda tínhamos uma ideia já definida e foi muito mais certa daquilo que queríamos fazer.” Desde então, o crescimento tem sido gradual, começaram apenas com jantares e uma equipa reduzida e hoje já servem almoços e contam com mais mãos na cozinha e na sala.
O espaço acompanha essa identidade híbrida. A decoração cruza elementos tradicionais, como os azulejos, com madeira e uma cozinha aberta. A carta segue o mesmo princípio, ou seja, é sazonal e muda regularmente, com revisões a cada três meses. Alguns pratos mantêm-se, outros regressam por pedido dos clientes e há sempre novidades criadas pela equipa. “Há muita liberdade na cozinha”, explica João. “Eles próprios têm vontade de estar sempre a mudar e não estar sempre fixos.”
Entre as propostas atuais estão o ovo escocês de camarão (12€), o rabilho dos Açores com endívias (22€) ou a empada de cordeiro (14€), nos petiscos. Nos pratos principais, surgem opções como a barriga de leitão à Bairrada (45€) ou a picanha com arroz de forno (50€). Há ainda sugestões mais especiais, como a massada de lavagante (85€). Nas sobremesas, o registo mantém-se simples, com opções como a pavlova com abacaxi (6€) ou a serradura do céu (5,5€).
Mais do que a técnica ou a apresentação, o objetivo passa por criar uma experiência onde as pessoas se sintam à vontade. “O que nós queremos é criar, não seja só um restaurante, é criar este sentimento de casa”, resume. Há clientes habituais que regressam todas as semanas e relações que ultrapassam o serviço. “Já nem é nossa cliente, é nossa amiga”, conta, referindo-se a uma vizinha que acompanha o projeto desde o início.
O futuro não passa por replicar o conceito. A ideia é crescer, mas com projetos distintos. “Não acreditamos no mesmo conceito distribuído”, explica. Em vez disso, a equipa quer explorar novas ideias, mantendo a mesma base: produto, identidade e uma abordagem orgânica.
Carregue na galeria para conhecer o Para Gorda.

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