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Neste restaurante portuense premiado pelo Guia Repsol come-se de olhos vendados

O restaurante inspirado em Saramago continua a afirmar-se na alta gastronomia, com assinatura do chef português com mais estrelas Michelin.

Ir jantar ao Blind, no Porto, é uma experiência onde cada detalhe parece fazer parte de uma encenação cuidadosamente pensada. No espaço, os clientes podem provar pratos de olhos vendados, barrar pão numa manteiga em forma de vela derretida ou receber uma escova de dentes durante o menu. Nada acontece por acaso.

Talvez por essa ousadia, o restaurante de fine dining instalado no Torel Palace Porto tenha conquistado um Sol no Guia Repsol 2026, poucas semanas depois de reforçar também a posição entre os nomes mais falados da alta gastronomia nacional. A distinção surge numa fase de mudança para o projeto, agora liderado diariamente pelo chef Stéphane Costa, braço-direito de Vítor Matos nos últimos anos e novo chef residente do Blind desde agosto de 2025.

A mais recente gala do Guia Repsol decorreu a 13 de abril, em Évora, e distinguiu 41 restaurantes portugueses com Sóis, a versão ibérica das estrelas gastronómicas. Um Sol reconhece restaurantes de elevada qualidade e recomendados pelos inspetores especializados do guia.

No caso do Blind, a distinção chega depois de um percurso particularmente rápido. O restaurante já tinha conquistado a primeira estrela Michelin em fevereiro de 2025 e continua agora a consolidar-se como uma das experiências gastronómicas mais elogiadas do Porto.

O conceito do restaurante nasceu inspirado em “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago. Logo à entrada, o ambiente escuro, o silêncio e os detalhes da decoração criam uma espécie de suspensão da realidade. Nas paredes surgem referências em braille, os momentos do menu têm nomes enigmáticos e tudo foi pensado para estimular mais do que o palato.

“Queremos que as pessoas sintam que viveram algo que não se resume apenas a uma refeição”, explica Stéphane Costa. “Que saiam daqui a pensar: ‘isto foi mais do que jantar fora’.”

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Os chefs.

Natural de Ponte de Lima, o chef de 34 anos começou o percurso longe do fine dining. Cresceu ligado à cozinha tradicional portuguesa, sobretudo através da família, e estudou cozinha e pastelaria na EPRALIMA antes de passar pelo restaurante A Tulha. Entrou no Blind em 2019 como cozinheiro de terceira e hoje lidera a cozinha ao lado de Vítor Matos, o chef português mais premiado pelo Guia Michelin. A evolução aconteceu dentro do próprio restaurante, embora tenha estado perto de não acontecer.

“No início, cheguei mesmo a ponderar desistir, porque sentia que não estava ao nível exigido”, admite. “Com o tempo, fui compreendendo melhor o conceito de fine dining, adaptando-me às exigências e ganhando confiança.”

A promoção surgiu de forma natural após a saída de Rita Magro, que liderou a operação diária do Blind e ajudou a conquistar a estrela Michelin. Vítor Matos descreve a escolha de Stéphane como “merecida e essencial para garantir continuidade ao projeto”.

 
 
 
 
 
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Hoje, o restaurante mantém a mesma lógica sensorial que o tornou conhecido. O menu Blind Emotions divide-se em duas experiências de degustação: uma com dez momentos e outra com 12. Atualmente custam 145€ e 165€ por pessoa, respetivamente, podendo ser acompanhadas por harmonização vínica ou pela Master Wine Pairing Experience, a proposta mais exclusiva da casa, por 200€ por pessoa.

Os pratos surgem quase como pequenos capítulos de uma história. Alguns nomes pouco revelam sobre aquilo que realmente chega à mesa: “Que Nem Gingas”, “De Olhos Vendados”, “Black & White”, “Lamb. Lamb.” ou “Lembranças da Minha Infância” são apenas alguns dos momentos já criados pela equipa.

A experiência pode incluir foie gras escondido dentro de falsas ginjas, tagliatelle de lula com lima caviar, algodão-doce inspirado nas festas populares transmontanas ou snacks servidos às cegas. Há pratos que obrigam os clientes a tocar, cheirar ou até adivinhar ingredientes antes de provar. “Não procuramos que os vejam, mas que nunca mais os esqueçam”, resume o chef.

Apesar do foco no fine dining, o Blind disponibiliza também uma vertente mais informal através do gastrobar. A carta inclui pratos como bacalhau a baixa temperatura (26€), robalo atlântico com xerém e chutney de manga (27€), tornedó de vitelão com molho béarnaise (29€) ou arroz de costelinhas em vinha d’alhos (24€). Há ainda hambúrguer Angus, cachorro Blind e cocktails de assinatura inspirados nos sentidos, como “Feel”, “Taste” ou “Blindness”.

Para Stéphane Costa, o desafio agora não passa apenas por manter o reconhecimento conquistado. “Continuamos focados no nosso trabalho, com a mesma dedicação de sempre, procurando fazer mais e melhor a cada dia”, garante.

No Blind, a ambição nunca parece terminar no prato. Afinal, como escreve Saramago, e como o chef faz questão de lembrar: “dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

Carregue na galeria para conhecer a oferta do Blind.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua de Entreparedes, 42
    4000-198 Porto
  • HORÁRIO
  • Terça-feira a sábado das 19h30 às 21h30
PREÇO MÉDIO
Não disponível

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