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No Bonfim abriu uma “tasca curiosa” que junta Hong Kong, México e Tailândia

O Oitavo Oceano é o projeto pessoal de Dagan, que cozinha, serve e pensa sozinho um menu inspirado nas viagens e culturas que foi conhecendo.

Há restaurantes que nascem para servir um tipo de cozinha. E depois há outros que parecem nascer para contar uma vida inteira. No Bonfim, abriu um desses bons exemplos. O O Oitavo Oceano apresenta-se simplesemente como uma “tasca curiosa”.

No fundo, trata-se de um pequeno mapa de viagens, memórias e obsessões gastronómicas de Dagan Wong, de 45 anos, que faz quase tudo sozinho: pensa os pratos, prepara os ingredientes, cozinha, serve à mesa e recebe quem entra. Abriu a 28 de janeiro e, apesar do tamanho discreto, já se tornou uma das aberturas mais curiosas da zona.

O nome ajuda a perceber o conceito. Se o mundo parece já estar todo cartografado, Dagan quis imaginar um oitavo oceano — um lugar ainda por descobrir —, onde a curiosidade continua a ser bússola. “Vivemos numa altura em que tudo parece já estar mapeado. O oitavo oceano é essa ideia de que ainda há coisas para descobrir”, explica. É esse espírito que atravessa o espaço e a carta: curta, mutável e construída a partir de referências cruzadas, mais culturais do que académicas, mais vividas do que estudadas.

Dagan nasceu em Hong Kong. Foi lá que começou a desenhar-se esta relação com a comida, ainda que de forma indireta. Em miúdo, viajava com os pais; mais tarde, quando começou a viajar sozinho, criou uma regra pessoal: comer sempre a comida local.

“Era a forma mais direta de conhecer um lugar e as pessoas desse lugar”, conta. A partir daí, regressava a casa e tentava recriar sabores, técnicas e ingredientes que tinha encontrado pelo caminho. “Nunca consegui separar viagens de comida. Para mim, sempre foram a mesma coisa.”

Antes deste restaurante, no entanto, a sua vida profissional seguia outro rumo. Estudou gestão na Califórnia, nos EUA, voltou para Hong Kong, onde trabalhou durante oito anos em publicidade e mais tarde mudou-se para Londres. Em 2011, numa viagem a Portugal, percebeu que queria vir viver para cá.

“Gostei mesmo muito do País e pensei logo que, um dia, queria morar aqui.” O plano ficou em suspenso até ao Brexit e quando o referendo aconteceu, decidiu que não havia mais tempo a perder. Mudou-se para o Porto em 2017 e por cá ficou.

Desde então e durante quase duas décadas, trabalhou em áreas como marketing, web design e desenvolvimento de software. O último emprego, já na cidade, foi na área tecnológica na Fartfech. Em paralelo, começou a cozinhar em casa para amigos. Depois para amigos de amigos. E, entretanto, para desconhecidos que apareciam num supper club clandestino montado no seu apartamento, onde servia menus fechados de três ou quatro pratos. “Não fazia aquilo pelo dinheiro. Era divertido. Mas foi ficando mais popular e começou a preparar-me mentalmente para um espaço a sério.”

Esse espaço apareceu no Bonfim, bairro onde sempre viveu e cuja rua conhecia bem. O antigo ocupante era uma garrafeira e quando ficou disponível, Dagan Wong não pensou duas vezes. A escala era a certa: pequena, controlável, compatível com a vontade de fazer tudo sozinho.

“Sempre planeei isto como um one man show. Não queria começar com uma equipa grande nem com um espaço demasiado arriscado.” O restaurante tem apenas uma mesa comunitária para dez pessoas e três lugares ao balcão. A proximidade faz parte da experiência.

tasca curiosa
Os 8 pratos (e culturas) que pode provar nesta Tasca Curiosa.

A decoração também reforça essa ideia de projeto íntimo e muito pessoal. Há madeira escura, paredes em tons neutros, prateleiras cheias de garrafas, livros, objetos trazidos de viagens e peças que o acompanham há anos. O relógio no cimo do balcão veio de Hong Kong e atravessou várias mudanças na vida do proprietário. O ambiente lembra aqueles pequenos espaços japoneses onde um único dono faz tudo, da mise en place ao serviço. “Em muitos sítios no Japão há bares e restaurantes minúsculos geridos por um velhote de 80 anos só. Isso foi uma inspiração clara.”

A carta, por sua vez, é tão rigorosa quanto livre. Há apenas oito pratos, divididos em quatro categorias: noods, sando, rice e soup. Duas opções por secção, sempre. A ideia é manter o menu curto para o tornar operacional, mas com rotação regular. “Quero ter sempre oito coisas e mudar uma por mês. É uma forma de manter o espaço vivo e de dar razões para as pessoas voltarem.”

O resultado é uma mistura de influências que raramente se vê tão bem alinhada num espaço tão pequeno. Nos noodles, há o mushroom tan tan (12€), uma leitura vegetariana do tantanmen japonês, servido com caldo de cogumelos e sésamo, ovo marinado e shiitake picado temperado. Em vez da carne de porco tradicional, Dagan escolheu cogumelos para dar mais profundidade e uma opção sem carne. Ao lado, aparece o Taiwanese beef noodle (15€), com rabo de boi estufado, ovo marinado e bimis, inspirado num dos pratos mais icónicos de Taiwan. “Quis usar oxtail por causa da gordura, do colagénio e da riqueza que dá ao caldo.”

Nas sandes, o lado lúdico do conceito fica ainda mais evidente. O Nashville Hot Chicken via Seoul (9€) parte do frango frito picante do Tennessee, mas leva maionese de gochujang, daikon em conserva e outros apontamentos coreanos. Já os tacos de Peking “duck” (9€) fazem uma ponte improvável entre China e México: cogumelo pleurotus no lugar do pato, molho chipotle-hoisin, guacamole e tortilha fresca. “A experiência de comer pato à Pequim já tem qualquer coisa de taco. A ideia foi só levar essa semelhança um pouco mais longe.”

Na secção do arroz, o shiitake rice (12€) é uma das âncoras mais pessoais da carta. O arroz é cozido num dashi de kombu e shiitake, recebe várias texturas de cogumelo e termina com um ovo marinado por cima. “É muito Hong Kong, muito meu, e foi um dos pratos em que me senti mais confiante desde o início.” Ao lado surge o khao man gai (12€), clássico tailandês de frango cozido lentamente, servido com molho fermentado e caldo de galinha, aquele tipo de comida que conforta sem esforço.

As sopas fecham o círculo. Há um Hong Kong borscht (5€), feito com couve, tomate, cenoura, beterraba e crème fraîche, que ajuda a contar uma história menos conhecida sobre migrações do Leste europeu para a China e, depois, para Hong Kong. E há uma vichyssoise (6€), que parte da sopa franco-americana mas é servida quente, com leite de amêndoa, ovo cozido, óleo de cebolinha “queimada” e chalotas fritas. “Isto é mais uma experiência cultural do que gastronómica”, resume. “Vejo-me mais como um curador cultural do que como um chef profissional.”

Talvez seja isso que torna O Oitavo Oceano especial. Não tenta reproduzir uma autenticidade rígida nem transformar fusão em truque. É, antes, o reflexo coerente da cabeça de uma pessoa curiosa, que trocou duas décadas de escritório por um espaço onde pode finalmente fazer uma coisa de cada vez — mesmo que, na prática, esteja sempre a fazer dez ao mesmo tempo. “Nunca odiei os trabalhos que tive antes. Mas também não os amava. Aqui posso dizer que adoro o que faço.”

É cansativo, admite. As costas doem, os tachos acumulam-se, a logística de ter ingredientes tão diferentes num espaço pequeno nem sempre ajuda. Mas, por agora, compensa. Sobretudo quando os clientes voltam — e trazem mais gente com eles. Num bairro onde quase tudo parece já ter sido visto, O Oitavo Oceano conseguiu abrir uma pequena rota nova. E basta isso para dar vontade de voltar.

Carregue na galeria para conhecer a nova tasca curiosa do Porto.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    R. do Bonfim, 345
    4300-067 Bonfim
  • HORÁRIO
  • Quarta-feira a sábado das 12h às 15h e das 19h30 às 22h30
PREÇO MÉDIO
Entre 20€ e 30€
TIPO DE COMIDA
Comida do mundo

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