Durante cerca de 20 anos, Gio Rodrigues habituou o Porto a associá-lo a vestidos de noiva, tecidos delicados, silhuetas pensadas ao milímetro e um certo glamour sem pressa. Mas o criador nunca foi homem de ficar quieto num único palco. Primeiro, levou a sua assinatura para a restauração com o Pão do Gio. Depois, refinou a ideia com o Fado no Porto. Agora, abriu um novo capítulo onde junta moda, comida italiana, performance e uma certa vontade de fazer da noite uma experiência completa. Chama-se Gio Party & Pasta, foi inaugurado na passada quinta-feira, 26 de março, e quer ser tudo menos um restaurante italiano clássico.
A nova morada fica no coração da cidade, dentro do Hotel Editory Boulevard, nos Aliados, mas com entrada independente pela Rua do Almada. A localização não foi um acaso. “Quando partilhei esta visão, a Isabel Tavares [diretora de Marketing da unidade] apresentou-me o espaço e houve uma ligação imediata”, conta o estilista de 49 anos, à New in Porto. “Estamos no coração do Porto, dentro do hotel, mas com identidade própria.”
Esse lado autónomo percebe-se logo à entrada. O espaço foi pensado como um universo com narrativa própria, inspirado num imaginário de “circus vintage”, mas sem cair numa leitura literal. Há cortinas vermelhas, um jogo de luz quente e dramática, mesas de tampo encarnado, chão gráfico a preto e branco, detalhes dourados, ilustrações que remetem para o espetáculo e até elementos decorativos que parecem saídos de um velho camarim ou de um circo reinventado para a noite portuense. Um dos recantos tem mesmo um cavalo de carrossel, reforçando esse lado cénico e quase onírico.
“A decoração segue o universo do circus vintage, mas não de forma literal. Nunca me interessou o óbvio”, explica o estilista. “Tal como na moda, gosto de trabalhar referências e reinterpretá-las.”
O resultado é um restaurante que parece mais próximo de um cenário montado para uma personagem entrar em cena do que de uma cantina italiana tradicional. No fundo, é isso que Gio quer: que o jantar funcione como o primeiro ato de uma noite maior.
“Este espaço é sobre tempo e transformação. Interessa-me a forma como uma noite pode evoluir”, diz. “Começa de forma mais tranquila, centrada no jantar, na conversa e no detalhe. Depois, aos poucos, há pequenas interferências, momentos performativos, música, energia, que vão alterando a atmosfera. Quando damos por isso, já estamos noutro registo.”
Ao contrário de um restaurante convencional, aqui o nome é para levar à letra. Há pasta, claro, mas há também “party”. Os espetáculos mudam todos os dias e a direção artística está nas mãos de Rui Andrade. “Temos sempre novidades. Todos os dias temos espetáculos novos. São cerca de 14 peças diariamente, com duração no máximo de três minutos”, sublinha Gio.
E continua: “Temos um mágico russo que faz magia e barbarismo, temos cantores novos. É mesmo toda uma experiência. Não é só vir jantar.” Noutras palavras: o objetivo é que a refeição nunca termine exatamente onde começou.
A inspiração para avançar com um restaurante italiano também não nasceu por tendência, mas por ligação emocional. “A culinária italiana entrou na minha vida de forma muito emocional, pela memória, pela partilha, pela forma como transforma momentos simples em algo especial”, explica. Ainda assim, não queria fazer “mais um italiano”. “Precisava de criar um universo.”
A carta foi construída a partir dessa base clássica, com um lado mais depurado e sem excessos. “O menu foi trabalhado quase como uma extensão do meu processo criativo. Há um exercício constante de edição, de retirar o excesso até ficar apenas o essencial”, resume. Gio define o espaço como “um italiano puro e duro”, inspirado “nos melhores restaurantes italianos” que foi conhecendo ao longo dos anos. Entre eles, há um nome que destaca sem hesitar: o Cipriani, em Nova Iorque, “um dos restaurantes” de que mais gosta.
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Na prática, isso traduz-se numa carta de cozinha italiana com antipasti, massas frescas, pratos de peixe e carne, sobremesas e uma secção de sugestões mais exuberantes. Para começar, há opções como piccoli panini del maestro (20€), carpaccio di manzo & parmigiano 36 meses (22€), burrata carolina (19€) e tartare di tonno, agrumi & olio siciliano (24€). Nas pastas, entram pratos como spaghetti alla carbonara tradicional (25€), rigatoni all’amatriciana (24€), tagliolini al tartufo nero (36€), risotto al pesca & gel di roquefort (25€), pappardelle al ragù di vitello (26€) e ravioli de ricotta & spinaci (27€).
Entre os pratos mais especiais, há dois que o próprio Gio Rodrigues destaca. “A pappardelle al ragù di vitello é um dos meus favoritos”, diz. E depois há os pratos “signature”, pensados para impressionar mais. O spaghetti al parmigiano 36 mesi custa 42€, é envolvido numa roda de parmesão à vista do cliente; e o tagliolini real, com gin e caviar, chega aos 55€. “É a loucura. Uma explosão de sabores.”
Na secção de mare e terra, o robalo selvagem com burro alle erbe mediterranee custa 38€, o lombo alto maturado 40 dias com aglio al tartufo fica nos 42€, e há ainda um chuletón para partilhar por 78€. Para fechar, há tiramisú clássico (12€), focaccia nera alla fragola (10€) e panna cotta de baunilha e limão (13€). O ticket médio ronda os 50€.
O bar prolonga essa lógica de espetáculo. Além dos clássicos, há cocktails de autor com nomes como Sheshire Cat, Fabergé Egg, Corsage, Midas Touch e Chapeleiro, todos a 17€. Alguns foram desenhados para chegar à mesa como objeto-surpresa, em recipientes pouco óbvios, reforçando a ideia de performance e descoberta. Existem ainda mocktails a 10€, sangrias de frutos vermelhos e maracujá a 38€ e uma versão de champanhe por 150€.
Mas é provável que a ambição maior do projeto nem sequer esteja na carta. Está na forma como Gio imaginou o tipo de público e de energia que queria ali dentro. Parte dessa visão nasce das mulheres com quem se cruza há anos, no atelier e fora dele. “Inspiro-me nas minhas clientes, em mulheres como tu”, disse durante a apresentação do espaço. “Quero que este seja aquele sítio onde as pessoas sentem que nunca é demais.”
A ideia passa por contrariar aquela dúvida comum antes de sair de casa: estarei demasiado produzida para este restaurante? Aqui, a resposta é não. “Vista-se demais. Porque aqui nunca é demais. Demais é pouco”, atira.
“Quero que as pessoas se produzam, que se sintam livres para vestir o que quiserem, para se expressarem.” E acrescenta: “O Porto tem das pessoas mais bem vestidas do País. Eu queria criar um sítio para resgatá-las.”
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