Joana Cunha cresceu a entrar e a sair do Convívio, acompanhando de perto uma casa que faz parte da história da família desde 1972. Mais de cinco décadas depois da abertura, coube-lhe dar continuidade ao projeto iniciado pelo avô e prolongado pela geração seguinte, assumindo agora a terceira geração da família ligada ao restaurante portuense.
A missão passa por preservar uma forma de receber que acredita estar a desaparecer da cidade: aquela em que os funcionários conhecem os clientes pelo nome, se lembram do pedido habitual e estranham quando alguém falta durante vários dias. Joana quer que o Convívio continue a ser uma casa onde se pode almoçar sozinho ao balcão, trabalhar durante a tarde, jantar a dois, encontrar amigos ou reunir três gerações da mesma família à mesa.
A nova etapa começou depois de cerca de nove meses de portas fechadas, período aproveitado para reorganizar o funcionamento da casa e avançar com uma intervenção no espaço. Apesar das mudanças, a intenção foi desde o início preservar os elementos que fazem parte da memória de várias gerações de portuenses e manter reconhecível um restaurante com mais de meio século de história.
“É uma nova gerência dentro da família. Não chegou aqui um estranho para tomar conta da casa”, explica Joana. A continuidade tornou-se, aliás, um dos princípios desta nova fase: atualizar o Convívio sem apagar aquilo que lhe deu identidade ao longo das últimas décadas.
O restaurante reabriu a 1 de maio, sem grande aparato. Nesse primeiro dia, Joana esteve no espaço das oito da manhã à meia-noite e viu clientes entrar continuamente. Uns queriam simplesmente voltar à casa que conheciam; outros reencontraram funcionários que os receberam durante anos. “As pessoas perguntavam: ‘Isto não vai fechar? Não vai abrir aqui outra coisa?’”, recorda.
Desde então, quase todos os dias aparece alguém com uma história. Há casais que começaram a namorar às mesas do Convívio, antigos estudantes que passaram ali parte dos anos de faculdade e até quem queira regressar para celebrar as bodas de ouro, precisamente pela importância que o restaurante teve na relação. São memórias que ajudam a explicar a ligação dos portuenses e dos vizinhos à casa. Ao longo das décadas, o Convívio tornou-se cenário de encontros, namoros, aniversários, reuniões e momentos familiares. Agora, a intenção passa por apresentar esse ambiente às gerações mais novas sem afastar quem sempre frequentou o restaurante.
A história começou em 1972, quando o avô de Joana inaugurou o Convívio na Rua Arquitecto Marques da Silva, junto à Rotunda da Boavista. O restaurante foi passando entre gerações da mesma família e chegou a viver períodos de enorme movimento, numa altura em que funcionava das sete da manhã às duas da madrugada e empregava cerca de 70 pessoas. Atualmente, a equipa ronda os 20 trabalhadores e mantém vários elementos com décadas de ligação à casa.
Parte da identidade que hoje continua visível nasceu também ao longo desses anos. Os vitrais que ajudam a definir o ambiente de brasserie, por exemplo, chegaram de Paris há cerca de 35 anos e permanecem no restaurante. A eles juntam-se o balcão, as madeiras, os painéis, as cadeiras e outros elementos que atravessaram diferentes fases do Convívio e que Joana fez questão de preservar durante a intervenção.
A francesinha também acompanha a história da família há várias décadas. A criação do prato é geralmente atribuída a Daniel David da Silva, que o terá apresentado na Regaleira, no início dos anos 50, inspirado no francês croque-monsieur. Mais tarde, o Café Mucaba, inaugurado em Gaia em 1962, teve um papel importante na sua popularização. O avô de Joana integrou a sociedade responsável pelo Mucaba e, quando abriu o Convívio, levou consigo para a nova casa uma receita que já fazia parte desse percurso.
A família não reivindica a invenção do prato, mas integra assim uma das etapas da história da francesinha e da sua popularização na região do Porto.
Também à mesa se cruzaram políticos, empresários, jornalistas e personalidades das artes e da cultura. Algumas figuras ligadas à cidade já voltaram desde 1 de maio. É o caso de Eduardo Souto de Moura, arquiteto nascido no Porto, vencedor do Prémio Pritzker em 2011 e autor de obras como o Estádio Municipal de Braga e a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais.
Entre clientes conhecidos e anónimos, a dinâmica repete-se. Uns entram para uma refeição demorada, outros dirigem-se diretamente ao balcão. Há pessoas que fazem questão de ficar ali e preferem esperar por um lugar em vez de se sentarem numa mesa disponível. Procuram a conversa, o movimento e a proximidade com a equipa que marcaram os restaurantes tradicionais da cidade.
É no balcão que trabalha Ângelo, que já conta com 35 anos de casa e conhece os hábitos e os horários dos clientes. Apesar da longa ligação ao Convívio, não é o funcionário mais antigo, há elementos da equipa que ali trabalham há ainda mais tempo. Alguns clientes telefonam antes de sair de casa: “Ângelo, tem lugar para mim?” Outros querem confirmar se está disponível o prato que procuram: “Ângelo, hoje há touquinhos?” Trata-se de uma receita tradicional da casa, preparada com pequenos pedaços de carne de porco e feijão branco, que continua a levar clientes ao Convívio de propósito.
A vontade de recuperar essa proximidade orientou toda a intervenção. Joana queria atualizar o ambiente e torná-lo mais descontraído, mantendo a sensação de estar num restaurante que acumulou décadas de histórias. Preservou o balcão, as cadeiras com mais de três décadas, os vitrais, a madeira e os painéis. A antiga tabacaria também permanece no mesmo lugar, como um dos elementos mais reconhecíveis da casa.
As mudanças aparecem em pequenos apontamentos. A responsável colocou papel de parede, acrescentou candeeiros e escolheu novos tons de verde. O teto metálico foi pintado para tornar a sala mais acolhedora. “Ninguém percebe que os candeeiros são novos. Era exatamente isso que queria.”

Atualmente, a sala principal e a zona do balcão somam cerca de 138 lugares, já depois de Joana ter retirado algumas mesas. O restaurante tem capacidade para receber mais pessoas, mas a responsável preferiu começar com uma configuração reduzida para testar o ritmo do serviço, perceber como funcionava a cozinha e garantir que a equipa conseguia acompanhar os diferentes momentos do dia sem perder a atenção dada a cada cliente.
A cafetaria soma outros 40 lugares e assume um ritmo diferente. Durante o dia, recebe quem procura um café, uma refeição rápida ou uma mesa onde possa abrir o computador e trabalhar durante algumas horas. Joana pretende reforçar essa vertente com almoços mais leves, saladas, sopas, massas e tostas, pensados sobretudo para quem trabalha nas redondezas.
Mais tarde, a cafetaria poderá prolongar-se pelos finais de tarde, com happy hours e propostas de pré-jantar. A ideia passa por aproveitar a dinâmica crescente da zona da Boavista e criar um ponto de encontro onde seja possível ficar depois do trabalho, beber um copo com amigos ou esperar pelo jantar. No verão, os grandes vidros ajudam a aproximar o interior da rua. Nos meses mais frios, o ambiente de brasserie torna a sala mais resguardada.
“Pode vir uma família fazer uma refeição mais completa, mas também pode sentar-se ao balcão e gastar 5€ ou 8€. O Convívio é versátil”, resume Joana. Ao fim de semana, as mesas familiares ganham maior expressão. Durante a semana, cruzam-se trabalhadores da zona, clientes antigos e pessoas que entram apenas para beber café.
Existe ainda uma terceira sala no piso inferior, atualmente encerrada. Joana pretende renová-la e dar-lhe uma nova utilização, embora ainda não revele o que está a preparar para aquele espaço. A prioridade, nesta fase, passa por consolidar o funcionamento do restaurante e da cafetaria antes de avançar para o próximo capítulo.
A carta também ficou mais curta para facilitar este arranque, mas manteve os pratos que construíram a reputação da casa. “Temos tentado focar-nos em duas coisas: qualidade e bom serviço. Era isso que o Convívio sempre teve”, sublinha a responsável. A francesinha à Convívio, preparada com lombo, custa 18€; a Especial, com vazia, fica por 12€ e a versão à Sevilhana, com camarão, custa 14€. Há ainda tripas à moda do Porto desde 11€, bife à Convívio por 20€, bacalhau em diferentes versões por 32€ e bola de carne por 1,15€.
A oferta deverá crescer gradualmente, muitas vezes a partir dos pedidos dos próprios clientes. Desde a reabertura, vários habituais têm perguntado por pratos antigos, como o arroz de perdiz. Joana quer recuperá-los aos poucos, quando a cozinha tiver condições para os preparar com a qualidade que procura.
Na cafetaria encontram-se opções mais rápidas e económicas: café a 0,90€, pastel de nata a 1,40€, croissant a 1,60€, lanche especial a 2,95€, sandes mista a 3€, tosta mista a 3,50€ e iogurtes com fruta e granola entre 4€ e 4,50€. A diversidade permite entrar apenas para um café e um bolo ou prolongar a visita com uma refeição.
Carregue na galeria para conhecer o Convívio de cara lavada.







