A refeição começa com pipocas salgadas e acaba com um gelado de pipoca doce, mas nenhum dos dois aparece na conta. No Blade, a entrada com parmesão, trufa e pimenta preta é oferecida pela casa e, no final, cada cliente recebe uma ficha para trocar por um gelado com topping de milho frito triturado, servido em copo ou cone. Pelo meio chega a verdadeira estrela do restaurante: um bife de 180 gramas que custa apenas 10€.
O conceito chegou à Baixa do Porto a 12 de agosto, depois de se estrear no Cais do Sodré, em Lisboa, a 26 de setembro de 2025. A segunda localização ocupa o antigo espaço do daTerra e mantém a fórmula que ajudou a encher a primeira sala e a criar filas à porta: uma carta curta, centrada num único corte de carne e com preços pensados para continuar acessíveis.
“O feedback que tivemos em Lisboa fez-nos perceber que havia espaço para levar esta proposta a outros sítios. Por isso, decidimos subir um bocadinho e abrir no Porto”, explica José Maria Jorge, responsável pelo Blade.
O conceito foi criado pelo Grupo Portugália Restauração, cuja história começou em 1925, com a abertura da primeira Portugália na Avenida Almirante Reis, em Lisboa. Um século depois, o grupo mantém uma forte ligação à carne e à restauração portuguesa. Foi essa experiência que serviu de ponto de partida para desenvolver o Blade como uma marca independente e com identidade própria.
O projeto nasceu da experiência e da vontade de explorar um modelo de monoproduto sem transformar um jantar de bife numa experiência reservada a poucos. “Somos pessoas apaixonadas por carne e, quando trabalhamos com um tema de que gostamos, temos mais curiosidade e vontade de saber”, admite.
Até chegar ao bife que hoje serve, a equipa fez várias provas à procura de um equilíbrio entre sabor, textura, disponibilidade e preço. “Obviamente que um negócio tem de ser lucrativo para ser sustentável, mas tivemos mesmo a preocupação de encontrar algo que pudéssemos servir a este valor.”
A pista para perceber o que chega ao prato está no próprio nome do restaurante. Blade é a designação inglesa para uma peça retirada da pá do animal, por cima da escápula, também conhecida como “oyster blade” ou “feather blade”. Nos talhos portugueses, quando é cortada da forma tradicional, pode surgir como bife do beijinho. Durante muito tempo, esta carne foi usada sobretudo em estufados e guisados por ter um nervo gelatinoso no centro.
A equipa estudou uma forma diferente de preparar e cortar a peça, retirando esse nervo sem perder a gordura responsável pelo sabor. O resultado é uma carne tenra, mas mais intensa do que alguns cortes considerados nobres. A matéria-prima chega do Reino Unido e não pertence a uma raça específica. “Provámos muita coisa e encontrámos neste animal um equilíbrio muito interessante, sobretudo em termos de sabor”, explica José Maria.
Na grelha, não há grandes complicações: chama, sal e um pouco de manteiga. A carne fica no centro do prato e, por isso, os molhos são sempre servidos à parte. O cliente escolhe o ponto do bife e pode acrescentar, por 1€, molho de pimenta, maionese trufada ou béarnaise, um clássico francês preparado tradicionalmente com manteiga, gemas de ovo, vinagre e estragão.
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Depois só falta escolher o acompanhamento. As opções mais simples são as batatas duplamente fritas com alecrim seco e a salada mista com alface, rabanete, cebola frita e vinagrete, ambas a 3€. Por 3,50€, há esparregado com parmesão, natas e noz-moscada, puré de batata com manteiga de trufa e pequenos pedaços crocantes de tempura ou arroz de cogumelos finalizado com espuma de cogumelos e parmesão.
Este último também permite ao Blade receber vegetarianos, apesar de a carne dominar o conceito. O arroz pode ser pedido numa dose maior e transformado em prato principal por 12€. “Somos um restaurante de monoproduto, mas não queremos deixar ninguém de fora”, sublinha o responsável.
Para já, a carta portuense continua concentrada nesta base. Em Lisboa, a equipa começou por lançar cortes especiais durante períodos limitados e criou ainda o Blade Burger, feito com as aparas que resultam da preparação dos bifes. O hambúrguer ajuda a reduzir o desperdício, mas ainda não chegou ao Porto. A prioridade passa por estabilizar a operação, garantir a qualidade do prato principal e só depois acrescentar novas experiências, sempre em torno da carne.
“Queremos ser percebidos daquela forma muito simples: ‘Quero comer um bife, vou ao Blade’”, resume José Maria. A equipa acredita também que a carne está suficientemente enraizada nos hábitos dos portugueses para resistir além das tendências associadas ao consumo de proteína. Ainda assim, admite aproveitar essa procura para apresentar raças ou cortes menos conhecidos através de edições especiais.
Na sala, o ambiente acompanha o lado informal do conceito. O vermelho vivo aparece nos toldos, nos azulejos do balcão e nos apontamentos de luz, em contraste com as mesas e cadeiras de madeira escura. Candeeiros redondos, bancos corridos, plantas e uma iluminação quente completam o espaço. Até o logótipo recupera a ideia de uma lâmina: algumas partes das letras B e D parecem ter sido cortadas.
A sala tem capacidade para 88 pessoas e a esplanada acrescenta mais 16 lugares. Apesar de ficar numa das zonas mais turísticas do Porto, o restaurante quer atrair também quem vive, trabalha ou estuda na cidade. “Um português de classe média tem de poder vir aqui comer. O nosso objetivo não é retirar o máximo de cada pessoa que entra, mas fazer com que sintam que valeu a pena e queiram voltar”, afirma.
As bebidas completam uma carta deliberadamente pequena. Há cerveja de pressão desde 3€, sodas da casa a 3,50€, vinhos a copo desde 6€ e cocktails a 9€. Também se podem pedir sangrias de espumante nos sabores de maçã verde e pepino, framboesa e lima ou pêssego e maracujá.
No final, volta a entrar em cena a pipoca. Depois da conta, cada cliente recebe uma ficha para levantar o gelado artesanal de pipoca doce, preparado no restaurante numa máquina de soft serve e rematado com milho frito triturado. É a última paragem de uma refeição que a equipa quis manter descomplicada.
Carregue na galeria para conhecer o novo restaurante do Porto.







