O ODE nasceu por causa de uma garrafa de Vinho do Porto, mas acabou por se transformar num dos espaços mais visitados da Ribeira do Porto. Há 15 anos, Cristóvão de Oliveira e Souza quis perceber, sem precisar de intermediários, o que os consumidores achavam do vinho que produzia. Precisava, portanto, de um sítio onde pudesse servi-lo, ouvir opiniões e testar reações. Mas porque uma garrafa não se bebe sozinha, foi preciso rodeá-la do tão necessário pão, queijo e enchidos.
Foi assim que, em abril de 2011, abriu portas o ODE Porto Wine House, no Largo do Terreiro, na Ribeira. Uma década e meia mais tarde, assume-se como restaurante de cozinha portuguesa, com uma das garrafeiras mais extensas da cidade e uma relação quase familiar com quem atravessa a porta.
Agora, a data vai ser assinalada da forma mais natural para uma casa onde o vinho sempre ocupou o centro da mesa: com 15 jantares vínicos ao longo do ano, protagonizados por produtores portugueses. Os primeiros convidados já estão escolhidos. Anselmo Mendes inaugura o ciclo a 21 de maio, a Symington segue-se a 18 de junho e Alves de Sousa participa a 24 de julho. Ao longo dos meses, passarão pelo ODE produtores do Douro, Bairrada, Dão, Lisboa, Alentejo, Açores, Madeira e, no fecho das comemorações, uma casa de referência da região de Champagne.
“Serão jantares únicos e irrepetíveis, exclusivos a apenas 15 pessoas”, explica Cristóvão de Oliveira e Souza. A ideia é que os convidados possam provar “vinhos raros, inéditos ou colheitas muito antigas” e, ao mesmo tempo, se privar com os próprios responsáveis e enólogos. Cada jantar terá um menu de seis momentos, harmonização vínica incluída e sempre um prato surpresa fora da carta habitual. O preço é de 150€ por pessoa e os eventos decorrem entre as 19h30 e as 23 horas.
A escolha não é apenas simbólica, isto porque o vinho faz parte da identidade da casa desde o primeiro dia. Atualmente, a garrafeira reúne mais de 650 referências, das quais cerca de 400 são nacionais e 150 internacionais, incluindo 98 da região de Champagne. Cristóvão descreve-a como uma espécie de “Bíblia vínica”, construída com tempo, curiosidade e alguma obsessão. Na carta há vinhos verdes, Douro, Bairrada, Dão, Lisboa, Alentejo, Açores, Madeira, Colares e várias referências internacionais, com propostas a copo a partir dos 10€.

A relação com o vinho é mais do que umbilical. É que ao contrário da maioria dos espaços portuenses, ali a primeira questão a fazer ao cliente é “o que é que lhe apetece beber hoje?”. Cristóvão gosta de perceber o gosto, o estado de espírito e até a disposição de quem se senta à mesa. “Não gosto de vender, gosto de ajudar a comprar”, disse durante a apresentação. A lógica passa por encontrar o vinho certo para aquela pessoa, naquele momento.
A casa ocupa um edifício com cerca de 300 anos, integrado na zona classificada como Património Mundial da UNESCO. No interior, o ambiente é intimista, com paredes em pedra, dois pisos, janelas sobre a Ponte Luís I e uma cozinha aberta. No que toca à comida, o ODE define-se como um “hino, tributo e homenagem” à mãe de Cristóvão, à avó, a quem cozinha diariamente para os outros e a todos os que visitam o espaço. A cozinha parte do receituário tradicional português e familiar, sem grandes artifícios. “Aqui não vão encontrar espumas, nem micro-verdes, nem esferificações”, explica. O objetivo é trabalhar sabores reconhecíveis, com rigor, memória e produto.
À mesa chegam pão de fermentação lenta, broa de Avintes e manteiga dos Açores por 5€. Nas entradas, há sopa de cenoura com camarão (12€), tripas à moda do Porto (14€), brócolo com leite de amêndoa e limão (14€), ostras do Sado (16€) e presunto Pata Negra 100 por cento bolota com 48 meses de cura (24€).
As tripas são um bom exemplo da filosofia da casa. O prato mantém a ligação ao Porto, mas surge numa versão menos intimidante para quem não cresceu com ele. Os quatro estômagos da vaca são cortados em brunesa, para reduzir o impacto visual, e servidos como entrada. O resultado, diz Cristóvão, é simples: os tachinhos voltam vazios.
Nos pratos principais, a carta continua a viajar pelo receituário português. Há bacalhau com arroz de coentros e berbigão (32€), peixe do mercado com acelga e carolo (32€), arroz de cabidela (32€), costelinhas de porco cozinhadas durante 16 horas a 80 graus com arroz de fumeiro (32€), arroz de polvo (34€), rosbife com batata frita, caldo de carne e natas (34€) e uma opção vegetariana de cogumelo, milho e couve-flor (30€).
A sobremesa mais especial é o pudim da Avó Dulce, disponível “quando a mãe o pode fazer”, como se lê na carta. Custa 12€ e é uma receita de família feita com pão, leite, ovos, açúcar e Vinho do Porto. Cristóvão começou por fazê-lo para o restaurante, até a mãe provar e concluir que o fazia melhor. Desde então, é ela quem o prepara, um de cada vez. Cada pudim demora cerca de quatro horas e só há quando há.
Além deste clássico, a carta inclui mousse de chocolate com amêndoa e compota de laranja (14€), pão de ló com gelado de queijo da Serra (14€) e queijos portugueses artesanais (22€).
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