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Os loucos anos 20 estão de volta ao Porto em cocktails inspirados em Pessoa e no Majestic

A nova carta do Bar American demorou quase um ano a preparar e junta referências da cidade, produtos portugueses e criações originais.

Fernando Pessoa aparece dentro de um copo com ameixa e erva-príncipe. O Café Majestic transforma-se numa combinação de café, baunilha e amaro sem álcool. Mais adiante, um licor produzido por monges beneditinos desde 1935 junta-se a whisky, mel e lavanda. Estas são algumas das histórias que agora se podem beber no Bar American, onde uma nova carta recupera personagens, lugares e sabores ligados ao Porto dos anos 20.

O bar do The One Monumental Palace lançou, a 4 de agosto, a primeira grande renovação da carta desde que o espaço foi oficialmente apresentado em março de 2025. Chama-se “Ciclo, Terra e Tempo”, demorou quase um ano a preparar e reúne novas criações, cocktails clássicos, propostas sem álcool e dois formatos personalizáveis. O Rum Runner, uma das bebidas mais reconhecidas da casa, mantém-se no menu.

A nova carta recupera a efervescência cultural do Porto das décadas de 20 e 30, quando cafés, teatros, hotéis, clubes e salões juntavam artistas, escritores, intelectuais e membros da burguesia. O modernismo português, a boémia e a vontade de experimentar novas formas de viver servem de base a uma seleção onde quase todos os destilados escolhidos têm origem nacional.

A mudança inaugura também uma espécie de coleção editorial. A equipa pretende criar uma enciclopédia de cartas do Bar American, com um novo volume por ano. Os loucos anos 20 continuarão como ponto de partida, mas serão vistos através de temas, personagens e momentos diferentes.

A primeira parte do menu, intitulada “Renascimento Criativo”, reúne três cocktails de autor. The Portuguese Affair (15€) combina Gin Cobalto 17, lúcia-lima e pera-rocha. O Heteronym (16,50€) foi inspirado no poema “O Guardador de Rebanhos”, atribuído a Alberto Caeiro, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, e junta Gin Adamus, limão, ameixa, louro e erva-príncipe.

Já o Sanctum (15€) cruza Glenfiddich 12, mel, limão e lavanda com Licor de Singeverga, produzido pelos monges beneditinos do Mosteiro de Singeverga desde 1935. A escolha segue um dos princípios da nova carta: procurar ingredientes com uma origem reconhecível e uma história ligada ao território.

O capítulo seguinte chama-se “Burguês e Boémio”. O Golden Coast (16,50€) leva vodka portuguesa Venakki, ananás dos Açores, melão e cidreira. O Le Rouge Doux (15€) utiliza kirsch do Fundão, tomilho-limão e cereja preta, enquanto o Late Harvest (15€) combina aguardente Adega Velha XO, pêssego, limão, pinheiro e alecrim.

A origem e a sazonalidade dos produtos ajudam a construir uma leitura portuguesa da alta coquetelaria. Fruta dos Açores, maçã de Alcobaça, laranja do Algarve, pera-rocha, aguardente e gins nacionais aparecem ao longo do menu, sem excluir referências internacionais quando fazem sentido na receita.

À frente da carta está Tiago Oliveira, Head of Mixology do hotel. Natural do Porto, o bartender regressou à cidade no final de 2024, depois de passar cerca de uma década em Londres, onde trabalhou em espaços de Mayfair como o The Merchant House, o MNKY HSE e o Black Parrot. O percurso inclui ainda a participação como jurado nos World Drink Awards.

Quando apresentou o conceito do bar, Tiago descreveu-o como “um speakeasy sem o ser”. A inspiração vem dos bares clandestinos que se multiplicaram nos Estados Unidos durante a Lei Seca, mas aqui não são necessárias senhas nem portas escondidas.

“No seu passado, também nos anos 20 portugueses, era o bar clandestino do histórico Café Monumental”, explica. “Queremos ser um speakeasy, não oculto nem proibido, mas muito inspirado no Gatsby, onde o glamour e a rebeldia eram as palavras de ordem do dia.”

Essa narrativa está ligada à história do edifício. Durante as obras de recuperação, iniciadas em 2016, terá sido encontrado atrás de uma parede um antigo bar com uma placa onde se lia “Bar Américain”. O hotel abriu em 2019 e o espaço funcionou inicialmente como bar de apoio aos hóspedes. Entre 2020 e 2023, esteve associado ao Yakuza, antes de ganhar uma identidade autónoma e de se abrir de forma mais evidente à cidade.

A decoração acompanha o regresso aos anos 20. O espaço, com capacidade para cerca de 50 pessoas, apresenta madeiras escuras, veludos, mármore verde, padrões geométricos, luz baixa e vários apontamentos dourados. A inspiração Art Déco cruza-se com elementos da Belle Époque do hotel e com um ambiente intimista, embora o serviço procure manter-se próximo e descontraído.

Da carta original sobrevive o Rum Runner (22€), preparado com spiced rum caseiro, licor de chocolate, sumo de lima, ananás e bitters. Inspirado nos contrabandistas que transportavam álcool durante a Lei Seca, tornou-se no Clássico da Casa e continua a chegar à mesa como uma das experiências mais marcantes do bar.

“O nosso maior objetivo foi criar uma carta que pudesse estar disponível ao longo do ano”, explica Tiago Oliveira. A equipa privilegiava ainda bases produzidas no próprio espaço, como infusões, xaropes e preparados aromáticos. Essa atenção técnica mantém-se no novo menu, agora com uma ligação mais forte aos produtos portugueses.

Também há duas experiências que podem ser ajustadas ao gosto de cada cliente. No Grand Martini, disponível desde 16,50€, escolhe-se entre perfis cítricos, herbáceos, especiados ou florais. O Grand Old Fashioned começa nos 18€ e permite selecionar a bebida espirituosa e um perfil que pode ser intenso e tropical, floral e aromático, complexo ou fumado.

Entre os clássicos, todos a 15€, encontram-se Negroni, Sidecar, New York Sour, Tom Collins, Corpse Reviver Nº2, Martinez, Hanky Panky e Alexander. Para quem não bebe álcool, a secção Innocent Sips propõe quatro cocktails a 13€. Além do Majestic, com café, baunilha e Amaro Lucano 0%, há White Ink, com maçã de Alcobaça, pera, limão e camomila; Promenade, com laranja do Algarve, tomilho-limão e soda; e Parlor, feito com ananás dos Açores, limão e erva-príncipe.

A experiência pode ser acompanhada por petiscos servidos entre as 12 e as 23 horas. A carta, desenvolvida pela equipa do chef Julien Montbabut, responsável pelo restaurante Le Monument, distinguido com uma estrela Michelin, inclui croquetes de alheira de caça ou bacalhau (8€), peixinhos da horta (9€), queijo São Jorge com marmelada (10€), croque monsieur (14€), pica-pau (20€) e mini lobster rolls (22€).

De quarta-feira a sábado, entre as 19 e as 22 horas, há ainda música ao vivo. O cenário mantém-se e o Rum Runner também. O resto da carta começa agora um novo capítulo desta viagem pelo Porto dos anos 20.

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FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Av. dos Aliados, 151
    4000-067 Baixa
  • HORÁRIO
  • Domingo a quinta-feira das 12h às 00h
  • Sexta-feira e sábado das 12h às 01h
TIPO DE COMIDA
Cocktail bar

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