Américo Pinto tinha 13 anos quando entrou pela primeira vez na Cervejaria Gazela, para o seu primeiro dia no novo emprego. Viviam-se os primeiros anos da década de 70 e a cervejaria, fundada em 1962 na zona da Batalha, já era um ponto de encontro para quem saía do teatro ou do cinema e procurava um petisco rápido antes de regressar a casa. Décadas depois, o jovem aprendiz tornou-se dono da casa. Agora, aos 65 anos, continua à frente da marca que abriu na passada sexta-feira, 13, o terceiro restaurante na cidade.
O novo espaço abriu portas na Rua de Entreparedes, a poucos metros dos outros dois espaços da casa. Uma decisão motivada pela elevada procura. “Começou a haver muita fila e as pessoas esperavam muito tempo para entrar. Então resolveu-se criar esta terceira casa”, conta Américo Pinto à NiP.
A história da Gazela confunde-se com a história do seu produto mais famoso, o icónico cachorrinho. O snack nasceu pouco depois da abertura da casa e rapidamente ganhou fama entre os portuenses. Na altura, explica Américo, era servido inteiro. “Antigamente comiam inteiro. Fazíamos um laço com um guardanapo e servíamos assim”, recorda.
Com o tempo, um cliente pediu que fosse cortado em pedaços para comer mais devagar. A ideia resultou e acabou por se tornar uma das imagens de marca da casa. Hoje, a maioria dos cachorrinhos é servida fatiada em pequenas dentadas. E apesar da popularidade, a receita mantém-se praticamente igual desde o início. O pão continua a ser uma baguete fina e estaladiça, pincelada com manteiga, que envolve salsicha fresca e linguiça do Leandro, do Mercado do Bolhão, e queijo derretido. O toque final é o molho picante familiar, preparado fora do restaurante e envolto em secretismo. “Só há duas pessoas que sabem fazer o molho. Sou eu e o meu genro”, revela o responsável.
Mesmo quando outras casas começaram a vender cachorrinhos, o responsável acredita que há algo difícil de replicar. “Há sempre alguma coisa que escapa. Mesmo que comprem o mesmo produto, há ali um toque pessoal”, explica. “É uma coisa que vem da forma de fazer e também um bocadinho de amor pelo que se faz.”
Esse cuidado ajudou a transformar a Gazela num dos símbolos gastronómicos do Porto. Em dias movimentados, saem centenas de cachorrinhos das cozinhas da cervejaria e chegam a ser vendidos entre 800 e 1.000 por dia. A fama ultrapassou fronteiras quando o chef e apresentador norte-americano Anthony Bourdain visitou o restaurante em 2017 para o programa “Parts Unknown”.
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A passagem do chef trouxe uma nova onda de curiosidade internacional. “Depois de ele vir cá, foi um boom”, recorda Américo. Desde então, turistas de vários países fazem questão de passar pela pequena cervejaria da Batalha para provar o famoso snack.
A expansão da Gazela começou alguns anos antes, quando o primeiro espaço deixou de conseguir responder à procura. A segunda casa abriu em 2018, também na Rua de Entreparedes. Agora, o terceiro restaurante surge praticamente ao lado. Apesar da nova abertura, o conceito mantém-se fiel ao original. “O espaço é igual, o serviço é igual. Quem conhece a Gazela sabe o que procura”, explica o proprietário.
A decoração segue a mesma lógica das casas anteriores. O balcão foi replicado no piso térreo quase ao detalhe e o ambiente continua simples, com mesas de madeira e referências à história da marca nas paredes. A principal diferença é a presença de um piso superior, algo que não existia nos outros espaços. “Tem uma sala no primeiro andar. Dá um toque mais de privacidade e até um certo requinte à experiência”, admite Américo.
O restaurante tem atualmente cerca de 36 lugares, mas pode chegar aos 45 com alguns ajustes na disposição das mesas. Na carta, o protagonista continua a ser o cachorrinho (4,60€). Mas a oferta vai além do clássico snack. Há também francesinhas (13€) ou francesinha com ovo (14,50€), pregos em prato (12,20€), pica-pau simples (10€) ou pica-pau à Américo (14€ ou 19€, dependendo do tamanho), omeletes (9€ a 10€) e bifes ao alho (22€). Para acompanhar, há batatas fritas (2,70€), linguiça ou salsicha (3€) e até caldo verde (2,80€). Para acompanhar, a lista inclui cerveja, refrigerantes, vinhos e algumas bebidas espirituosas.
Apesar de já não passar os dias atrás do balcão como fez durante as últimas cinco décadas décadas, Américo continua presente diariamente no negócio. Afastar-se por completo nunca foi uma opção. “Eu acho que não mudava por isto mesmo. Se parasse era como se morresse”, admite. O contacto com clientes, a rotina do restaurante e a necessidade constante de encontrar soluções novas são, diz, a energia que o mantém ativo. “Isto dá-me uma adrenalina de vida, de pessoa para pessoa. É tentar reinventar e não ficar parado.”
A abertura da terceira casa não significa o fim da expansão. Pelo contrário. O proprietário revelou à NiP que já está a trabalhar num novo projeto. “Já estou a construir uma de raiz, maior do que esta”, adianta. A ideia é abrir o quarto restaurante até ao final de agosto, embora ainda existam detalhes por definir.
Carregue na galeria para conhecer a terceira casa da mítica cervejaria Gazela no Porto.

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