O pastel de nata perdeu a forma redonda, ganhou café e “um cheirinho” e tornou-se uma das sobremesas mais inesperadas da nova carta do Blss U. A ideia surgiu durante uma reunião, enquanto Diogo Dias dobrava uma folha. “Estava a tentar magicar como podia fazer um pastel de nata com um formato diferente. Estava com o papel nas mãos, fiz assim e ficou com esta forma”, conta o novo chef do gastro club portuense.
Natural de Santa Maria da Feira, Diogo começou o percurso profissional em 2010. Ao longo dos últimos 16 anos, fez estágios no Porto e em Palma de Maiorca e passou por diferentes cozinhas no Algarve. A primeira referência, porém, surgiu em casa. “Tenho uma avó que cozinha muito bem”, recorda. Essas memórias cruzam-se agora com os produtos e técnicas que conheceu pelo caminho.
O Blss U abriu a 12 de setembro de 2024, na Rua Chã, em frente à Sé Catedral. Integrado no Sé Catedral Hotel Porto, nasceu para recuperar o conceito de gastro club, ao juntar restaurante, bar, música e dança no mesmo espaço. A ideia passava também por contrariar a imagem de um restaurante de hotel fechado sobre si próprio. “Queríamos trazer um conceito que está um pouco perdido na cidade”, explica Francisco Nogueira, diretor da unidade.
A proposta gastronómica original, assinada por Xavier Oliveira com curadoria de Miguel Rocha Vieira, partia da cozinha portuguesa e acrescentava técnicas, ingredientes e sabores de diferentes geografias. As influências asiáticas e japonesas tinham bastante peso, mas podiam cruzar-se com referências latino-americanas ou europeias. Os sete pecados capitais davam nome e narrativa aos pratos, pensados para comer com as mãos, partilhar e experimentar “sem culpas, sem cerimónias”.
Dois anos depois, e agora com Diogo Dias a comendar a cozinha, a irreverência mantém-se, mas a apresentação está mais simples. A cozinha mantém a liberdade de viajar, mas recupera uma ligação mais evidente às memórias do chef e aos produtos portugueses. As referências asiáticas foram reduzidas de forma intencional, embora não tenham desaparecido: continuam presentes no bao de caranguejo, no miso do pão de ló e no sake que acompanha o ananás dos Açores. A carta também cruza a chamuça com cogumelos, a harissa com grão e batata-doce ou o pico de gallo com caranguejo de casca mole.
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Os pratos deixaram de se chamar Gula, Preguiça ou Ira e aparecem agora identificados pelo que chega à mesa. Cada proposta inclui apenas uma frase que sugere um pecado e abre espaço à interpretação. “Dez pessoas podem ler a mesma frase e achar algo diferente”, explica Diogo.
Por sua vez, o diretor do espaço acrescenta: “Mais do que um tema estético, esta narrativa funciona como uma atitude perante a comida: prazer sem culpa, intensidade e provocação. A nova carta nasce dessa base conceptual, mas com uma leitura mais madura e refinada. Optámos por focar os pecados no bar. Aqui, na carta de pratos, é mais direto”.
A nova carta começa com opções pensadas para partilhar — ou “fingir que sim”, como se lê no menu. Há pipocas de frango (8€), pastéis de bacalhau XXL com chutney de pimentos (8€), croquete de feijoada com maionese de enchidos e couve frita (9€), chamuça de cogumelos (9€), rabanada de leitão (9€), bao de caranguejo de casca mole (11€) e choco “bolonhesa” (12€), inspirado numa receita da infância do chef.
O antigo arroz de enchidos, um dos best-sellers da casa, reaparece transformado numa bochecha de novilho com paelha de enchidos (22€). Entre os principais também se encontram presa de porco com açorda de amêijoas (24€), bacalhau frito com molho tártaro (24€) e garoupa assada com puré de aipo, manteiga queimada, salicórnia e limão (24€). “É um peixe forte, mas, se não lhe der muito tratamento, torna-se suave”, afirma.
Nas sobremesas, juntam-se ao pastel de nata (9,50€) o pão de ló de miso com ameixa d’Elvas e chá verde (9€), maçã, lichias e mirtilos (8,50€) e ananás dos Açores com sake e arroz (8€).
Os sete pecados capitais passam agora a pertencer sobretudo ao bar, área em que a equipa pretende reforçar a aposta. A carta inclui Avareza, Gula, Ira, Orgulho, Luxúria, Inveja e Preguiça, com preços entre 10€ e 13€. A Gula leva vodka, cordial de red velvet e espuma de mascarpone; a Ira junta mezcal, Ancho Reyes e pepino; e a Luxúria combina rum com fatwash de queijo da Serra, água de pickle de beterraba e cordial de cenoura. Há ainda cocktails clássicos e três opções sem álcool, entre 7€ e 10€.
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