Seis metros quadrados de arte e várias paredes espelhadas fazem parecer que a visita termina ali. Só depois de encontrar a porta escondida se percebe que, atrás daquela pequena galeria no Pátio do Bolhão, existe um bar. Chama-se Under, abriu a 6 de agosto e é o novo projeto de Rita Lopo e Maria Monjardino, as mesmas responsáveis pelo Nola Kitchen. Fica, literalmente, por baixo da versão 2.0 do restaurante, uma localização que acabou por ajudar a escolher o nome.
A ideia começou a ganhar forma cerca de dois anos antes da abertura, durante a transformação da segunda casa do Nola. O edifício era bastante maior do que parecia visto da rua e, além do restaurante, tinha um piso inferior, cozinha, pátio e uma zona superior com potencial para eventos. Rita e Maria queriam aproveitar melhor essas áreas e perceberam que uma das salas, pouco funcional como extensão do restaurante, podia ter uma identidade própria, até porque o balcão já estava instalado e boa parte da infraestrutura necessária para um bar também.
O primeiro plano era mais discreto. As duas chegaram a criar uma espécie de “dark kitchen”, com sandes, pão de queijo e cookies vendidos através de plataformas de entrega. A proposta fugia ao registo saudável associado ao Nola, mas permanecia fechada ao público. “O Under começou quase como a ideia de uma ‘dark kitchen’, mas rapidamente percebemos que o espaço pedia algo muito mais vivo e com alma”, explicou Rita à NiP.
O impulso decisivo chegou com a chef de bar, natural do Rio de Janeiro, cujo percurso começou longe dos cocktails. Micca estudou Direito, interrompeu a formação para cuidar do pai após um acidente e descobriu a profissão quando uma prima a convidou para ajudar num evento. Ficou fascinada com o trabalho atrás do balcão, integrou uma equipa e começou a participar em eventos entre o Rio de Janeiro e São Paulo, antes de trabalhar durante mais de uma década no bar de um hotel carioca. Mudou-se para Portugal há cerca de três anos e, quando conheceu aquele balcão já montado no piso inferior do Nola, insistiu que valia a pena aproveitar o potencial da sala.
Nasceu assim um speakeasy descontraído, sem o ambiente de confusão associado à cena noturna da Baixa. “Queremos um bar onde as pessoas venham, se sintam em casa e confortáveis”, resumem as responsáveis. O espaço tem 29 lugares sentados, incluindo os bancos do balcão, pode receber cerca de 34 pessoas e também está disponível para aniversários e outros eventos privados.
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A decoração acompanha essa ideia de sala de estar, com sofás corridos em tons claros junto às paredes, almofadas terracota, verdes e escuras e cadeiras de madeira curva à volta de pequenas mesas pretas, iluminadas por candeeiros individuais. Os arcos, a luz indireta e as fotografias antigas do Porto, escolhidas para mostrar uma cidade distante dos postais turísticos, ajudam a tornar o ambiente mais intimista. Logo à entrada, um mural de Inês Arisca, dominado por vermelhos, amarelos e formas orgânicas, funciona como primeiro cartão de visita.
A galeria não serve apenas para esconder a porta. Foi criada como plataforma para artistas emergentes, com exposições rotativas e entrevistas destinadas a contar o percurso de quem ali apresenta trabalho. Até 30 de setembro, recebe “Enlaivoscer”, de Beatriz Kieling, estudante de Artes Plásticas na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, uma mostra que reúne pinturas escultóricas em papel sobre a relação entre o ser humano e a natureza. A programação deverá ainda estender-se à música ao vivo, DJ sets, stand-up comedy e outros encontros ligados às artes.
A música também chega à carta de cocktails. “Inspirámo-nos nas canções que passam diariamente na playlist”, conta a chef de bar. Entre as cinco criações da casa estão o Dream On (12€), com gin, shrub artesanal de manga e espumante, o Moonshadow (10€), que junta vodka, limão, mel, gengibre e manjericão e o Wind Horses (11€), preparado com bourbon, limão, xarope de mel e vinho do Porto Ruby. Os xaropes e shrubs são produzidos pela equipa com ingredientes naturais e o grau de doçura pode ser ajustado ao gosto do cliente.
Um dos favoritos é o Tangerine (12€), feito com vodka, sumo de tangerina, xarope artesanal de tamarindo e espuma de gengibre. Já o mais elaborado, Garota de Ipanema (14€), cruza cachaça, infusão de jambu, gengibre, frutos vermelhos e especiarias. A carta mantém ainda clássicos como caipirinha (5€), mojito (7€), negroni (9€) e espresso martini (10€). Para quem prefere bebidas sem álcool, os mocktails começam nos 4€: o Cinderela (5,50€) mistura laranja, maracujá, limão e ananás, enquanto o Red Flower (4,50€) combina hibisco, soda e hortelã.
Na comida, a ligação ao andar de cima continua visível, embora o Under tenha uma identidade própria. A cozinha do Nola prepara alguns elementos da carta, entre os quais o guacamole com nachos (6€) e o Chocolate Cake by Nola (7€), com cacau, chocolate negro e caramelo de tâmara e miso. As sandes ocupam o centro da oferta, com Bresaola & Shiitake (10€), Pistácio, Burrata & Mortadela (9€), Pesto & Vegetais Grelhados (8€) e Bochecha & Queijo da Ilha em bolo lêvedo dos Açores (12€). Para dividir, existem pão de queijo artesanal (1,50€ a unidade), tábua de queijos (18€), azeitonas fumadas, chips de batata-doce e tiras de bolo lêvedo tostado, estas últimas opções a 2€.
Às sextas-feiras, o programa passa pela música ao vivo ou pelos DJ sets. Rita e Maria querem criar na Baixa “um lugar sossegado, longe do ruído caótico da noite”, onde se juntam boa comida, bebida bem executada e espaço para descobrir artistas. Antes de tudo isso, porém, é preciso conseguir encontrar a porta.
Carregue na galeria para conhecer o novo bar do Porto.







