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Vinho, paz e a outra vida que não temos. É assim a Quinta dos Carvalhais

Fica na região do Dão e tem 100 hectares, com nove tipos de solos diferentes. É uma espécie de utopia natural da Sogrape.
A quinta fica entre Mangualde e Nelas, na região do Dão.

O realismo mágico é um estilo literário criado no século passado por alguns brilhantíssimos escritores sul americanos, como Isabel Allende ou Gabriel García Márquez. Este movimento resume-se mais ou menos assim: por vezes, há histórias reais com contornos tão improváveis que parecem narrativas mirabolantes de ficção fantástica. Feito o preâmbulo, o que se segue é um relato fidedigno de uma quinta escondida no Dão, onde as personagens, o tempo e a vida estão numa realidade paralela — e onde o mundo parece aquilo que deveria ser.

Estamos a falar da Quinta dos Carvalhais, onde se pratica um tipo de viticultura sustentável, mas já lá vamos. Sabemos que todos estão à espera de saber mais sobre os vinhos que aqui se fazem — afinal, foi por isso que fizemos uma viagem de praticamente três horas de Lisboa até Mangualde. E aqui chegadas, debaixo daquela que foi das primeiras grandes chuvas do ano, sentimos que nem isso nos tira a sensação de como é bom viver aqui, sem pressa.

É nesta Quinta do Dão, que se estende por 100 hectares até Nelas, que encontramos a casa. Só assim: casa. É este o nome que todos dão ao edifício de pedra antiga onde a dona Angelina prepara o almoço daquele dia. Desta vez, calhou-nos um cabrito em forno de lenha. Mas antes sequer de começar o almoço, já tínhamos um copo de Quinta dos Carvalhais Rosé (9,99€) na mão.

Leve e fresco, o doce vem das notas de frutas como o pêssego e a nectarina. A intensidade do aroma é inegável, balançada com uma acidez firme — que no fundo é a razão da frescura deste vinho.

Ainda antes do cabrito, picámos algumas entradas com um Encruzado de 2022 (22€) que fará qualquer fã de vinho branco parar e apreciar calmamente cada gole. Elegante e harmonioso, tem um aroma intenso onde sobressaem as notas de jasmim e flor de laranjeira.

O famoso cabrito fez-se acompanhar de um novo vinho: o Quinta dos Carvalhais Touriga Nacional 2020 (22€). Tal como o seu antecessor, estes vinhos remontam às origens da quinta, já que com a primeira vindima em 1990 começaram a ser realizados os primeiros estudos de monovarietais — ou seja, vinhos produzidos com apenas uma casta. O Encruzado e a Touriga Nacional foram o grande foco.

Neste tinto, são as notas de violeta, fruta preta, mentol e os aromas balsâmicos que sobressaem, mas sem apagar o tempo que estagiou em madeira de carvalho francês.

Mas a viagem pelos tintos não tinha ainda terminado e pudemos experimentar o Reserva Tinto 2020 (30€). Este é já um vinho feito a partir de várias castas — Touriga Nacional, Alfrocheiro Preto e Tinta Roriz — e foi uma surpresa que, apesar do aconchego do interior, nos transportou lá para fora, para junto dos aromas das árvores e mentolados. Sim, não estamos a imaginar.

“Se olharmos à volta, conseguimos ver em toda a paisagem carvalhos, cedros, eucaliptos, pinheiros e, também, hortelã que cresce no meio da vinha. Quando andamos pela quinta durante o ano, conseguimos sentir esses aromas todos da vegetação que aqui existe e esses aromas sentem-se depois no vinho também. Para nós, é muito bom fazer vinhos que representam o que a Quinta dos Carvalhais é na sua essência”, explica a enóloga Beatriz Cabral de Almeida.

33 anos de experiência em solos excecionais

Beatriz é uma mulher invulgar, capaz de ser uma das personagens principais deste romance realista mágico. Tem 42 anos e viveu durante toda a sua vida no Porto, mas sempre manteve o espírito no campo, entre a terra, as vinhas e as barricas. Já realizou vindimas em todo o País, do Douro ao Alentejo — mais vezes do que consegue contar. Agora, afirma-se em pleno no Dão, que se transformou na sua segunda casa.

É Beatriz quem nos explica que na Quinta dos Carvalhais existem nove tipos de solos diferentes: uma sorte que permite explorar uma maior diversidade de uvas, comparativamente a outras quintas da região.

“Uma particularidade importante da região do Dão é o solo. São solos em que a rocha mãe é granito. Estes solos são muito arenosos, ou seja, têm pouca capacidade de retenção de água e conferem um carácter muito fresco e muito elegante aos vinhos. É por isso que os vinhos do Dão são completamente diferentes de outras regiões. São muito mais frescos, mais elegantes e subtis. Isso é algo que em Portugal, só encontramos aqui”, acrescenta André Guedes, o coordenador de viticultura.

E apesar desta qualidade original, é também o tipo de viticultura que se pratica que ajuda a manter os solos saudáveis. Aqui não há herbicidas e as ovelhas são recebidas algumas vezes por ano para passear livremente por entre as vinhas enquanto comem ervas. E como tudo se aproveita: o estrume fertiliza o solo ao aumentar o teor de matéria orgânica, o que por sua vez contribui para a retenção de água. Juntando as diferentes técnicas, temos a receita perfeita para solos produtores de uvas de grande qualidade.

Um trabalho que já é feito há 33 anos. A Quinta dos Carvalhais foi adquirida pela Sogrape em 1988 e desde logo foi um projeto inovador. As obras de construção da adega, iniciadas no ano seguinte, foram uma corrida contra o tempo vencida em 9 meses, ficando pronta para as vindimas de 1990.

Além do casario tradicional serrano, a propriedade inclui, ainda, uma adega antiga recuperada e usada para algumas experiências com pequenas quantidades. E a NiT fez parte de uma delas: saltámos para dentro de um dos lagares e hoje já podemos descrever como é pisar uvas.

Com 37 anos, foi André que durante o almoço nos explicou como funcionam exatamente as vindimas — e a vida dura e verdadeira que elas representam. “Eu coordeno uma equipa que, comigo incluído, conta com 17 pessoas, mas na altura das vindimas somos 30. São dois operadores de máquina, ou seja, andam com o trator, e 14 trabalhadores rurais. As pessoas que vêm para as vindimas ficam cá cerca de um mês. Começamos a trabalhar às 8 horas e terminamos às 17 horas, de segunda a sábado”.

A época da apanha da uva começou no dia 23 de agosto e terminou exatamente no dia em que visitámos a Quinta dos Carvalhais, 21 de setembro. Devido à ocorrência de chuva durante este período, foi necessário acelerar a vindima para garantir o melhor timing possível da apanha das uvas de modo a não comprometer a sua qualidade e, consequentemente, dos vinhos. Aliás, tudo, mas mesmo tudo o que acontece às uvas afeta a qualidade dos vinhos. Há história de amor mais perfeita do que esta?

A seguir, carregue na galeria para conhecer melhor a Quinta dos Carvalhais e os seus vinhos únicos.

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Este artigo foi escrito em parceria com a Sogrape.

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