Enquanto os modelos percorriam as passarelas de Ílhavo, Matosinhos e, sobretudo, do M-ODU — o renovado Matadouro do Porto —, também do lado de fora havia quem desse nas vistas. Afinal, em qualquer semana de moda, o desfile começa muito antes das luzes se acenderem. Entre criadores, estudantes, stylists, influenciadores e convidados, os corredores do Portugal Fashion voltaram a transformar-se numa extensão natural da passarela, onde cada coordenado parecia contar uma história diferente.
Ao longo dos segundo e terceiro dias do evento, foi possível perceber que, apesar da diversidade de estilos, existiam pontos em comum. O minimalismo foi, sem dúvida, a linguagem dominante. Vestidos de linhas simples, cortes limpos, silhuetas elegantes e uma paleta marcada por branco, preto, castanho, cinza e tons neutros repetiram-se entre dezenas de convidados. Uma escolha que dialogava naturalmente com as propostas apresentadas por criadores como Pé de Chumbo, Ernest W. Baker, Hugo Costa ou Miguel Vieira, onde a sofisticação surgiu através da construção das peças e não do excesso de elementos.
Os tecidos leves também dominaram os coordenados. Com temperaturas elevadas a fazerem sentir-se ao longo dos dias do evento, muitos convidados optaram por vestidos fluidos, saias compridas, tops de alças, camisas largas e peças que conciliavam conforto com elegância. O calor acabou por influenciar o street style sem comprometer a criatividade, provando que vestir-se para uma semana de moda não implica abdicar da funcionalidade.
Outra tendência evidente foi o regresso dos drapeados e das silhuetas fluidas. Vestidos de corte enviesado, decotes suaves e tecidos que acompanhavam o movimento surgiram repetidamente entre os convidados, numa estética discreta, mas sofisticada, que também encontrou eco em várias propostas apresentadas nas passerelles.
As transparências e a renda voltaram igualmente a marcar presença. Bárbara Cipriano, designer de 22 anos, escolheu um conjunto preto em renda, complementado com uma City Bag da Balenciaga e um colar Diesel. Explicou que procurava um visual pouco convencional para o verão, capaz de equilibrar um lado mais pesado com tecidos leves. A escolha acabou por refletir uma tendência que continua a ganhar força: as calças capri, onde elementos tradicionalmente associados à lingerie passam a integrar coordenados do dia a dia.
Também o vintage e a reutilização de peças continuaram a conquistar espaço entre os mais jovens. Margarida Santos revelou que grande parte do seu look era em segunda mão, enquanto Sofia Marinho conjugou peças compradas na Vinted com acessórios herdados da avó. Já Luca Gáves, estudante de Desenho de Moda, apostou num visual assumidamente genderless, combinando uma peça oversized colorida, colares sobrepostos, um leque irreverente e calções vintage da avó. O resultado contrastava com a predominância dos tons neutros, mas representava outra das grandes características das semanas de moda: a liberdade para experimentar sem regras.
Entre os coordenados mais inesperados destacou-se também Zara Ponteu, empresária brasileira de 74 anos. Escolheu uma saia em renda branca, um corpete com grandes flores aplicadas e um chapéu escultórico reciclado, inspirado na chapelaria clássica. Para si, era precisamente essa peça que dava identidade ao conjunto, mostrando que um único acessório pode transformar completamente um look.
Aliás, se houve elemento comum entre estilos tão diferentes, foi precisamente a importância dos acessórios. Óculos oversized, malas vintage, joias em camadas, leques, chapéus de grandes dimensões e calçado discreto surgiram como verdadeiros protagonistas. Em vez de competirem com a roupa, ajudavam a construir uma identidade própria para cada coordenado.
Curiosamente, apesar da diversidade de propostas, praticamente ninguém parecia vestido da mesma forma. Houve espaço para o chamado quiet luxury, para referências corporativas descontraídas, para inspirações festival, coordenados românticos, visuais genderless e propostas mais experimentais. Essa pluralidade refletiu o espírito da própria programação do Portugal Fashion, que ao longo dos primeiros três dias reuniu criadores tão distintos como David Catalán, Maria Gambina, Marques’Almeida, Veehana, Pé de Chumbo, Ernest W. Baker, Hugo Costa, Nopin e Miguel Vieira.
Entre desfiles e corredores do M-ODU, as tendências pareciam circular nos dois sentidos. Muitas das propostas apresentadas pelos criadores encontravam eco nos coordenados escolhidos pelo público, enquanto outros convidados antecipavam estéticas que voltariam a surgir na passerelle horas depois. No Portugal Fashion, a moda não se limita aos minutos em que os modelos desfilam: prolonga-se nos bastidores, nas conversas, nas fotografias e em cada pessoa que decide transformar o próprio look numa forma de expressão.
A edição deste ano termina este sábado, 4 de julho, novamente no M-ODU, com os desfiles de Malteza, Judy Sanderson, (Re)Veste, Daneh, Susana Bettencourt, Portuguese Shoes, A-LINE, Estelita Mendonça, Davii e Lo Siento. Se as passarelas prometem revelar as próximas tendências, o público deverá voltar a provar que algumas delas já começaram a ganhar vida muito antes de chegarem à primeira fila.
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