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Gio Rodrigues: “Prefiro perder dinheiro a perder pessoas”

Entre a moda nupcial e a restauração, o estilista fala com a NiP sobre este império improvável.

Fez-se um nome na moda pelas criações para noivas, mas o percurso de Gio Rodrigues nunca se esgotou num único território. Ao longo de mais de duas décadas, o criador de 49 anos construiu no Porto um projeto independente onde a moda convive com a hospitalidade, a restauração e uma forma muito clara de estar: criar com intenção, sem sacrificar pessoas pelo caminho.

“Prefiro perder dinheiro a perder pessoas”, afirma à New in Porto. Uma ideia que atravessa tanto o seu trabalho como a forma como lidera as equipas.

Nascido em Lisboa e com passagens por Viseu, foi no Porto que encontrou o espaço certo para construir a sua identidade. Depois de estudar design e de uma breve experiência como modelo, percebeu cedo que o seu lugar na moda estava longe da passarela. Primeiro, isso aconteceu através de uma loja multimarcas. Mais tarde, com a necessidade de criar algo verdadeiramente seu.

Por isso mesmo, em 2009, abriu na Baixa do Porto o atelier Gio Rodrigues, que reúne num só edifício o desenho, a confeção e o atendimento personalizado. Hoje em dia, a loja está distribuída por cinco pisos e aberta apenas por marcação prévia. O grande objetivo é manter uma relação direta com cada cliente.

Essa lógica de proximidade e criação de experiências estendeu-se a outros territórios. Em 2023, Gio Rodrigues abriu o Pão do Gio, um café e restaurante pensado como uma “tasca chique”, onde o pão de fermentação lenta assumia o papel principal e a cozinha portuguesa era reinterpretada com simplicidade e cuidado.

Mais do que um desvio da moda, o projeto nasceu de uma paixão antiga pela comida e pela mesa como lugar de encontro. “Moda também é hospitalidade”, defende.

No ano seguinte, o espaço evoluiu para o Fado no Porto, na mesma morada, mas com o conceito mais apurado. A comida tradicional ganhou novo protagonismo e passou a ser acompanhada por atuações regulares de fadistas.

“Quis criar um refúgio cultural, onde a tradição pudesse ser sentida de forma contemporânea”, explica. 

Foi neste contexto de consolidação e independência assumida que, em janeiro, Gio Rodrigues apresentou na Alfândega do Porto a nova coleção Bridal 2026/27. O desfile serviu de ponto de partida para uma conversa mais ampla sobre percurso, escolhas e responsabilidade — temas que atravessam esta entrevista exclusiva à New in Porto

O que falou mais alto no início da sua carreira: a urgência de tentar ou o medo de falhar?
Urgência. O medo veio depois, quando já não dava para voltar atrás. Nunca houve um momento solene em que decidi ser estilista — foi mais uma teimosia silenciosa. Comecei e simplesmente nunca parei. Desde muito novo que desenhava, tinha cadernos cheios de ideias, e mesmo quando o caminho não era claro, a vontade de continuar era sempre maior do que o receio de falhar.

Houve um momento em que percebeu que queria mesmo ser estilista?
Não houve anúncio solene [risos]. Foi algo que se foi impondo com o tempo. Comecei por estudar design, depois trabalhei como modelo, mas rapidamente percebi que o meu lugar na moda não era na passerelle. Era nos bastidores, a construir, a criar. A moda foi-se tornando inevitável.

Que memórias de infância ainda vivem consigo quando cria?
A curiosidade. Cresci a observar tudo: tecidos, pessoas, gestos. Esse olhar nunca desapareceu. Ainda hoje desenho com essa curiosidade meio ingénua, meio obsessiva — aquela vontade constante de perceber como tudo se constrói. Acho que é isso que me mantém atento e interessado.

Porque é que o Porto se tornou tão central no seu percurso?
Mudei-me para o Porto muito novo e apaixonei-me completamente pela cidade. Apesar de ter nascido em Lisboa e de ter passado por Viseu, foi no Porto que senti que podia construir algo meu. Gosto da forma como as pessoas recebem, da proximidade, da sensação de comunidade. Hoje sinto-me profundamente ligado ao Porto.

gio Rodrigues
O “rei das noivas”.

Quando sentiu, pela primeira vez, que estavam a levá-lo verdadeiramente a sério como criador?
Curiosamente, foi a minha primeira noiva cliente. Quando alguém confia o dia mais importante da sua vida a um miúdo que está a começar, isso muda tudo. Foi aí que percebi o peso da responsabilidade e que já não estava apenas a fazer roupa — estava a criar algo que ficaria na memória de alguém para sempre.

Qual foi o maior sacrifício pessoal que fez para construir a sua marca?
Tempo. Muito tempo. Em Portugal, o maior luxo ainda é ter tempo, e investi-o quase todo na marca. Houve períodos em que tudo parecia funcionar por fora, menos as contas. Esses momentos são duros, silenciosos e pouco visíveis, mas fazem parte do percurso de quem insiste.

A sua ligação ao universo das noivas foi uma escolha consciente ou algo que aconteceu naturalmente?
Aconteceu de forma totalmente natural. Comecei por não querer trabalhar com noivas, mas depois de desenhar o primeiro vestido, foi uma paixão à primeira vista. As noivas escolheram-me antes de eu as escolher a elas e, com o tempo, percebi que havia ali uma ligação emocional muito forte.

O que é que nunca o cansa, criativamente, quando desenha um vestido de noiva?
A responsabilidade emocional. Um vestido de noiva não é só moda, é memória futura. A estética convence, mas é a emoção que faz chorar no provador. Ainda hoje me arrepio quando sinto que o vestido e a noiva se “casam”.

Ser chamado de “rei das noivas” pesa mais como orgulho ou como responsabilidade?
Responsabilidade. Rei que é rei não pode falhar [sorriso]. Esse rótulo lembra-me todos os dias que não posso facilitar nem repetir fórmulas. Cada noiva chega com uma história diferente e merece ser tratada como única.

Há alguma história de noiva que resuma o que procura criar com o seu trabalho?
Há muitas, mas houve uma que me marcou profundamente. Era uma noiva muito silenciosa durante a prova — olhava-se ao espelho, respirava fundo e sorria de forma contida, como quem segura emoções antigas —. No fim, disse-me apenas: “É exatamente assim que eu queria que ele me visse.” Mais tarde soube que aquele casamento era também um recomeço, depois de uma grande perda. No dia do casamento, enviou-me uma fotografia sem texto. Não foi preciso. Há histórias que não se contam, vestem-se.

Onde vai buscar inspiração para as suas coleções atuais?
À vida real. Pessoas na rua interessam-me mais do que mil referências no Pinterest. A observação do mundo é a minha principal matéria-prima. A minha vida pessoal entra, claro, mas sempre com filtros — nem tudo precisa de ser literal para ser verdadeiro.

O que muda em si quando desenha para homem?
Quando desenho para homem, trabalho o desejo de forma mais subtil. É menos pele à mostra e mais tensão no corte. Gosto da ideia de um fato que insinua antes de revelar, que cria presença sem pedir permissão. É um jogo de poder silencioso, feito de linhas limpas e uma elegância que não precisa de se explicar.

Sente que essa faceta masculina da marca é reconhecida da mesma forma que as noivas?
Ainda não, mas cada vez mais. Existe sempre o estigma de que não podemos ser especialistas em várias áreas, mas é precisamente isso que me entusiasma. A tradição serve-me apenas como ponto de partida, nunca como limite. Um bom fato não é sobre repetir o passado, é sobre reescrevê-lo no corpo de hoje.

O que queria que o público sentisse ao sair do seu último desfile, o Bridal 2026/2027?
Que tivesse assistido a algo honesto. Bonito, sim, mas sobretudo verdadeiro. Este desfile tem muito de mim e nasceu de um processo muito intuitivo — menos explicação, mais sensação. Não é um desfile que pede aplauso imediato, mas que fica a ecoar depois, como uma boa memória.

Como nasceu o conceito deste último desfile?
Nasceu de forma muito intuitiva. Quis trabalhar o equilíbrio entre emoção e rigor, entre estrutura e sensibilidade, que hoje sinto que me define mais do que nunca. A escolha da Alfândega do Porto também não foi inocente — é um espaço com peso histórico e uma carga emocional muito forte, e fazia todo o sentido para esta coleção. Queria que o desfile fosse vivido como uma experiência honesta, onde cada detalhe tivesse intenção.

Que parte deste desfile é mais “Gio” do que nunca?
O equilíbrio entre emoção e rigor. Hoje já não preciso escolher um ou outro. Houve um momento nos bastidores que me confirmou isso: ver a equipa exausta… E feliz. Isso não se ensina.

O que significa, na prática, organizar desfiles desta dimensão em Portugal sem apoio do Estado?
Significa fazer contas todos os dias, pedir favores, negociar tudo e mesmo assim não desistir. Felizmente, nunca faço isto sozinho. Acredito muito em relações duradouras e em criar valor real para todos os envolvidos. Gosto de pensar nos meus desfiles como um palco onde vários talentos e projetos podem crescer em conjunto. Neste desfile tive a ajuda de muitas marcas e parceiros que me têm acompanhado ao longo de todo o meu percurso, entre eles o cabeleireiro Pedro Neto e a maquilhadora Vânia Rodrigues.

Para lá da moda, o que o levou a investir em projetos como o Pão do Gio ou o Fado no Porto?
A vontade de criar experiências, não só objetos. Moda também é hospitalidade. Sempre senti que o Porto precisava de espaços que celebrassem a nossa identidade de forma contemporânea, sem perder a tradição. Esses projetos nasceram muito por sobrevivência, mas acabaram por se transformar em prazer. Criar ambientes — seja um restaurante, uma mesa ou uma sala de fado — ensinou-me muito sobre criar roupa. No fundo, trata-se sempre de fazer as pessoas sentir alguma coisa.

O Pão do Gio acabou por evoluir para o Fado no Porto. Essa transformação foi estratégica ou sentiu que o projeto precisava de ganhar outra profundidade?
O Pão do Gio foi um ponto de partida muito intuitivo, quase emocional. Com o tempo percebi que o projeto pedia mais profundidade, mais identidade e uma ligação mais clara à cidade e à cultura portuguesa. A transformação para Fado no Porto não foi apenas estratégica foi uma evolução natural. Sentia que faltava alma, narrativa, algo que ficasse na memória. O fado trouxe isso: emoção, pertença e uma experiência que vai muito além da restauração.

O Fado no Porto, cruza gastronomia e música ao vivo. O que aprendeu sobre criar experiências nesse território que hoje influencia também a forma como pensa a moda?
Aprendi que as pessoas não procuram apenas coisas bonitas ou bem feitas procuram sentir algo. No Fado no Porto percebi o poder do tempo, da atmosfera, da expectativa e do detalhe invisível. Uma refeição, tal como uma peça de roupa, pode contar uma história e criar uma ligação emocional. Hoje penso a moda muito mais como experiência: desde o primeiro contacto até ao momento em que alguém veste uma criação minha e se reconhece nela.

Depois de moda e restauração, imagina expandir este lado mais ligado à hospitalidade para outros formatos ou cidades? Há novos projetos a nascer este ano?
Sim, imagino e já estou a trabalhar nisso. A hospitalidade abriu-me um novo olhar sobre como criar universos completos, não apenas produtos. Este ano há novos projetos a nascer, alguns ligados à restauração e outros a formatos híbridos, onde moda, cultura, comida e celebração se cruzam. Mais do que cidades específicas, interessa-me levar o conceito certo para o lugar certo, respeitando sempre a identidade de cada espaço.

Gerir um restaurante é muito diferente de liderar um atelier de moda. O que é que a restauração lhe ensinou sobre pessoas, tempo e liderança?
A restauração ensinou-me humildade e ritmo. Num restaurante tudo é imediato: não há margem para adiar, nem para falhar repetidamente. Aprendi muito sobre pessoas sobre escutar, motivar, gerir egos e cuidar de equipas em contextos de grande pressão. Também aprendi que liderança não é controlo, é presença. No atelier lidero com visão; na restauração lidero com tempo e empatia. Hoje sinto que esses dois mundos se equilibram e me tornaram mais completo como criador e gestor.

Porque continua a escolher Portugal?
Pelas pessoas. E por uma vontade quase teimosa de provar que é possível. Claro que já pensei em sair — quem nunca pensou, nunca foi honesto — mas continuo a acreditar que ainda há muito para construir aqui.

Que tipo de líder é nos bastidores?
Exigente, mas leal. Prefiro perder dinheiro a perder pessoas. O que mais valorizo numa equipa é compromisso. Talento aprende-se; carácter não.

Olhando para trás, qual foi o momento mais duro e o mais bonito da sua carreira?
O mais duro foram os períodos em que tudo parecia funcionar… Menos as contas. O mais bonito foi o primeiro desfile em que senti respeito no silêncio do público. Esse silêncio diz tudo.

Como gostaria que o seu trabalho fosse lembrado daqui a 30 anos?
Como honesto. O resto é vaidade passageira.

O que podemos esperar de Gio Rodrigues em 2026?
Mais foco. Menos pressa. E, espero, melhores noites de sono.

Se pudesse falar com o Gio do início da carreira, o que lhe diria?
“Confia mais cedo. E dorme — porque depois vai ser raro.”

Carregue na galeria para espreitar os melhores momentos do Bridal 2026/2027.

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