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Projetos portuenses receberam menções honrosas em programa de moda sustentável

A iniciativa, “beat by be@t” do BCSD Portugal, procura promover uma prática circular entre designers e a indústria têxtil.
O projeto quer tornar a moda mais consciente.

No final do ano passado, o programa de inovação beat by be@t, promovido pela Business Council for Sustainable Development Portugal (BCSD), lançou um desafio aos designers de moda e à indústria especializada nacional: juntarem-se na criação de soluções circulares e inovadoras.

“Trata-se de um programa que promove, acima de tudo, a circularidade no setor da moda. Considerando as metas e os desafios que temos no presente e futuro, contribuindo ativamente para a restauração do planeta, o beat by be@at é o motor de inspiração para que apareçam outros projetos e que outras empresas, empreendedores e jovens criadores se motivem a pôr as suas ideias em prática”, afirma Cláudia Carocha, responsável pelos projetos inovadores do BCSD Portugal.

Os projetos portuenses de Carla Pontes da Empresa Têxtil Nortenha e de Marta Neto da Trot by Trotinete Lda. receberam menções honrosas no programa de moda sustentável. As primeiras criaram o projeto “Ecru”, um kit de DYI numerado e limitado, onde excedentes industriais, têxteis e cartão servem para criar uma coleção de peças, que podem ser transformadas segundo as estações e vontades, potenciando o material têxtil em vários ciclos de vida.

“A ideia para o ECRU nasceu com o propósito de ensinar com o objetivo de que todas as pessoas pudessem criar as suas próprias roupas e, depois, transformá-las noutras coisas. Nas formações do beat by be@t, surpreendeu-me muito que no processo de separação para a reciclagem dos têxteis pós-consumo tivessem que cortar todas as costuras da peça para aproveitar apenas o material. Estas imagens das peças, que voltam a ser apenas o seu molde, fez para mim muito sentido (porque adoro trabalhar os moldes) e foi o início para o pensamento de peças modelares que, dependendo de como são montadas, dão origem a várias peças de roupa”, começou por explicar à New in Porto, Carla Pontes, responsável pelo projeto Ecru.

A designer admite tratar-se de um kit, que permitirá às pessoas ter mais do que uma peça em simultâneo, dependendo, claro, dos módulos gastos para cada modelo da peça criada. Quando se “fartar” da peça, pode ser desmontada e montada novamente para dar origem a outra completamente diferente. 

Carla ainda alerta para a seleção criteriosa das peças para a sua durabilidade. “Atualmente, grande parte das peças pode durar mais do que a vontade das pessoas, por isso, é importante ensinar a transformar e, antes de tudo, ensinar a fazer o ponto que permite a união: ao saber fazer de raiz, saberá também como reparar as peças que cria e transforma”, diz.

O segundo projeto com menção honrosa, NoWaste, é da autoria da designer Marta Neto em colaboração com a indústria têxtil Trot by Trotinete. O projeto envolve uma linha de aventais modernos e sustentáveis, feitos a partir do upcycling de desperdício têxtil, pretendendo criar uma base têxtil inovadora, versátil e aplicável a vários segmentos, que transforme o lixo em luxo simples, valorizando a tradição e o conhecimento têxtil ancestrais contra a massificação.

“Ao longo dos últimos 20 anos, a fast fashion doutrinou o consumidor a comprar produtos baratos, sem valor humano ou social, que outrora eram muito importantes na hora de comprar uma peça de roupa. Hoje é essencial que exista uma reeducação do consumidor. Aos poucos, os hábitos vão mudando e a necessidade de consumo também, daí a importância de iniciativas como o beat by be@t”, admitiu Marta Neto à NiP.

As peças foram feitas a partir de um elemento um tanto polémico na sociedade: o plástico. O objetivo é servir de convite para olhar, até o lixo, de uma forma mais positiva, e acima de tudo ver o potencial destes materiais como uma matéria-prima express.

“O lixo de hoje pode ser a sua roupa amanhã. Apesar de ser um material utilizado por todos, todos os dias é de tal forma odiado que falar sobre ele nos causa repulsa. Foi exatamente esse incómodo comum a todos que pretendi desafiar, ao criar peças utilitárias que despertem desejo de consumo, e que ainda nos façam refletir sobre como não valorizamos, por exemplo, o saco do lixo preto”, acrescenta a desginer.

No programa beat by be@t foram escolhidos seis candidatos, entre duas dezenas de criativos que se inscreveram online, formaram equipas com seis PME’s e tiveram acesso a workshops pensados pela equipa do BCSD Portugal, em diversas áreas de gestão de sustentabilidade. O vencedor do programa foi um projeto Lisboa, A Bloom Amidst Shadows, da autoria do designer Manel Baer e a empresa Lurdes Sampaio SA.

O projeto, que se destacou entre as seis propostas apresentadas na 59.ª edição da ModaLisboa, combina tecnologia e desperdício têxtil com os conceitos de reutilização para idealizar uma nova malha sustentável.

“Primeiramente, o foco principal deste conceito, foi solucionar uma ideia que minimizasse o desperdício têxtil em fábrica, revalorizasse e desse uma nova vida a ‘deadstock’ e, se possível, implementar em qualquer fábrica de tecidos, atuar instantaneamente e criar uma nova cadeia de têxteis, sem influenciar os processos existentes”, contou Manel Baer, à propósito do resultado do programa.

O designer ainda alerta para práticas ou mudanças no comportamento para um consumo mais consciente e responsável. “Acho que cada pessoa não necessita de comprar tanta roupa. Costumo ouvir bastantes vezes alguém dizer: “Preciso mesmo de uma blusa amarela”. Acho que a palavra ‘precisar’ é, muitas vezes, confundida com ‘querer’. Existe uma antiga regra muito simples e eficaz para ajudar a agilizar a pegada ecológica de cada um: o RRR- Reduzir, Reutilizar e Reciclar”.

A finalidade do beat by be@t é estimular a criatividade para o eco-design e a eco-engenharia na indústria têxtil e da moda em Portugal. Foi pensado ao longo do ano, dentro da grande missão da comunidade be@t textiles, liderada pelo Centro Tecnológico do Têxtil e do Vestuário (Citeve) e apoiada pelo PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), apostados na transição para uma bioeconomia sustentável.

Se ficou curioso, carregue na galeria para conhecer melhor cada um dos projetos.

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