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20 anos depois, a violação de “Irreversível” continua a nausear os espectadores

A cena foi quase toda improvisada, mas Monica Bellucci esteve sempre no controlo. O filme lançou o pânico em Cannes.
É um filme imperdível — mas não é para todos

São nove minutos de puro e ininterrupto terror que levaram a que muitos espectadores decidissem abandonar imediatamente a sala de cinema. Ainda é, duas décadas depois, considerada uma das mais chocantes cenas gravadas para um filme.

Durante esse período, Monica Bellucci é ameaçada, insultada, sexualmente abusada, sodomizada e violentamente agredida — num longo take sem quaisquer cortes ou interrupções. O decrépito túnel vermelho tornou-se no símbolo do violento “Irreversível”, realizado por Gaspar Noé, mas também numa decisão arriscada de carreira por parte da atriz italiana, que então começava a ser um nome de referência no cinema internacional.

Revelou-se, afinal, uma escolha acertada. Aos 57 anos, a italiana mantém-se no topo com uma carreira notável e prepara-se para lançar um novo filme, “A Memória de um Assassino”. A produção de ação conta com Liam Neeson no papel de um assassino com princípios, mas que acaba por se tornar num alvo da máfia.

Monica Bellucci é uma das protagonistas deste remake de um romance assinado pelo autor belga Jef Geeraerts — filme que chega aos cinemas esta quinta-feira, 19 de maio. Com mais de 50 filmes no currículo, a atriz não se pode queixar da fama, embora poucas cenas tenham conquistado a notoriedade desses nove polémicos minutos.

O realizador franco-argentino Gaspar Noé estava no seu início de carreira e “Irreversível” era apenas a sua segunda longa-metragem. Conhecido pela sua propensão para os temas e cenas chocantes, o realizador e argumentista decidiu contar a história do fim para o início — dois anos antes, Christopher Nolan lançava o seu “Memento” no mesmo formato, com grande sucesso. Por essa altura, Vincent Cassel e Monica Bellucci eram o casal sensação na Europa

Apesar do currículo pouco preenchido, a visão vanguardista de Noé tornava-o num realizador apetecível. “Cruzei-me com o Vincent numa discoteca. ‘O que é que estás a fazer? Eu e a Monica adorávamos trabalhar contigo’, disse-me. Eu expliquei-lhe que tinha um projeto mas que ele agora era demasiado famoso para o poder aceitar”, recorda o cineasta à “Dazed”.

“Disse-lhes que era uma história de amor entre um rapaz e uma rapariga que corre mal, que queria que fosse algo muito sexual porque essa é a essência da paixão para pessoas dessa idade.” 

A verdade é que Cassel não era, de todo, demasiado famoso para o aceitar. O casal aceitou juntar-se a Noé. “É preciso relembrar que eles eram o casal mágico do cinema francês, como a Nicole Kidman e o Tom Cruise [nos Estados Unidos]. Se eles dissessem que sim, o filme podia ser feito.” Os produtores nem pestanejaram perante a possibilidade de fazer “uma história de amor” em filme entre Cassel e Bellucci.

Contudo, Bellucci e Cassel tinham uma condição: trabalhariam com o realizador mas não num projeto que os revelasse na sua intimidade com o casal. Não haveria cenas de nudez entre os dois. “A sua relação e a intimidade era o pouco que lhes restava da sua vida privada (…) Acharam que não estariam preparados para isso”, notou, antes de decidir mudar o rumo do projeto. Tinham tudo a postos, menos uma história. Foi então que surgiu a ideia de “Irreversível”.

“Muito rapidamente pensei na ideia e retiramos o sexo explícito. Eles concordaram. E consegui ainda a participação do Albert Dupontel, outro famoso ator francês. Tínhamos três grandes nomes, um realizador pouco famoso e aventurámo-nos neste filme de ‘rape revenge’ contado ao contrário.”

Cassel é Marcus, Dupontel é Pierre e Bellucci é Alex. Os três formam uma espécie de triângulo amoroso que protagoniza uma noite traumática na capital francesa e cujos acontecimentos são provocados por uma festa atribulada que culmina na violação chocante de Alex. Até lá chegar, o espectador parte precisamente do controverso desfecho da história, que se vai revelando numa dúzia de longos takes sem quaisquer cortes.

No ano em que chegou aos cinemas, competiu em Cannes pela Palma de Ouro, que acabaria por ganhar. Não sem antes fazer as rondas pela forma como foi recebido no festival. O visionamento, cuidadosamente agendado para uma sessão privada após a meia-noite, provocou um impacto inesperado na audiência. De acordo com a imprensa, cerca de 200 pessoas terão abandonado a sala durante a cena da violação. Os serviços de emergência terão mesmo assistido perto de 20 espectadores. 

O choque terá levado, segundo os meios que cobriam o evento, a que alguns dos membros do comité de seleção ameaçassem com a demissão caso o filme fizesse parte do lote de nomeados ao grande prémio. Por outro lado, o diretor artístico do festival, Thierry Fremaux, terá apostado na posição inversa: demitir-se-ia caso o filme de Noé não pudesse competir.

Com a Palma de Ouro na mão, o filme acabou por atrair milhões de curiosos aos cinemas, à medida que ia viajando pelas salas dos diversos países. Mesmo perante a advertência de muitos críticos. “Este vai ser o filme de 2003 com mais gente a abandonar a sala”, garantiu a “Newsweek”. “É um filme tão violento e cruel que a maioria das pessoas não o vai conseguir ver”, alertou o crítico Roger Ebert, um confesso fã da obra.

“Um penoso exercício de voyeurismo, provocação e pretensiosismo”, exclamaram uns. “Uma obra de arte genuína e fora da lei”, aplaudiram outros. Na plateia de “Irreversível”, não havia um meio termo: ou se amava ou se odiava.

No Reino Unido, a entidade que classifica os filmes teve que recorrer a um expediente inédito: um psicólogo forense foi contratado para avaliar se a produção podia sequer ser exibida nos cinemas. “Se o Reino Unido decidir cortar [cenas do filme], ele não será distribuído. Não consigo perceber como é que conseguem pedir cortes quando Cannes, o mais burguês festival de todos, o exibiu (…) Os filmes americanos são muito mais perigosos do que este, no que toca à promoção da violência, do poder e das armas”, contestou então Noé.

No cerne da questão estava não só a cena de violação, mas a morte violenta de uma personagem, cujo crânio é esmagado com o auxílio de um extintor. Mas foram os nove minutos da agressão sexual que provocaram as maiores discussões.

“O tema do filme era a violação sexual e eu disse que tinha que ser tão poderosa quanto possível para ser repugnante, para ser útil”, confessou o cineasta. “Se colocas uma violação num filme e não a mostras, estás a ocultar todo o propósito dela. Se a retratas de uma forma revoltante, ajudas a evitar que isso aconteça [na realidade]. Como no ‘Laranja Mecânica’ obrigavam o Malcom McDowell a ver imagens de terror para o obrigar a parar de cometer esse tipo de ações. É útil que seja exibido.”

Se a cena foi difícil de ver, foi igualmente complicada de gravar. Foram necessários dois dias para acertar com a versão final. Nesses dois dias, a violação foi repetida por pelo menos seis vezes.

“Os resultados foram ótimos logo no primeiro dia, mas ainda melhores no segundo. Os atores estavam mais à vontade entre eles e conseguiam ir mais além”, conta Noé ao “The Guardian”. “Não sabia se [a cena] iria durar seis, dez ou 12 minutos. Toda a cena estava nas mãos dela [Bellucci], até o tipo que fazia de violador estava às suas ordens. Se ela não quisesse fazer a cena daquela forma, tê-lo-ia dito. Admiro-a imenso por ter escolhido levar a cena tão longe.”

Não é apenas a violência que torna a cena difícil de ver. Noé não opta por qualquer atalho. Assim que o violador liberta a prostituta que agredia e se foca em Alex, a câmara fixa-se na dupla, completamente sozinha num sujo túnel vermelho.

Primeiro, o violador ameaça-a com uma navalha, antes de a atirar ao chão e, enquanto lhe tapa a boca, a vai despindo. A violação acontece em tempo real, sem cortes; prolonga-se até ao limite do desconforto. Pelo meio, o homem tem tempo para inalar poppers, antes de terminar e de libertar Alex, que rasteja como pode.

São nove longos e penosos minutos

Não satisfeito, o violador regressa para a pontapear na cara. Novamente sobre ela, desta vez mais perto da câmara, segura-a pelo cabelo e esmaga-lhe repetidamente a cara no chão.

“Não tinha quaisquer diálogos escritos [da cena]. Não podia descrevê-la. Ela é violada, o homem termina e quando ela tenta fugir, começa a bater-lhe. Foi apenas isso que escrevi [no argumento]. Diria que a cena foi mais realizada pela Monica do que por mim”, esclarece Noé. “Deixei que improvisassem, que escolhessem o timing.”

Bellucci descreve a gravação da cena com um “processo difícil de explicar”, algo “muito íntimo e privado”. “O Vincent perguntou-me se eu queria que ele ficasse no set comigo. Disse-lhe que não”, contou a atriz em entrevista em 2003. “Fizemos seis takes e cada um demorou cerca de 15 a 20 minutos, porque eu tinha que sair da casa, falar com a prostituta, entrar no tunel, testemunhar a luta e depois finalmente a cena de violação.”

Sem quaisquer descrição detalhada no argumento, os momentos foram sendo decididos na hora. “Um dia antes de gravarmos, perguntei à Monica se não havia problema se sugeríssemos que a violação fosse anal ao invés de vaginal”, recorda Noé, antes de revelar um detalhe curioso.

“Estávamos a olhar para as gravações na mesa de edição quando notei que o pénis não estava visível quando ele o tirou, por isso pedi ao tipo dos efeitos especiais se podia fazer um pénis digital. Fizemo-lo na pós-produção e acrescentámos sangue”, conta. “Claro que mostrei tudo à Monica para obtermos a sua aprovação. Está lá, à vista, no filme, e muita gente pensa que fizemos algo realmente explícito. No entanto, toda a gente no filme concordou e disse: ‘Se vamos fazer algo chocante, tem que ser chocante; e será ternurento quando tem que ser ternurento.”

Ainda assim, Noé mostrou-se sempre incomodado com as críticas ao filme. “Ficaram furiosas com o filme, acusam-no de misoginia, mas isso é estúpido, tal como é estúpido acusarem-no de homofobia”, diz. Compreende, ainda assim, quem não consiga aguentar as cenas mais violentas.

“Acho que as pessoas não saem da sala porque estão aborrecidas mas porque não aguentam [as cenas]. Normalmente esses abandonos acontecem à noite, quando nos sentimos mais fracos. Eu próprio já saí durante uma cena de violação, porque surgiu a meio do filme”, nota, questionado sobre a opção de colocar uma cena chocante no arranque de “Irreversível”. 

“Pensei, bem, se isto acontece a meio do filme, não quero ver o que acontece a seguir. Suponho que muita gente suspeite que o fim do meu filme vá ser pior do que o início, porque é assim que o clímax dos filmes funciona. Na verdade, é que se ficassem até ao fim, veriam algo que os ajudaria a apagar essas primeiras imagens.”

Já Bellucci, compara a obra a outras de alto calibre. “Para mim, este filme é como o ‘Laranja Mecânica’ ou o ‘Pi’. É como o ‘Requiem for a Dream’, o ‘Deliverance’ ou os filmes do Pasolini. Todos esses filmes são difíceis de digerir, mas têm significado, um propósito”, nota a atriz. “Esses filmes perturbam-te porque mergulham fundo no nosso interior e obrigam-nos a ver os monstros que existem dentro de nós.”

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