Beatriz Cunha nasceu em Lisboa, mas foi no Porto que algumas das suas memórias mais queridas começaram a ganhar cor. O avô, portuense de coração, foi quem a acompanhou pelas ruas da cidade em tardes de descoberta e encanto. “Quando era pequena, vinha passear férias ao norte e adorava passear com o meu avô pela cidade. Conhecia cada esquina, cada história, e eu acabava por ver o Porto através dos olhos dele”, recorda. Durante estas caminhadas recolheu um repertório de imagens e emoções que, anos depois, dariam forma às suas pinturas.
A jovem artista prepara-se para começar o curso de Pintura, na Faculdade de Belas Artes, na Universidade do Porto. Pintar não é apenas um talento ou passatempo, mas uma necessidade, um espaço onde se encontra e cuida de si. “Sempre desenhei, mas só na adolescência percebi que a arte era mesmo para mim. Pintar tornou-se um refúgio, uma forma de respirar”, conta.
O Porto, com a sua arquitetura, ruas estreitas e luz única, — que lhe recordam o avô — tornou-se uma das suas principais fontes de inspiração. E foi isso que a trouxe da capital ao norte do País, para continuar a sua formação.
A jovem de 19 anos gosta de explorar técnicas variadas: lápis de cor, aguarelas, canetas e, mais recentemente, o vinho do Porto. A ideia surgiu de uma forma quase acidental. Enquanto almoçava com o avô num dos seus restaurantes favoritos da cidade, a Tasca do Manel, uma gota de vinho viria a derramar-se por cima de um guardanapo. “O vinho dá aos meus trabalhos tons quentes, nostálgicos. É perfeito para captar a alma da cidade”, explica. A ligação simbólica ao Porto torna cada obra ainda mais especial, carregando memórias e histórias que só quem conhece a cidade consegue sentir plenamente.
Entre as suas obras mais marcantes está uma pintura da Câmara Municipal do Porto, a Ponte Luís I e a Ribeira, tudo envolto pelos tons quentes do vinho do Porto. “Estas pinturas são muito pessoais. Consegui juntar memórias de infância, passeios com o meu avô, e a sensação de estar em casa”, partilha Beatriz. Cada detalhe, desde os reflexos na água ao aroma imaginário do vinho, é pensado para que o observador sinta a cidade quase como se estivesse lá.

O percurso da jovem lisboeta não se limita às pinceladas. A presença nas redes sociais, sobretudo no TikTok, tem sido fundamental para divulgar o seu trabalho. “No início era só curiosidade, mas percebi que é uma forma rápida e acessível de dar a conhecer a minha arte. É incrível receber mensagens de pessoas que se sentem inspiradas ou tocadas pelo que faço”, diz. A interação com o público trouxe confiança e motivação para explorar novos temas e técnicas.
A história de Beatriz Cunha também é marcada por desafios pessoais. Aos 18 anos, decidiu estudar em Inglaterra, mas enfrentou dificuldades com o visto e acabou por regressar a Portugal. “Voltar foi um alívio, sentia que podia respirar melhor, e as ruas pareciam mais coloridas do que nunca”, recorda. A incerteza e ansiedade transformaram-se em combustível criativo: a pintura tornou-se uma forma de lidar com emoções e construir uma nova fase da sua vida. A primeira obra após esse período menos positivo foi a pintura da Sé de Lisboa, que abriu caminho para uma coleção dedicada a lugares históricos portugueses.
Além da pintura, também se aventura na criação de adereços cénicos e figurinos, fruto do seu curso em realização plástica do espetáculo. “Gosto de cruzar linguagens artísticas. No futuro, quero explorar mais essa vertente e integrar diferentes formas de expressão no meu trabalho”, revela.
O seu trabalho já atraiu encomendas de retratos e peças personalizadas, com preços que variam entre os 50€ e os 120€, dependendo do tamanho, técnica e detalhe. Porém, o que mais entusiasma Beatriz são os desafios: peças maiores, experimentar novos materiais e explorar técnicas inovadoras. Cada encomenda é também uma forma de partilhar histórias e memórias com quem valoriza a arte de forma íntima e pessoal.
@beatrizcunhart Um desenho feito com vinho do Porto🤭 #artelocal #arte #porto #oporto ♬ Misty – Lesley Gore
Os planos da jovem artista para o futuro são ambiciosos. A curto prazo, quer abrir a sua loja online e continuar a explorar técnicas diferentes. A longo prazo, sonha com um estúdio próprio aberto ao público, exposições em várias cidades e, quem sabe, a ilustração de um livro. Acima de tudo, quer continuar a transformar memórias e emoções em cores, tocando quem observa as suas obras.
Para quem tem vontade, mas pensa que não sabe desenhar ou criar, Beatriz deixa uma mensagem: “Não precisa de ser bom ou perfeito. Pintar, escrever ou dançar podem ser formas de cuidado pessoal, de manter a saúde mental. O importante é experimentar, descobrir e divertir-se.”
Carregue na galeria para conhecer alguns dos trabalhos da artista.







