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A filha de Passos Coelho e Fátima Padinha que é cantora de ópera

Catarina Padinha queria cantar desde pequena, mas só começou a ter aulas há seis anos. Agora faz espetáculos regulares.
Catarina Padinha tem 29 anos.

Para Catarina Padinha, nascida em 1993, a música sempre foi um habitat natural. Afinal, cresceu a ouvir os pais a cantarem em casa. A mãe, Fátima Padinha, foi uma das Doce. O pai, Pedro Passos Coelho, além de ter sido o primeiro-ministro português, cantava ópera e fado.

“Desde pequenina que dizia à minha mãe que queria ser cantora e ela sempre me encorajou, mas ficava preocupada com o meu futuro e queria que eu completasse os estudos”, explica à NiT Catarina Padinha, hoje com 29 anos. “A minha mãe, tendo tido a carreira que teve, preocupava-se um bocadinho com a minha escolha. E dizia: ‘ai, filha, escolhe outra coisa. Em Portugal não há futuro para cantores, não nos dão valor’.”

Ao longo dos anos não desenvolveu nada neste sentido, mas o desejo de cantar permaneceu. Ainda assim, quando escolheu a altura de selecionar a licenciatura, enveredou pela área das artes. Fez o curso de Conservação e Restauro na Faculdade de Belas-Artes.

“Lembro-me que, na altura, em 2015, houve um dia em que me virei para a minha mãe e disse: queria tanto aprender e ter aulas de canto, sobretudo de ópera. Ela lembrou-se de um amigo que dava aulas de canto e foi assim que comecei.”

Catarina Padinha começou a ter aulas com João Eduardo Costa Campos para aprender canto lírico. “O meu pai teve a maior influência no meu gosto pela ópera. É claro que a minha mãe também gosta muito e nos ia mostrando músicas. Mas o meu pai… Ele próprio usufruiu de aulas de ópera quando era novo. Então ouvia-o cantar e era fascinante para mim a forma como ele conseguia produzir aquele som com tanta pujança, com tanto alcance, sem microfone. Sempre quis aprender a fazer a mesma coisa, a cantar daquela maneira. Imaginava o que era preciso e tive a sorte de conhecer o meu professor. Mantive sempre o sonho. Quando a oportunidade surgiu, agarrei-a.”

Quando era miúda, chegou a pedir ao pai que lhe ensinasse a cantar assim. “Mas ele dizia: não sei ensinar. Pronto, morreu aí [risos]. Mas ouvia quando era pequenina, com muito gosto, e pedia sempre ao meu pai para cantar. Adorava ouvi-lo.”

Ainda assim, assume, a mãe é que a acompanha mais na área da música. “Está sempre a ensinar-me e a dar sugestões valiosas. Está sempre presente (também moro mais perto dela), chegou a acompanhar-me nas aulas de canto e vê muitas vezes os meus espetáculos. Está sempre a dizer-me o que pensa, a dar-me opiniões, ajuda-me com tudo — desde a minha presença em palco até à escolha dos vestidos, a maquilhagem, o cabelo.”

Catarina Padinha nunca chegou a trabalhar no setor da Conservação e Restauro. “Nessa área parece-me que ainda é mais difícil arranjar emprego [risos]. Porque há muitos licenciados. Só a licenciatura não traz habilitações suficientes, teria que ter continuado a estudar, a tirar um mestrado, e só assim é que provavelmente conseguiria arranjar emprego.”

Mas acrescenta: “Sempre tive muito interesse pelas artes e gostei do curso porque tinha um bocadinho de tudo. Era muito direcionado não só para o lado da arte, mas tinha a conservação e restauro, história, física e química, teoria de arte, crítica de arte, museologia e museografia: aprendi uma série de coisas e foi muito interessante. Apesar de não estar a trabalhar nessa área, não me arrependo nada de ter tirado o curso. Tinha intenções de trabalhar no setor, mas como surgiu a oportunidade de ter aulas de canto, a partir daí foi só isso que fiz. Acabei o curso, porque já tinha começado e era tempo e dinheiro investido, mas a partir daí dediquei-me ao canto e é isso que quero seguir”.

Atualmente trabalha numa empresa de call-center e, além disso, faz espetáculos regulares com outros dois alunos do professor Costa Campos. Juntos formam o grupo Herança Cultural Costa Campos, que faz performances de canto lírico todos os sábados no Hotel Vila Galé Ópera, na zona de Alcântara, em Lisboa.

Catarina Padinha foi com a mãe ao programa de Júlio Isidro.

Recentemente, a 20 de dezembro, fez um espetáculo diferente e especial. Foi a convidada de destaque de Fernando Tordo para um concerto no Teatro Maria Matos, em Lisboa, onde se celebravam as canções que Tordo compôs com Ary dos Santos. Também atuou no mesmo espetáculo em Sintra, no Centro Cultural Olga Cadaval. Fernando Tordo conheceu Catarina Padinha através de um amigo comum, o fotógrafo Abel Dias.

“Ele é que falou de mim ao Fernando Tordo, porque o Fernando estava a comentar que estava à procura de uma cantora lírica. E o Abel lembrou-se de mim e apresentou-nos. O Fernando gostou da minha prestação e convidou-me para trabalhar com ele.”

Sobre o concerto, diz que foi “muito diferente”, mas “divertido”, até porque foi a primeira vez que interpretou música fora do contexto de ópera.

“O canto lírico passa muito pela técnica. É claro que a técnica está sempre presente — até quando se canta música ligeira. Foi interessante porque é completamente diferente e tive de procurar conjugar a técnica com a busca por essa emoção. Para mim foi divertido cantar em português, para começar. Porque estou acostumada a cantar sobretudo em italiano e em francês — ou, ocasionalmente, em inglês. Em português nunca tinha cantado e foi fantástico, gostei muito.”

E acrescenta ainda: “O meu objetivo máximo é exatamente construir uma carreira. Talvez um dia ir para o estrangeiro, quem sabe, dependendo das oportunidade que surgirem. Acho que teria muito gosto, um dia, em ser capaz de ser professora de canto. Mas este é sem dúvida o mundo que me fascina e onde quero estar.”

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