Às 15h30, quando os portões do Primavera Sound Porto se abriram, Samuel Andrade não perdeu tempo. Correu e deixou para trás dezenas de pessoas que tinham o mesmo objetivo que ele. Atravessou o recinto e só parou quando chegou à grade do palco principal. Havia que garantir os melhores lugares possíveis para si e para a namorada, Camila Rodrigues, a cerca de seis horas do arranque do esperado espetáculo dos Gorillaz. O que para muitos poderia ser uma loucura, para este casal de 18 anos a espera faz parte da experiência.
A história começou ainda antes da abertura das portas. Os dois jovens, naturais do Porto, chegaram ao Parque da Cidade por volta das 10 horas. Trouxeram comida, água e tudo o que consideraram necessário para enfrentar um dos dias mais quentes do festival. Com temperaturas a rondar os 30 graus, a missão é resistir até às 23h10, hora marcada para o concerto dos Gorillaz. “Tinha de guardar lugar para mim e para a minha namorada”, explicou Samuel poucos minutos depois da corrida que o colocou na primeira fila do palco principal.
Os dois estão prestes a terminar o secundário e conhecem-se desde miúdos. Namorados? Só há nove meses, e embora a relação seja recente. A paixão pelos Gorillaz, essa já existe há mais tempo, pelo menos há três anos. Curiosamente, a ligação de ambos à banda surgiu através dos pais. É que feitas as contas, os dois nasceram, já a banda de Damon Albarn tinha dois disco editados.
“No meu caso foi o meu pai. Mostrava-me os videoclipes e as músicas quando era mais novo”, conta Samuel. Camila teve uma experiência semelhante graças à mãe. A banda criada por Albarn e Jamie Hewlett sempre esteve presente em casa e acabou por passar de geração em geração. Foi também essa paixão em comum que ajudou a fortalecer a relação. Quando começaram a namorar, já partilhavam o gosto pelo grupo britânico e rapidamente perceberam que tinham encontrado mais um ponto de ligação.
A ida ao Primavera Sound esteve, no entanto, perto de não acontecer da forma que tinham imaginado. Inicialmente, Camila deveria vir acompanhada pela mãe, que também é fã da banda. Por motivos profissionais, acabou por não conseguir comparecer. Samuel, por sua vez, nem sequer tinha conseguido comprar bilhete quando estes esgotaram. A solução apareceu quase à última hora. “Eu só descobri ontem que vinha”, revelou o jovem.

Apesar dos imprevistos, os dois acabaram por chegar ao recinto juntos. Desde então, contam as horas até ao momento em que as luzes do palco se apagam e os primeiros acordes se fazem ouvir. O casal ainda estava ofegante depois de garantir um lugar em frente ao palco.
A expectativa não é difícil de compreender. Os Gorillaz são uma das bandas mais influentes das últimas duas décadas. O projeto nasceu em 1998 pelas mãos de Damon Albarn, vocalista dos Blur, e do ilustrador Jamie Hewlett. Tornou-se conhecida por misturar rock, hip hop, eletrónica e pop através de uma banda virtual composta por personagens animadas como 2-D, Murdoc Niccals, Noodle e Russel Hobbs.
Ao longo de quase duas décadas, lançaram álbuns como “Demon Days”, “Plastic Beach”, “Humanz”, “Song Machine” e “Cracker Island”, e fizeram milhões de fãs em todo o mundo. Canções como “Feel Good Inc.”, “Clint Eastwood”, “On Melancholy Hill” ou “Dirty Harry” continuam a fazer parte da banda sonora de várias gerações.
Para Samuel, os Gorillaz estão associados a uma fase particularmente importante da sua vida. Há cerca de três anos, numa altura em que os ouvia constantemente, as músicas tornaram-se uma presença habitual nos seus dias. “É parte de mim agora”, resumiu.
Da mesma forma, a canção mais aguardada da noite para o casal é “On Melancholy Hill”, um dos maiores êxitos da banda britânica e precisamente a música que Samuel dedicou à namorada, pois tem sido a canção do grupo que mais os acompanha desde o início do namoro.
Talvez por isso a ansiedade seja tão grande. Esta será a primeira vez que o casal vê os Gorillaz ao vivo. E também a primeira grande memória musical que constrói em conjunto. Quando questionado sobre o que espera recordar daqui a vários anos, Samuel não tem uma resposta elaborada. Nem precisa. Basta olhar para Camila. “Ela vai chorar”, diz, entre risos. A namorada não desmente.
Enquanto o relógio continua a avançar lentamente e o sol insiste em castigar quem está junto à grade, os dois mantêm-se no mesmo lugar. Já acabaram a comida. A água também começa a escassear. Agora resta esperar. Pode parecer uma loucura passar mais de 12 horas à espera de um concerto. Samuel concorda. “É uma loucura. Mas quando os Gorillaz finalmente subirem ao palco principal do Primavera Sound Porto, acreditámos que tudo fará sentido.”








