Quem entra na capela da Casa de Serralves depara-se, primeiro, com a imagem de uma aparente criança ajoelhada, de costas, a rezar em silêncio. O corpo parece frágil, quase infantil. Só à medida que o visitante se aproxima é que o impacto se dá, ao percebermos que a criança é, afinal, Adolf Hitler. A revelação é desconcertante e é precisamente esse o ponto central de “Him” (2001), a instalação de Maurizio Cattelan que se tornou viral nos últimos dias. Isto apesar de a exibição estar perto do final, já que “Sussurro” estará apenas patente na Casa de Serralves até este domingo, 18 de janeiro.
Fotografias e vídeos da peça multiplicaram-se nas redes sociais, acompanhados por centenas de comentários. As reações dividem-se. Há quem acuse a obra de banalizar o mal ou desrespeitar símbolos religiosos. Outros interpretam-na como um confronto necessário com a história e a moralidade.
“Him” mostra Adolf Hitler ajoelhado em oração. A obra explora o contraste entre a postura associada à humildade e a identidade do homem responsável por milhões de mortes. O efeito é deliberado e depende do choque do reconhecimento do rosto, que transforma a cena num confronto imediato, ético e visual.
A escultura faz parte de “Sussurro”, uma retrospetiva com 26 obras de Maurizio Cattelan, produzida pela Fundação de Serralves e com curadoria de Philippe Vergne. A exposição foi concebida para a Casa de Serralves e para o Parque, com trabalhos que abordam temas recorrentes na obra do artista como a história, o fascismo, a religião, o poder, a morte e a culpa.
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Cattelan tornou-se mundialmente conhecido em 2019 com “Comedian”, a banana colada à parede com fita-cola que se transformou num fenómeno mediático e foi vendida por mais de seis milhões de euros. A peça também está presente nesta exposição, mas não é a que mais impacto está a causar. Esse lugar pertence agora a “Him”, que, mais de vinte anos após a sua criação, continua a provocar debate e desconforto.
Ao longo da exposição surgem outras obras emblemáticas. “La Nona Ora” (1999) representa o Papa João Paulo II atingido por um meteorito. “Novecento” (1997) mostra um cavalo suspenso, vencido pelo peso da história. No parque, destaca-se “L.O.V.E.”, o dedo do meio erguido de forma visível no espaço público. Há ainda uma Capela Sistina em miniatura, pombos silenciosos espalhados pela casa e figuras que oscilam entre o grotesco e o familiar.
Estas e outras peças que integram a exposição podem ser vistas até este domingo, 18 de janeiro. O bilhete geral custa 24€ e dá acesso a todos os espaços da fundação: museu, parque, Casa de Serralves, Casa do Cinema Manoel de Oliveira e o Treetop Walk. Pode ser adquirido online ou na bilheteira local.

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