Durante mais de uma década, Mariana Correia trabalhou a recuperar peças partidas. Restaurava objetos antigos, corrigia falhas e devolvia vida ao que parecia perdido. Hoje, continua ligada à cerâmica, mas de outra forma: em vez de restaurar o passado, criou um espaço onde outras pessoas podem começar do zero, experimentar, falhar, aprender e criar com as próprias mãos.
Aos 37 anos, a portuense abriu em soft opening, a 5 de janeiro a Argila Cativa, um novo atelier criativo dedicado à cerâmica no Porto. O projeto nasceu depois de vários anos ligados à conservação e restauro, área em que se licenciou, e de uma passagem por Londres antes de regressar à cidade natal, em 2023. Mais tarde começou a trabalhar numa loja de cerâmica no Porto e percebeu que queria construir algo mais próximo das pessoas.
“Em Portugal é uma profissão pouco valorizada e sentia que era um trabalho muito solitário. Eu sou uma pessoa que gosta de comunicar, de estar em contacto com pessoas e de atender clientes”, conta Mariana.
A ideia começou a ganhar forma numa fase particularmente intensa da sua vida, pouco tempo depois de se tornar mãe. “Quando regressei ao trabalho, comecei a sentir necessidade de criar algo meu, um espaço que refletisse mais a minha visão e aquilo que eu sentia que ainda faltava no Porto”, explica à New in Porto.
Apesar de existirem vários ateliers ligados à cerâmica na cidade, Mariana percebeu que havia uma falha específica no mercado: a pouca oferta especializada em vidrados e engobes, materiais usados para dar cor, textura e acabamento às peças. Foi precisamente aí que decidiu diferenciar a Argila Cativa.
A artista decidiu apostar em cores mais vibrantes e menos convencionais. Rosas, vermelhos, amarelos, azuis e verdes ocupam agora as prateleiras do espaço, contrastando com os tons mais neutros normalmente associados à cerâmica tradicional.

O atelier vai muito além de uma loja ou de um espaço de workshops. A Argila Cativa junta várias valências no mesmo local: venda de materiais cerâmicos, forno para cozedura de peças, atelier livre, workshops criativos e ainda uma área dedicada à ilustração. A ideia passa por criar um ponto de encontro entre diferentes linguagens artísticas.
O serviço de forno, com preços a partir de 15€, é um dos mais populares desde a abertura. Existem reservas completas para ceramistas profissionais, mas também queimas coletivas para quem produz apenas uma ou duas peças de cada vez. Já o atelier livre funciona através de packs mensais de 12 horas, desde 30€, permitindo aos utilizadores trabalhar no espaço, utilizar ferramentas e deixar materiais em produção.
“Uma das minhas maiores preocupações foi criar um espaço acessível, porque acredito que as pessoas não devem deixar de criar ou investir naquilo que gostam por causa do preço”, sublinha.
Os workshops com preços entre 35€ e 45€, por outro lado, seguem uma lógica mais descontraída e menos técnica. O objetivo não é formar profissionais, mas oferecer experiências criativas e momentos de pausa. Há oficinas de iniciação à cerâmica, pintura de azulejos, restauro de peças e até sessões especiais para crianças. Uma delas acontece já a 30 de maio, a propósito do Dia Mundial da Criança, e desafia os mais pequenos a criarem peças personalizadas em barro.
“Vivemos numa era muito digital e acelerada. As pessoas sentem cada vez mais necessidade de desacelerar, criar com as mãos e viver processos mais humanos e sensoriais”, acredita Mariana.
Essa procura crescente por atividades manuais também se reflete no público que tem passado pelo espaço. Há artistas profissionais, curiosos que nunca tinham tocado em barro, famílias, aniversários e grupos privados. Mariana gosta dessa mistura.
“A cerâmica consegue aproximar pessoas muito diferentes e criar momentos de partilha bastante especiais”, diz.
Visualmente, a Argila Cativa foi pensada para transmitir tranquilidade. O espaço combina madeira clara, plantas e tons naturais, numa estética minimalista onde o barro continua a ser o protagonista. A iluminação quente e as prateleiras cheias de peças coloridas ajudam a criar um ambiente mais próximo de um estúdio criativo do que de uma loja tradicional.
O próprio nome resume bem a ideia do projeto. “Acredito que quem começa a trabalhar com barro acaba, de certa forma, por ficar cativo desse universo”, explica Mariana. “Existe um lado muito terapêutico, mas também muito desafiante e criativo.”
As inscrições para workshops e utilização do espaço podem ser feitas através das redes sociais do projeto ou do email argilacativa@nullgmail.com.
Carregue na galeria para conhecer o novo espaço criativo do Porto.







