Dez minutos depois da hora marcada, as luzes apagaram-se na Super Bock Arena e, durante alguns segundos, a única coisa que se ouviu foram os gritos do público a chamar por Caetano Veloso. À medida que os músicos da banda começaram a ocupar os seus lugares em palco, a expetativa aumentava dentro da sala esgotada. Chegaram os primeiros acordes de “Branquinha” e, pouco depois, o próprio Caetano, de braços abertos, sorriso no rosto e um gesto que parecia quase um abraço coletivo dirigido ao Porto.
Aos 84 anos, o músico brasileiro continua a atuar com a leveza de quem ainda encontra prazer em cada aplauso. Foi exatamente isso que aconteceu esta quarta-feira, 27 de maio, na primeira passagem da nova digressão “Caetano nos Festivais” por Portugal. O concerto na Super Bock Arena antecede a atuação marcada para o Coala Festival, marcada para este sábado, em Cascais, mas foi no Porto que o artista voltou a demonstrar porque continua a ser uma das figuras maiores da música em língua portuguesa.
O palco encheu-se de tons azuis e brancos durante a primeira música, enquanto os ecrãs projetavam imagens do artista em palco misturadas com fotografias suas a preto e branco de diferentes fases da vida e da carreira. No final, fez uma vénia ao público, já rendido.
A energia aumentou logo de seguida com “Gente”. Entre jogos de luzes vermelhas e laranja, o público do golden circle e da plateia levantou-se para dançar. O próprio Caetano acompanhava o ritmo com pequenos passos enquanto cantava, alimentando-se claramente da reação da sala. Depois vieram “Vaca Profana” e “Divino Maravilhoso”, transformada num verdadeiro hino coletivo dentro da arena, acompanhada por efeitos visuais coloridos que evocavam festa, cultura popular brasileira e psicadelismo tropicalista.
Ao longo da noite, o músico alternou momentos de celebração com instantes mais íntimos. Em “Cajuína”, deixou mesmo o público cantar sozinho durante parte do refrão. Ficou em silêncio, de braços erguidos, enquanto milhares de pessoas assumiam a canção. No final, visivelmente emocionado, agradeceu várias vezes: “Que beleza. Que beleza estar em Portugal, no Porto”.
Seguiram-se temas como “Podres Poderes”, “Anjos Tronchos” e “Eclipse Oculto”, sempre acompanhados por um jogo de luzes intenso e uma banda que acompanhava o entusiasmo do artista. Em vários momentos, Caetano parecia esquecer completamente a idade, dançando em palco e sorrindo perante cada nova ovação.

Um dos momentos mais marcantes da noite chegou com “Sozinho”. Em pé, com guitarra na mão, acompanhado apenas por alguns elementos instrumentais da banda, o músico criou um ambiente quase suspenso dentro da Super Bock Arena. Apesar da multidão, a sensação era precisamente a contrária: a de que existiam apenas ele e a canção. O público cantou do início ao fim e, entre versos, ouviam-se gritos de “Te amo” e “Caetano”.
No final, a ovação prolongou-se durante quase um minuto. Foi então que o artista decidiu interromper o alinhamento para falar diretamente com o público português e recordar a sua ligação antiga ao fado.
“Eu vou fazer 84 anos, mas quando eu tinha 10, 11, 12 anos, eu aprendia fados e tentava cantá-los com sotaque lusitano na minha cidadezinha, em Santo Amaro da Purificação”, contou. “Não sei, nesse mundo louco, nessa minha idade, quando poderei voltar a Portugal, então quero cantar o primeiro Fado que aprendi.”
Seguiu-se “A Rosinha dos Limões”. A arena estava em silêncio absoluto, como se tentasse guardar aquele momento. Caetano recordou ainda Ester de Abreu, cantora portuguesa que ouviu no Brasil durante a infância, e explicou que era “o único menino” da sua cidade que sabia cantar aqueles género musical.
A reação do público no final fez literalmente tremer a sala. Comovido, o músico abraçou-se a si próprio enquanto agradecia. Pouco depois, voltava a dançar ao som de novos acordes, retomando o ambiente de festa com temas como “Muito Romântico”, “Alegria, Alegria” e “Queixa”.
Caetano Veloso já passou inúmeras vezes por Portugal ao longo das últimas décadas e mantém uma relação particularmente próxima com o público português. Em 2023, durante a digressão “Meu Coco”, chegou mesmo a admitir que poderia estar numa das suas últimas grandes passagens pelo País. Ainda assim, voltou agora à estrada com “Caetano nos Festivais”, mostrando-se mais vivo do que nunca em palco.
Entre luzes psicadélicas, clássicos intemporais e memórias partilhadas entre Brasil e Portugal, o concerto desta quarta-feira foi muito mais do que um alinhamento de canções. Foi uma celebração de uma carreira que atravessa gerações e continua a emocionar como poucas.
Espreite de seguida o setlist completo da passagem do Caetano Veloso pelo Porto.
— “Branquinha”
— “Gente”
— “Vaca Profana”
— “Divino Maravilhoso”
— “Cajuína”
— “Podres Poderes”
— “Anjos Tronchos”
— “Eclipse Oculto”
— “Sozinho”
— “A Rosinha dos Limões”
— “Um Baiana”
— “Muito Romântico”
— “Alegria, Alegria”
— “Não Enche”
— “Queixa”
— “Um Índio”
— “Fora da Ordem”
— “Desde que o Samba é Samba”
— “Reconvexo”
— “É hoje”
Encore
— “Odara”.
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