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Casa cheia ouviu em êxtase 10 anos de canções de Miguel Araújo no Porto

O músico foi ovacionado pelo público da Super Bock Arena, este sábado, e ainda levou convidados. A NiP esteve nos bastidores.
Fotografias de Daniel Lewis.

A tarde de sábado, 21 de maio, parecia decorrer como habitualmente nos Jardins do Palácio de Cristal. Famílias em passeio, miúdos a saltitar de um lado para o outro, casais a caminhar de mãos dadas entre as flores e turistas encantados a fotografar os pavões. Tudo isto seria normal, não fosse a banda sonora de fundo incluir sons como “Pica do 7” interpretados por uma banda filarmónica. Não estranhe, tudo faz parte do espetáculo.

Para os mais desatentos, este era o dia que marcava a subida de Miguel Araújo ao palco da Super Bock Arena para dois dias de concertos esgotados que, curiosamente, coincidem com a passagem dos dez anos desde que o artista se lançou a solo. Quem já soubesse do espetáculo marcado para o final da tarde, podia mais facilmente entender a razão de haver ali uma festa montada, com direito a farturas, pipocas e placas com indicações tão diversas como “Liverpool”, “Bom Jesus” ou “Sangemil”.

Se lá fora o ambiente era o de um tranquilo sábado, dentro do pavilhão o cenário era um pouco diferente. A New in Porto esteve nos bastidores e conta-lhe tudo aquilo a que o público não teve acesso.

Eram 16h44 e na sala já ecoavam os acordes de “O Prometido é Devido”. Em palco, Miguel Araújo e Rui Veloso — convidado dessa noite — ensaiavam a conhecida música, enquanto afinavam as guitarras e os últimos detalhes para que a noite fosse memorável. Do lado da plateia, que mais tarde estaria repleta de fãs, estavam os Kapas — também convidados para o concerto—, que assistiam a tudo com atenção.

De calções e T-shirt, Miguel Araújo mostrava-se sereno e concentrado na música, enquanto pela sala passavam técnicos focados nas suas missões, eram ajustadas luzes e todos os pormenores necessários para fazer a festa mais logo. Entre uma canção e outra, o músico troca de guitarra, o que vale os elogios de Rui Veloso, que recorda ter tido uma semelhante.

Os ensaios.

O cenário do palco é composto por um conjunto de panos coloridos com diferentes padrões e tamanhos, rematados por fios de luzes que vão acendendo alternadamente, de acordo com a música. Cor não falta e a junção das luzes com o cenário e, claro, a música, são receita garantida para o sucesso da noite.

“Queres água, Miguel?”, pergunta ao músico um dos membros da equipa. Parece uma questão simples, mas é neste detalhe que se vê o cuidado de todo o staff, até porque neste ponto já o artista está absorvido num solo quase improvisado de guitarra, sob o olhar atento de Rui Veloso e de todos os presentes. O feito arrancou uma salva de palmas da pequena plateia acompanhado de um grito: “Fantástico”.

Ainda há tempo para ensaiar novamente as músicas da entrada com a banda, fazer os últimos ajustes e até treinar uma passagem de percussão que envolve uma coreografia mais corporal. Sim, dá até para um ligeiro abanar de anca e uma pequena dancinha.

Falta pouco mais de uma hora e meia para o início do concerto quando o músico deixa o palco, mas não se pense que isso significa recolhimento ou um ritual muito específico. “O meu descanso é a conversar com as pessoas”, diz Miguel Araújo à New in Porto, confidenciando que hoje em dia já não se sente tão nervoso antes dos concertos.

Numa breve conversa, explica que o concerto desta noite “é um equilíbrio entre uma celebração de dez anos de música com o lançamento de um disco novo [“Chá Lá Lá”]”. Mais do que assinalar este marco na carreira, os dois concertos na Super Bock Arena servem para se aproximar do público da cidade e representam uma responsabilidade extra porque na plateia estão sempre mais caras conhecidas, familiares e amigos que não querem perder a oportunidade.

“É incrível, é a maior sala da cidade do Porto e ter duas noites completamente esgotadas é sinal que o público ainda anda aí para me ver e isso é muito bom. Acho que nunca vendi tantos bilhetes para um concerto meu como desta vez”, confessa.

Em jeito de balanço da última década, recorda como tudo começou “de uma maneira um bocado relutante” e como planeava apresentar-se “sozinho em palco, com uma voz e uma guitarra, em salas muito pequenas”. A música “Os Maridos das Outras” acabou por trocar-lhe as voltas e ser um sucesso que o catapultou para festivais e concertos em salas grandes esgotadas.

“Tenho andado de tal forma com a mão na massa que nem dei pelo tempo passar”, reflete.

Em relação ao último álbum, “Chá Lá Lá”, garante que marca a diferença para os anteriores, não tendo, ao contrário desses, um fio condutor que liga todas as canções: “É uma coleção de músicas que fui deixando de parte dos outros discos porque eram músicas demasiado festivas e alegres para os meus discos anteriores, que eram um bocadinho mais macambúzios e cinzentões”.

O próximo passo será um álbum que tem praticamente finalizado mas do qual não será o intérprete. Enquanto isso, a conversa vai fluindo, mas Miguel não consegue ficar longe da guitarra por muito tempo e escuda a sua timidez natural na sua companheira, da qual tira um improviso simples que lhe sai dos dedos como uma natural respiração.

De regresso aos bastidores, passam cinco minutos das 18 horas, o que significa que falta menos de uma hora para o início do espetáculo, mas Miguel mantém a calma e vai distribuindo sorrisos e uma simpatia genuína por todos aqueles com quem se cruza pelos corredores do pavilhão. Enquanto descontrai numa voltinha de bicicleta junto à porta dos artistas, António Zambujo e os Kapas conversam alegremente. Além deles e de Rui Veloso, também Cláudia Pascoal e César Mourão fazem parte da lista de convidados que se juntarão à festa nestes dois concertos.

Pelas 18h16, Miguel Araújo vai até à sala de maquilhagem para se preparar para o espetáculo, mas não consegue evitar trautear nem sentado nesta cadeira. Seis minutos depois está pronto e cruza-se na porta com António Zambujo, com quem troca palavras animadamente.

Quando falta pouco menos de meia hora para subir ao palco, já trocou a T-shirt por uma camisa e os calções por umas calças, juntando-se aos vários grupos que conversam descontraídamente junto à porta da entrada dos artistas, alheios aos olhares curiosos de quem por ali passeia nos Jardins do Palácio de Cristal.

A dez minutos do início previsto do concerto o frenesim nos bastidores vai aumentando, com vários membros da equipa a circularem de um lado para o outro, ocupados de que tudo esteja pronto. Do lado de fora, a banda filarmónica vai animando o público numa espécie de arruada encenada para chamar a atenção de todos aqueles que passeiam pelo recinto. Se ainda vai ao concerto desta noite, 22 de maio, e não quer deixar de surpreender-se, é neste momento que deve parar de ler, porque o espetáculo está prestes a começar.

Às 19 horas em ponto Miguel Araújo sobe as escadas que dão acesso à sala e já se ouve o murmúrio do público, que se vai acomodando nos lugares e espera pacientemente. O início definitivo vai tardar ainda uns minutos para que todos estejam preparados — público e artistas —, mas enquanto esperam os músicos vão trocando algumas impressões, sempre num ambiente leve e descontraído, com piadas à mistura e um ligeiro aquecimento vocal também com traços de humor.

As luzes apagam-se às 19h11 e o público vibra de emoção com o conhecimento de que agora sim, a festa vai começar. Os músicos sobem ao palco sob um aplauso fervoroso, afinam uma última vez, deixam no ar uns segundos de uma atmosfera de suspense e arrancam com “Chama por Mim”. Segue-se uma ovação à qual se junta, desde os bastidores, António Zambujo.

Passam-se quatro canções e o ambiente não esmorece. Pelo contrário, o público aplaude, junta-se em coro e mesmo atrás das cortinas a equipa e os convidados aproveitam para bater palmas e até abanar a anca ao som da música. Miguel Araújo agradece aos fãs por continuarem a acompanhá-lo, recebendo como resposta um audível coro que grita “Miguel, Miguel”.

Nos bastidores, Rui Veloso circula com uma pequena câmara de filmar na mão onde regista alguns dos melhores momentos, ao mesmo tempo em que Cláudia Pascoal sobe ao palco como primeira convidada da noite, recebendo um forte aplauso do público. Pelas 19h51 é hora de César Mourão subir ao palco, com o público a gritar o seu nome e a aplaudir.

Um dos grandes aplausos da noite estava reservado para António Zambujo, que cantou duas músicas com Miguel Araújo, já sem banda, numa espécie de recriação das 28 noites em que atuaram ao vivo nos coliseus do Porto e de Lisboa. As luzes baixam ainda mais, a luminosidade exterior que se filtra por pequenas frestas nos óculos da cúpula do pavilhão forma uma espécie de céu estrelado e o público responde com as lanternas dos telemóveis.

A este ambiente unem-se ainda as vozes de milhares de pessoas num murmúrio afinado que termina com uma grande ovação e o público a gritar os nomes dos dois músicos. Miguel aproveita para agradecer ainda ao amigo, que veio diretamente dos Açores, onde deu um concerto na noite anterior. “Faço tudo para estar à tua beira”, responde graciosamente Zambujo.

A frenética ovação com que o público brindou a dupla rivaliza apenas com aquela que estaria destinada a Rui Veloso. Os dois artistas da cidade cantam “O Prometido é Devido” acompanhados pelo público. “Esta música é nova, não sei se pega”, brinca César Mourão nos bastidores. Do outro lado do pano o público continua em delírio quando os dois músicos juntam um solo de guitarras às músicas do repertório.

Os últimos convidados a entrar em palco são os Kapas, banda amadora formada pelos tios de Miguel e com os quais deu os primeiros passos na música. Uma versão de “Like a Rolling Stone”, de Bob Dylan, foi a escolhida para animar a noite e deixar o público em delírio.

O espetáculo segue com Miguel Araújo e a banda, numa sequência animada que não deixa o público sentado nas cadeiras durante muito tempo. Há quem cante, dance, salte e vibre com a música conforme pode, junto aos seus lugares. No final, o artista aproveita para pegar num copo, fazer um brinde ao público e apresentar os elementos da banda que o acompanha.

Depois de mais alguns segundos de música, Miguel Araújo sai, seguido pela banda. Mas não durante muito tempo. O público continua sozinho a cantar o resto da música e o artista regressa depois para cantar o sucesso “Os Maridos das Outras”, que impulsionou esta aventura a solo. “Esta é a música que mudou a minha vida”, diz. A meio da música já nem precisa de cantar porque o público conhece de cor toda a letra e forma um coro envolvente, o que cá atrás deixa António Zambujo com um olhar fascinado.

Miguel não sai do palco sem mais um solo de guitarra, mas regressa depois para o encore, com o público a pedir “só mais uma” enquanto assobia e faz ecoar os pés contra o solo. O espetáculo termina com todos juntos em palco — o músico, a banda e os convidados — sob uma apoteótica ovação do público portuense ao artista que é considerado por muitos como um dos melhores da sua geração.

Depois de cerca de duas horas de espetáculo, Miguel Araújo mantém a simpatia e a alegria no olhar, fazendo questão de esperar ao fundo das escadas que dão acesso aos camarins para cumprimentar todos. Não há cansaço nem adrenalina que o vençam porque agora é hora de agradecer a todos que estiveram com ele nesta festa e sobretudo nos últimos dez anos.

Com um concerto em casa, a fila de familiares a quererem dar-lhe os parabéns é longa, mas há tempo e sorrisos que cheguem para todos. A festa segue dentro de momentos, na segunda noite esgotada de concertos.

Carregue na galeria para descobrir mais detalhes sobre o espetáculo de Miguel Araújo no Porto.

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