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Cauã Reymond: “Quero muito conhecer Trás-os-Montes e a cidade do Porto”

O famoso ator brasileiro protagoniza uma novela e uma série que chegam em breve ao nosso País. E esteve cá a fazer um filme.
O ator tem 41 anos.

Estreou-se há 20 anos, em 2002, na icónica novela juvenil “Malhação”. Depois, tornou-se um dos rostos mais conhecidos (e conceituados) das novelas brasileiras. Falamos de Cauã Reymond, ator e modelo de 41 anos que se destacou em projetos como “Cordel Encantado”, “Avenida Brasil” ou “Da Cor do Pecado”, entre tantos outros.

Agora, está em Portugal para apresentar alguns projetos. A novela da Globo “Um Lugar ao Sol”, que estreou no Brasil no ano passado, vai ser transmitida em breve na SIC. Reymond interpreta dois irmãos gémeos. Em março, estreia na plataforma de streaming Globoplay a série “Ilha de Ferro”, que já conta com duas temporadas.

Este ano deve também estrear nos cinemas “A Viagem de Pedro”, co-produção luso-brasileira, em que Cauã Reymond faz de Pedro Serafim, mais conhecido como Dom Pedro IV de Portugal ou Dom Pedro I, imperador e fundador do Brasil. Leia a entrevista da NiT com o ator brasileiro.

Li algures que tem antepassados portugueses diretos. É mesmo assim?
Sim, a minha avô paterna é brasileira, mas os antepassados dela são portugueses.

De alguma região específica?
Não, a zona específica que conheço é a da minha esposa [Mariana Goldfarb]. A família dela é de Trás-os-Montes. Ainda não visitei, quero visitar.

O que é que conhece por cá, então?
Conheço o Algarve, Sintra, Cascais, Lisboa. Quero muito conhecer Trás-os-Montes e a cidade do Porto. É sempre muito bom estar em Portugal. Sei que toda a gente deve dizer isto, mas é realmente muito bom e a comida é muito boa, o povo muito agradável. Sou sempre muito bem recebido e tratado.

O Cauã veio promover “Um Lugar ao Sol”, novela brasileira que vai estrear brevemente na SIC, e uma série chamada “Ilha de Ferro” que estará na Globoplay. O que é que o atraiu mais para querer participar em “Um Lugar ao Sol”?
A possibilidade de fazer um texto muito bem escrito, da Lícia Manzo, a nossa autora. Ela traz uma proposta interessante de convidar o espectador a acompanhar a caminhada de um dos gémeos: até onde irias para ter uma oportunidade? De trabalhar, de estudar… Ela convida-nos para uma jornada sobre o que é ser rico e o que é ser pobre. Mas não no sentido literal, material, mas também em termos emocionais. Foi o projeto mais difícil porque fizemos esta novela durante a pandemia, então parámos duas vezes. A primeira interrupção foi de seis meses, a segunda foi de um mês. Foram 14 meses de filmagens e três anos envolvidos no projeto.

Foi difícil preparar e encarnar as personagens, com essas interrupções?
Foi interessante, porque já era um desafio ser um dos protagonistas da novela de horário nobre. Já é um trabalho árduo e delicado, são muitas horas fora de casa. E é mais difícil quando fazes gémeos, e fica mais difícil ainda quando é tudo na pandemia [risos]. Enfrentámos o medo da Covid, mas estou muito feliz com o resultado. Estamos a trazer-vos um produto com muita qualidade, fico orgulhoso.

Interpretar dois gémeos deve ser um desafio interessante para um ator. Havia algo que o ajudasse a encarnar cada uma das personagens, tendo em conta as suas personalidades distintas?
Considero-me um tipo sortudo, porque já fiz gémeos duas vezes na minha carreira. Há outra série minha na Globoplay chamada “Dois Irmãos”, em que também faço gémeos, e tanto na novela como na série acho que não. Constróis personagens diferentes e as histórias são entrelaçadas, obviamente, porque são irmãos. Foram duas experiências muito importantes na minha construção como ator, no meu ofício. Não há truques, mas tens que ter muita concentração e falas muito com uma bola verde [risos]. Em “Um Lugar ao Sol” houve uma particularidade: o meu irmão Pável foi o meu duplo. Em muitas das cenas estava a falar com uma bola verde e a responder a mim mesmo, noutras tive a ajuda do meu irmão a fazer de outro gémeo. Mas é preciso estar muito concentrado mesmo, para responder no tempo certo.

Tirando este desafio específico, que é conceptual, houve alguma preparação que teve de fazer para os gémeos?
Faço muita preparação. Chamo sempre um coach. Neste caso, trabalhei durante três meses antes de começarem as filmagens. Sei que muitos atores gostam de sentir um frio na barriga no primeiro dia, mas eu não [risos]. Gosto de trabalhar bastante a história passada, momentos que não estão no guião, imaginar cenas…

Imaginar o contexto da personagem?
Sim, mesmo que não esteja no texto, e fazer muitas improvisações para que quando chegue o dia das filmagens eu já saiba perfeitamente sobre o que estou a falar e possa estar concentrado em executar o meu trabalho. Gosto de chegar o mais bem preparado possível.

Falando sobre a série “Ilha de Ferro”, de que é que gostou mais quando o projeto lhe foi apresentado?
Adorei a personagem, o Dante. Para podermos começar as filmagens tivemos de fazer um curso, porque o nível de perigo de uma plataforma de petróleo é o mesmo do que o de uma central nuclear. É um lugar super perigoso, por isso a equipa toda fez um curso. Fizemos juntos — um curso de segurança e de como agir dentro de uma plataforma. Esse processo uniu muito toda a equipa. A “Ilha de Ferro” ocupa um lugar muito carinhoso na minha carreira, foi um projeto diferente, nunca me senti tão unido com toda a equipa.

E tinha um tema bastante diferente.
Gosto muito do trabalho do nosso realizador, o Afonso Poyart, ele tem um olhar de ação, uma forma de filmar diferente. A forma como construímos as cenas… O texto era como se fosse uma inspiração, podíamos improvisar bastante. O trabalho com a Maria Casadevall, que tinha a personagem de uma mulher na liderança num ambiente machista, achei que foi um projeto incrível.

O ator também está a produzir diversos projetos.

O facto de filmarem numa plataforma ajudou a fazer a personagem?
Filmámos num navio plataforma, mas também fizemos uma cidade cenográfica. Foi a série mais cara da rede Globo até hoje, foi um grande investimento e trabalhámos muito com efeitos especiais para construírmos o mar. A maior parte da série até foi filmada nesta cidade cenográfica, mas foi tão bem feita, que parecia que estávamos numa plataforma. E houve uma particularidade: como usávamos muito efeitos especiais, a produção era cercada por um fundo azul. Então não circulava ar. Com aquele macacão, no verão, passámos muito calor [risos]. Por isso até tínhamos a sensação de que estávamos mesmo numa plataforma.

Em 2022 celebram-se os 20 anos desde que o Cauã se estreou como ator em “Malhação”. Ainda há muitos papéis específicos ou tipos de projeto que não teve oportunidade de fazer mas que gostava muito de explorar um dia?
Depois de terminar “Um Lugar ao Sol”, tenho andado muito curioso e a assistir a muita coisa, a ler bastante. Fui convidado para alguns projetos, mas não me senti tocado por eles, então estou à espera que apareça um projeto em que me sinta desafiado e apaixonado. E como disse, “Um Lugar ao Sol” foi um trabalho tão difícil, que quando acabou eu estava exausto. Para me tirar de casa agora quero sentir-me apaixonado pelo que quer que decida fazer.

Já considerou fazer mais projetos atrás das câmaras?
Já tenho produzido cinema. Vou lançar aqui em Portugal um filme chamado “A Viagem de Pedro”, que também foi filmado cá. Foi co-produzido pelo Luís Urbano, um grande produtor.

D’O Som e a Fúria.
Exatamente, e devemos participar agora num festival aqui em Lisboa ainda neste primeiro semestre do ano. Co-produzi também alguns filmes no Brasil, mas agora estou pela primeira vez a desenvolver um programa de variedades, cujo piloto vou filmar em março. Estou bastante orgulhoso, foi uma ideia que tive durante a pandemia, e também estou a desenvolver para a Globoplay uma série que fala sobre os bastidores do futebol, que também foi uma ideia que tive. Considero-me uma pessoa muito inquieta e relativamente criativa. E procuro a ajuda de bons guionistas, de uma equipa porreira para fazer estes projetos, e estou muito feliz que a Globo tenha abraçado ambos.

A série sobre os bastidores de futebol foca-se no Brasileirão?
Chama-se “Mata Mata”, é uma série de ficção sobre os bastidores do universo de futebol. Acredito que vamos ter um núcleo argentino, porque gosto dessa mistura do futebol argentino com o brasileiro, e também da mistura de nacionalidades. Quem sabe não temos um núcleo português no futuro? Pelo menos um treinador português acho que vamos ter [risos].

Sobre “A Viagem de Pedro”, o que pode contar?
Quando surgiu a ideia para fazer o filme e para eu interpretar Dom Pedro, imaginámos que seria muito interessante ter um olhar feminino. No Brasil, Dom Pedro foi visto e retratado de várias maneiras. Às vezes de uma forma engraçada. E queríamos conhecer esta personagem através de um outro momento: quando ele foi expulso do Brasil e volta para Portugal para reconquistar o trono da filha [Maria II].

E lutar contra o irmão.
Dom Miguel, sim. Ele vem muito triste e fragilizado e mesmo assim ganha a guerra. E logo a seguir morre de pneumonia. Então, imaginamos esse momento no qual ele está muito inseguro: a travessia de Pedro. 

E porque é que se focaram nessa fase da sua vida e não, por exemplo, quando Dom Pedro vai para o Brasil?
Queríamos investigar o momento em que ele não está tão viril, quando está com uma jovem esposa, quando é assombrado pelo fantasma da perda da Maria Leopoldina, quando ele abandona aquela que foi a grande amante da sua vida. E queríamos entender como é que era esta personagem num momento muito frágil e de grande insegurança. Ele reconstrói-se para ganhar uma guerra com um número muito inferior de soldados e com uma estratégia brilhante. E queremos explorar esta personagem cujo ídolo era Napoleão. Pouco se fala disso. E acabou por ser uma figura que tinha ideias liberais mas também praticava o absolutismo e era um grande general. Havia muitas contradições nesta personagem que acho que não foram tão retratadas noutros projetos.

Obviamente é uma figura que foi muito importante em Portugal e no Brasil. Dom Pedro é bem visto no Brasil?
É uma figura caricata no Brasil. Acho que o nosso projeto também explora… O povo brasileiro tem muito a ver com essa mistura, esta pessoa que nasceu em Portugal mas que se sente brasileiro. Essa má administração desde o início, a forma como as grandes ideias e passos foram implementados mais pela Leopoldina do que por ele. Ele era mais oficial, mas a Leopoldina tinha uma amizade muito forte com o [estadista] José Bonifácio. Então Dom Pedro era quase como uma ferramenta deles os dois.

E onde filmaram cá em Portugal?
Em Lisboa e nos Açores. No Brasil filmámos no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e em São Paulo. Foi o projeto em que mais viajei. E tivemos um elenco maravilhoso: a Isabél Zuaa, o Isac Graça, grandes atores portugueses. Foi um projeto realmente diferenciador.

E é importante haver mais pontes entre Portugal e Brasil na televisão e no cinema?
Acho que nas telenovelas já temos bastante, temos atores brasileiros que vêm para cá fazer novelas, e fico com vontade de misturar mais o cinema português com o brasileiro. Fico a pedir ao Luís [Urbano] que me convide para fazer um filme aqui [risos]. 

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