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Do Porto para o mundo, este projeto leva os livros mais longe

O Literacidades começou há três anos e já tem mais de 11 mil seguidores no Instagram.
Fotografias de Literacidades.

Quando muitos achavam que os livros eram objetos em desuso e que as novas gerações estariam a trocar a leitura pelos videojogos e redes sociais, eis que surge um movimento no sentido contrário. O fenómeno dos bookstagramers e dos booktokers, que usam plataformas como o Instagram ou o TikTok para divulgar livros e a leitura em geral, tem conquistado cada vez mais adeptos. Tanto que até já influenciam as vendas de determinados livros e produzem ligeiras alterações no mercado.

Entre as contas que falam sobre a leitura e os livros, há uma que se destaca a nível nacional e que, curiosamente, nasceu no Porto. Falamos do Literacidades, uma página de Instagram criada há três anos por Álvaro Cúria e Ludgero Cardoso e que tem tido cada vez mais seguidores, juntando atualmente mais de 11 mil.

Inicialmente, a ideia era associar livros a cidades. O projeto nasceu precisamente numa viagem ao Brasil. Como perceberam que seria uma iniciativa que, pelo menos numa primeira fase, poderia implicar várias viagens, decidiram focar-se na própria cidade: o Porto.

Álvaro, de 40 anos, é professor de Português como língua estrangeira na Universidade Fernando Pessoa. Já Ludgero, de 31 anos, é coordenador cultural e pedagógico na reitoria da Universidade do Porto. Conheceram-se há quatro anos por intermédio de amigos em comum e não tardaram em criar o próprio projeto, uma vez que o gosto pelos livros já era antigo.

“Não sei como é que o gosto pela leitura surgiu porque ninguém na minha família gosta de ler”, conta Ludgero Cardoso à New in Porto, explicando que, apesar disso, a mãe nunca recusou a compra de um livro e “sempre que pedia ela comprava com todo o gosto”. A partir daí, foi lendo cada vez mais e o gosto ficou.

O caso de Álvaro Cúria é um pouco diferente, uma vez que sempre viu os pais e os avós a ler, o que o motivou desde miúdo a agarrar-se aos livros. “Depois, durante a fase da adolescência e de jovem adulto, era muito introvertido e os livros eram uma forma de eu conseguir interagir com outras pessoas, que, embora não fossem reais, estavam lá.”

Com a comunidade de amantes de livros a crescer nas redes sociais, Ludgero foi acompanhando vários projetos e, como não tinha muitos amigos que fossem leitores regulares, decidiu começar por partilhar as suas leituras através de blogues e do seu Instagram pessoal. À medida que a ideia foi crescendo, sentiu a necessidade de criar um perfil específico para as leituras, numa altura em que também conheceu Álvaro e em que voltamos à tal viagem ao Brasil, onde surgiu o nome Literacidades.

O conceito deste projeto começou então por apresentar um livro à escolha, fotografando-o num local do Porto. “Achamos que o Porto é uma cidade de cenário de livro que tem montes de lugares para se fotografar”, aponta Álvaro.

Não tem que ser um local de que o livro fale ou que remeta literalmente para ali. Basta que seja um sítio em que tenham pensado ao descobrir a obra, como explicam. As fotografias com o objeto a tapar o rosto são a imagem de marca do projeto, porque querem que o destaque seja dado ao livro e não a eles próprios.

Atualmente, o projeto foi crescendo e até já têm alguns percursos que saem do Porto e incluem outras cidades. Além de apenas apresentarem livros que leram, fazem sorteios, dinamizam pequenos concursos sobre livros, organizam lives com escritores — com nomes como Valter Hugo Mãe ou José Luís Peixoto — e têm até a oportunidade de escrever para a página da Wook.

“Foi tudo muito inesperado”, diz Álvaro sobre o crescimento do número de seguidores, acrescentando: “Acompanhamos com muita surpresa e satisfação. É muito bom saber que há 11 mil pessoas que nos acompanham e que interagem connosco sempre com grandes experiências, que vêm falar connosco dizendo que compraram ou que leram um determinado livro por nossa causa, que foram a uma biblioteca que não conheciam ou fizeram um roteiro turístico literário por nossa causa. É muito bom”.

Apesar de tudo isto, defendem que “não há problema nenhum em não gostar de ler”, não é obrigatório ler um número mínimo de livros por ano nem pertencer a uma elite intelectual. Até porque é possível ler apenas um livro e ser suficiente para mudar completamente a vida de alguém, acreditam.

Quanto aos livros favoritos de cada um, Ludgero Cardoso opta por “1984”, de George Orwell; e “O Filho de Mil Homens”, de Valter Hugo Mãe. Por sua vez, Álvaro Cúria seleciona o clássico “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco; “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago; e “Para Onde Vão os Guarda-Chuvas”, de Afonso Cruz.

No eterno debate entre ler os clássicos ou as obras de autores contemporâneos, defendem que cada um deve ler aquilo de que mais gosta, sempre em liberdade, sejam clássicos, livros eróticos, autores portugueses ou romances cor-de-rosa. “Até porque os autores contemporâneos de hoje são os clássicos de amanhã. Muitos dos clássicos que consideramos clássicos hoje foram desprezados na altura”, frisa ainda Álvaro.

Como forma de incentivar à leitura, dizem ainda que o método mais eficaz será pelo exemplo e que, por isso, se os pais lerem ou os professores levarem livros consigo para as salas de aula, desmistificando o objeto, será mais fácil que os miúdos comecem a ler.

Carregue na galeria para descobrir alguns dos livros — e dos locais —que têm sido recomendados pelo Literacidades.

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