Faltam cerca de cinco horas para Ethel Cain subir ao palco Vodafone, mas a espera sob o sol quente do Porto não parece preocupar as três amigas. Leonor Silva, de 22 anos, Amália Rodrigues, de 16, e Sky, de 18, passaram a madrugada às portas da entrada para o Primavera Sound Porto, na tentativa de conseguirem agarrar um lugar na primeira fila para assistir a um dos concertos mais esperados do dia.
Leonor, que veio de Espinho, juntou-se às duas amigas vindas de Lisboa e chegaram ao recinto entre pelas três da madrugada. Quando as portas abriram, às 15h30, seguiram diretamente para o palco Vodafone, onde planeiam ficar durante toda a tarde. E vieram preparadas: trouxeram água, snacks, um agasalho para as horas mais frescas da madrugada e até tatuagens desenhadas a marcador inspiradas nas tatuagens da artista norte-americana de 28 anos.
As três conheceram-se em novembro, em circunstâncias semelhantes, precisamente durante o concerto que Ethel Cain deu em Lisboa. Nenhuma se conhecia antes dessa noite.
A conversa começou na fila, continuou durante o espetáculo e transformou-se numa amizade que ainda hoje mantêm através das redes sociais, mensagens e encontros noutros concertos. O mais curioso é que já tinham comprado bilhete para o Primavera Sound Porto antes mesmo de se conhecerem.
“Também estivemos juntas na primeira fila em Lisboa”, conta Leonor. “Fizemos madrugada para estar à frente e tivemos de repetir a experiência”. Desde então, a música passou a ser o principal ponto de ligação entre as três. “Nós gostamos muito de música e vamos sempre acompanhando os concertos e artistas favoritos umas das outras”, explicam. “Quando sabemos que vamos estar no mesmo sítio, combinamos encontrar-nos.”

A dedicação à artista é tal que Leonor passou parte da madrugada junto ao recinto, saiu durante a manhã para apresentar um exame do mestrado em Engenharia Molecular, na Universidade do Porto, e regressou pouco depois para voltar à fila e manter o lugar conquistado.
A ligação a Ethel Cain começou praticamente ao mesmo tempo para as três. O ponto de partida foi “Preacher’s Daughter”, o álbum lançado em 2022 que transformou Hayden Anhedönia — o verdadeiro nome da cantora — num dos nomes mais influentes da música alternativa da atualidade. “Comecei a ouvi-la quando saiu ‘American Teenager’”, recorda Leonor. “Foi aí que a descobri e nunca mais deixei de acompanhar.”
O disco tornou-se rapidamente um fenómeno entre os fãs de indie e rock alternativo. Através de letras que abordam temas como religião, identidade, trauma, família e perda, Ethel Cain criou uma comunidade particularmente dedicada, que encontra nas suas canções experiências e emoções com as quais se identifica. “Ela passa muitas emoções através da música dela”, explica Leonor. “Fala de temas muito importantes e ajuda-me a processar muita coisa. É mesmo um release para mim.”
A escolha da música favorita não é simples para nenhuma das três. Leonor acaba por escolher “Strangers”. “Se tivesse mesmo de escolher uma, seria essa. Toca-me de uma maneira diferente das outras.”
Amália opta por “Knuckle Velvet”. “É uma música tão bonita. Acho que ela consegue capturar todas as emoções de uma forma incrível”. Já Sky aponta “A House in Nebraska”: “é uma música muito forte. As letras são incríveis e adoro a narrativa.”
As referências às letras e às histórias contadas pela artista surgem várias vezes durante a conversa. Para as três amigas, é precisamente essa capacidade de transformar emoções em narrativas que torna Ethel Cain diferente de muitos outros artistas.

O concerto desta quinta-feira tem também um significado especial para os fãs portugueses. A artista estava confirmada para a edição de 2024 do Primavera Sound Porto, mas acabou por cancelar a atuação devido a problemas de saúde. Dois anos depois, regressa finalmente ao festival numa altura em que continua a consolidar o seu estatuto internacional.
Depois do concerto de Lisboa, as expectativas para esta atuação são elevadas. “Espero que seja tão mágico como o anterior. Temos a certeza de que vai ser tão bom ou melhor”, afirmam.
Enquanto aguardam pela hora do espetáculo, vão comentando as músicas que mais gostariam de ouvir e os artistas que completam o cartaz do Primavera Sound Porto. Massive Attack e Slowdive estão entre os nomes mais mencionados, mas admitem que a principal razão para estarem ali é apenas uma.
“[Daqui a muitos anos] quero lembrar-me de um dia muito bem passado”, disseram. “De estarmos aqui na frente a cantar tudo em uníssono.”
“Eu gostava de conseguir a setlist como recordação”, acrescenta Leonor. Já Amália resume a experiência de forma mais simples: “Quero lembrar-me da música e das pessoas.”
O concerto ainda não começou, mas, para Leonor, Amália e Sky, uma das melhores recordações desta artista já aconteceu há muito tempo: a amizade que nasceu numa fila de concerto e que hoje as trouxe novamente à primeira fila.
Os bilhetes diários para a 13.ª edição do Primavera Sound Porto ainda estão à venda online desde 75€. O passe geral encontra-se esgotado, assim como o dia 12 de junho, marcado pelo concerto dos Gorillaz.








