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É enfermeira, é fadista e acaba de lançar o primeiro álbum

Cristina Clara estreia-se com “Lua Adversa”, que sai esta sexta-feira, 10 de setembro, juntamente com o terceiro single.
Fotografia de Daryan Dornelles

A música está ligada de alguma forma a quase tudo no nosso dia a dia e é difícil até viver sem ela. Um bom exemplo disso é Cristina Clara, a enfermeira fadista que lança esta sexta-feira, 10 de setembro, o seu primeiro álbum, “Lua Adversa”.

Neste primeiro trabalho é possível encontrar influências de várias áreas diferentes da música, desde a mais popular minhota até à brasileira. O disco tem 12 canções das quais os dois primeiros singles já são conhecidos, “Lua” e “Flor Amorosa”. O terceiro, “Real e Abstrato”, sai ao mesmo tempo que o disco, acompanhado de um videoclipe.

Voltando um pouco atrás, Cristina nasceu em Vila Nova de Famalicão, terra onde começou por contactar com as suas influências minhotas. Mudou-se para o Porto para estudar Enfermagem e daí rumou a Lisboa, onde trabalhou durante 15 anos no Hospital de Santa Maria. Este ano regressou ao Porto e reatou a sua relação com a cidade.

“Fui para Lisboa em 2005 para exercer Enfermagem, tudo indicava que seria esse o caminho. Entretanto, sempre fui muito dada às artes performativas, ao teatro, à música, durante um curso de voz e canto para teatro que estava a fazer, a minha professora na altura convidou-me para integrar o elenco de uma peça sobre o fado, “O Canto da Rosa”. Aí interpretei uma jovem fadista e na altura o fadista Marco Rodrigues foi ver a peça e convidou-me para cantar na casa de fados onde ele estava, que era o Café Luso, no Bairro Alto. Aí começou o meu percurso no fado”, conta à New in Porto.

A partir dessa altura passou a interessar-se mais pelo fado, pelo seu repertório e a ter mais convites para cantar. Mais tarde conheceu o Tejo Bar, onde teve oportunidade de relacionar-se com outros músicos de diferentes origens que têm tido também um importante papel naquilo que é a sua carreira musical e as suas influências artísticas.

“O meu afeto pelo fado passa muito particularmente pela poética. Sempre gostei muito de escrever, de ler, de poesia e a poética do fado apaixonou-me desde muito cedo pelas narrativas, pela beleza com que se contam histórias quotidianas.”

Neste disco, que vem a ser pensado há algum tempo, notam-se as influências da morna de Cabo-Verde e do chorinho do Brasil, mas também o seu gosto pela poesia, por ler e pelo forma como os fados são escritos. Até alguns dos seus artistas de eleição.

“Ao longo destes anos em Lisboa foi sendo um percurso construído, trabalhei sempre com músicos muito inspiradores, compositores, fomos sempre trabalhando juntos ainda que não ficasse registado em disco. Passado este tempo todo, achei que estava na altura de fazer um primeiro registo oficial destas influências todas e decidi gravar este primeiro disco. Reuniram-se as condições necessárias, não foi uma coisa que decidi de repente, é o resultado de um percurso construído, uma parceria desenvolvida ao longo destes anos.”

Neste trabalho, que defende Cristina que tem “muita identidade”, é possível ver a sua perspetiva através dos originais “Lua” e “Um dia hei-de inventar”, escritos por si e compostos por Pedro Loch. Mas também é possível encontrar homenagens a Hermínia Silva, a Alfredo Marceneiro ou a Celeste Rodrigues, as suas grandes influências.

“Não decidi misturar, simplesmente aconteceu que eu recebi essas influências todas e naturalmente a minha seleção de repertório, a minha forma de interpretar reflete essas influências, mas não pretende ser um disco de mistura, pretende ser um disco com a minha identidade que por acaso recebeu essas influências todas.”

Apesar de todas as questões ligadas à música e a este disco, não podemos esquecer-nos que Cristina Clara é enfermeira e que no último ano temos ouvido falar muito de todos os profissionais de saúde. A música acaba por ter um papel importante na sua vida e acredita que na sua carreira profissional também.

“Tenho a certeza que me tornei uma enfermeira muito melhor pelo encontro com estes artistas”, diz, acrescentando: “O facto de frequentar ambientes tão diversos acho que me tornou uma pessoa e uma artista mais preparada e uma enfermeira mais capaz, com mais conhecimento do que são outras culturas, contribuiu para me tornar uma enfermeira mais empática, com um melhor entendimento dos desafios de outras pessoas”.

Quando a pandemia fez parar o mundo, Cristina estava a trabalhar no serviço de Cardiologia, pelo que não tinha um contacto tão direto ou intensivo com doentes com Covid-19. Ainda assim, não deixou de ver a sua vida afetada, como todos, até pela questão da necessidade de trabalhar mais horas ou com um horário diferente do habitual.

“O primeiro confinamento quase não o fiz porque estava sempre a trabalhar, não senti uma diferença tão grande no meu dia a dia”, explica.

Já este ano regressou ao Porto, onde trabalha na mesma na área da saúde, mas mais ligada à parte da investigação. Apesar de ter sido benéfico para ter mais tempo para preparar o lançamento do disco, nem tudo correu sempre bem.

“Não foi muito fácil, há sempre momentos em que duvidamos. São questões que surgem e não vou dizer que não houve momentos em que pensei: “Talvez não seja o momento ideal”. Mas depois é um exercício de compreender que na vida nunca vai haver um momento ideal.”

Quanto à sua relação com a cidade, está cada vez melhor. Se da primeira vez não tinha aproveitado a vida académica como gostaria e regressava várias vezes a casa para visitar a família, agora tem tido outra experiência com o Porto.

“Foi um regresso às origens, a viver uma cidade que eu não tinha vivido na altura em que estive. No espaço de um ano foi quase como se conhecesse um Porto progressivamente diferente. Foi o voltar a acreditar numa coisa que eu achava que era um mito, foi um enraizamento e um encontrar que as pessoas do norte têm realmente alguma coisa de especial.”

A produção deste disco foi feita pela própria Cristina Clara, com Pedro Loch e Edu Miranda. O álbum tem ainda o apoio do Museu do Fado e distribuição digital da Sony Music Portugal.

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