Durante mais de 20 anos, Helena Rodrigues comprou obras de arte de forma intuitiva. Não havia um plano ou uma estratégia. Se gostava e podia comprar, comprava. “Era incapaz de viver numa casa com paredes brancas”, admite a portuense de 50 anos. Essa afirmação ajuda a perceber porque é que decidiu abrir, a 24 de janeiro, a Helena Rodrigues Galeria, no Porto. Um espaço dedicado a artistas emergentes, com foco assumido no trabalho de mulheres.
A galeria, localizada na Rua de Santos Pousada, estreou com a exposição “Minha Senhora de Mim”, que reúne obras de quatro jovens artistas — Ânia Pais, Natacha Martins, Pereira Rute e Sofia Vermelho — e que parte do livro e poema homónimos de Maria Teresa Horta, publicado em 1971 e apreendido pela PIDE por alegada ofensa à moral da época. A escolha não foi casual e funciona como declaração de intenções para o projeto que agora nasce.
“A maioria das galerias expõe artistas já consagrados e corre menos riscos”, explica. “Senti vontade de criar um espaço para quem ainda procura oportunidades para mostrar trabalho.” Jurista de formação, sempre manteve a arte num plano pessoal, separado da vida profissional. Esse equilíbrio mudou quando começou a sentir que precisava de fazer algo que lhe desse verdadeiro prazer.
A ideia da galeria ganhou forma durante aulas de pintura, onde conheceu Sofia Vermelho, artista e curadora que assume também a curadoria da exposição inaugural. A relação cresceu a partir de conversas sobre criação artística e amadureceu quando Helena decidiu frequentar o Mestrado em Estudos Curatoriais.
“Minha Senhora de Mim” não quer fechar leituras nem impor um discurso único sobre o feminino. As obras expostas abordam temas como o espaço doméstico, o corpo, o desejo, a tradição e a ideia de pertença, além de recorrer a diferentes práticas artísticas, da pintura à instalação. A curadoria procura criar coerência entre linguagens distintas, sem anular as diferenças entre os trabalhos.
Ao longo do primeiro ano de atividade, a Helena Rodrigues Galeria pretende centrar-se sobretudo em artistas emergentes que trabalham a condição feminina, embora não queira limitar-se a um único suporte ou abordagem. “Não estamos fechadas a nada, desde que faça sentido para o projeto artístico que queremos desenvolver”, sublinha a fundadora. A programação será construída de forma colaborativa entre Helena Rodrigues e Sofia Vermelho, através de consensos e propostas partilhadas.
A dinâmica da galeria passa por exposições temporárias, encontros com artistas e momentos de conversa entre a abertura e o encerramento das mostras. Sempre que possível, haverá acompanhamento próximo dos artistas representados, apesar de nem todos residirem em Portugal. A entrada é livre e o espaço funciona de quarta a sábado, com possibilidade de visitas por marcação.
A exposição “Minha Senhora de Mim” pode ser visitada até 28 de março. Para Helena Rodrigues, o objetivo é claro: criar um lugar de referência para artistas jovens que procuram onde expor e para quem acompanha a criação contemporânea com atenção. “Gostava que a galeria fosse um espaço onde se descubram artistas promissoras e onde o público se sinta confortável para olhar, perguntar e, se quiser, adquirir obras.”
Carregue na galeria para conhecer o novo espaço dedicado à arte no Porto.







