cultura
ROCKWATTLET'S ROCK

cultura

Filme sobre as enfermeiras portuguesas na Primeira Guerra Mundial chega ao Porto

"Damas" faz parte do cartaz do festival Porto Femme. A NiP entrevistou a realizadora Cláudia Alves.

Há guerras que ficam nos livros de História e outras que nunca chegam a ser contadas. Durante a Primeira Guerra Mundial, enquanto os homens partiam para o campo de batalha, um grupo de mulheres portuguesas fez o mesmo — não com armas, mas com a missão de cuidar, construir e resistir. É essa história quase invisível que “Damas”, o novo filme de Cláudia Alves, traz agora para o grande ecrã.

A longa-metragem estreia este sábado, 25 de abril, no Porto Femme, o festival de cinema dedicado ao trabalho de realizadoras, onde integra a competição nacional. Depois da estreia mundial no verão passado no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, no México, o filme chega finalmente a Portugal com uma primeira apresentação no Porto.

Realizado pela lisboeta Cláudia Alves, “Damas” cruza arquivo, encenação e narração para reconstruir um episódio pouco conhecido da participação feminina portuguesa na guerra. O ponto de partida é real: um grupo de mulheres da alta sociedade que, entre 1917 e 1918, decidiu partir para França como enfermeiras da Cruz Vermelha, com um objetivo ambicioso: construir um hospital de raiz em plena frente de guerra.

“Estava perante um grupo singular de mulheres muito à frente do seu tempo”, explica a realizadora à New in Porto. “Quase tudo o que sabemos sobre a guerra chega-nos através da voz masculina. Por isso é tão importante resgatar as vozes destas mulheres.”

Ao longo de 93 minutos, o filme acompanha o percurso de algumas destas “damas enfermeiras”, desde o momento em que deixam Portugal até à construção do hospital em Ambleteuse, no norte de França, inaugurado a 9 de abril de 1918 — no mesmo dia em que começa a famosa Batalha de La Lys. Entre cartas, fotografias e relatos pessoais, o projeto constrói um retrato íntimo e sensível de mulheres que desafiaram o papel que lhes estava reservado.

Mais do que um documentário histórico, “Damas” assume-se como um filme híbrido, onde a memória ganha corpo através de recriações visuais e narrativas contemporâneas. “Não procuro as suas proezas, nem atos de heroísmo; quero conhecê-las”, sublinha Cláudia Alves, que encontrou esta história por acaso, num espólio da Cruz Vermelha Portuguesa.

A realizadora de 46 anos tem um percurso marcado pelo documentário e pela exploração da memória coletiva. Estudou pintura na Faculdade de Belas Artes, antes de se especializar em cinema na Escola Internacional de Cinema de Cuba, e trabalhou em vários projetos entre Portugal, Brasil e Cuba. Ao longo dos anos, filmes como “El Cartero (2012)”, “Tales on Blindness (2014)” e “A Ocasião (2006)” passaram por festivais internacionais e televisão, consolidando uma abordagem muito própria, onde realidade e criação se cruzam.

damas
A realizadora.

“Damas” surge como um dos seus projetos mais ambiciosos, não só pela escala da produção, mas também pelo tema. “Mais do que analisar os efeitos da mobilização das mulheres, o filme pretende ser um retrato íntimo e uma metáfora da luta pela igualdade de género”, explica.

A estreia no Porto acontece no contexto do Porto Femme, um festival que, desde a sua criação, se dedica a dar visibilidade ao cinema feito por mulheres e a promover novas narrativas dentro da indústria. Ao longo de vários dias, o evento apresenta filmes, conversas e atividades que colocam o foco na representação feminina, tanto à frente como atrás das câmaras. Os bilhetes para a sessão estão à venda online e na bilheteira local, por 4€.

Depois da exibição no Porto, “Damas” seguirá para outras salas e festivais, continuando a dar voz a uma história que ficou, durante décadas, fora do centro do relato oficial. A 30 de abril estreia em Lisboa, no Cinema City Alvalade.

Se quiser conhecer melhor o percurso da realizadora e o processo por detrás do filme, pode ler a entrevista completa que Cláudia Alves deu à NiP de seguida.

Quem é a Cláudia Alves fora do cinema?
Fora do cinema sou também professora. Dou formação a professores de educação para o cinema. Adoro cozinhar e reunir os amigos à volta de uma mesa. Gosto de cuidar e acredito numa ética do cuidado. Descobri tarde que adorava gatos: tenho dois. Gosto muito de caminhar e nadar. Sou sonhadora, mas gosto de fazer as coisas acontecerem. Sou uma pessoa prática. Vivo atualmente em Paris, para onde me mudei há cinco anos, mas faço constantes “allers-retours” (viagens de ida e volta).

Que memórias guarda de crescer em Lisboa e como é que esse contexto ajudou a moldar quem é hoje?
Sou de Benfica/Carnide, onde vivi até à idade adulta. Sempre andei na escola pública, brinquei nas arcadas do meu prédio (ainda se brincava na rua), sempre fui a pé para a escola. Cresci e fiz amigos no bairro, frequentei a catequese na paróquia e, já na minha adolescência, fiz parte do MCE (Movimento Católico de Estudantes), muito importante na minha formação e na construção dos meus ideais. Encontrava-me com jovens de outras zonas de Lisboa e do País, pensávamos e sentíamos o mundo “lá fora”. As férias eram irremediavelmente passadas em Arouca (proveniência da família paterna) e no Porto (família materna). Ainda hoje é para lá que eu vou para me sentir perto das minhas raízes e respirar os ares do campo. A minha praia de infância é a praia do Malhão, na costa vicentina.

Qual foi o seu percurso académico? Estudou cinema ou chegou aqui por outro caminho?
Estudei cinema, mas não foi logo à primeira. Primeiro fiz Belas Artes, licenciei-me em artes plásticas em Lisboa, e só anos mais tarde, já com 28 anos, é que escolhi o cinema. A verdade é que nunca foi um caminho direto: durante o secundário fiz simultaneamente ciências e artes, pois não queria limitar logo as minhas escolhas. Adorava matemática e física, via-me a pintar nas horas livres, até que inverti a ordem das prioridades e fui aprender pintura. As artes visuais levaram-me até ao cinema. Nunca fui cinéfila. A minha vontade de fazer cinema, documentário, surge da curiosidade pelo outro e de viver experiências em contextos diferentes do meu.

Em que momento percebeu que queria trabalhar em cinema? 
Com 24 anos, vivi alguns meses em Barcelona, após terminar a licenciatura em Pintura, ao abrigo de uma bolsa do programa Leonardo da Vinci, com o propósito de estagiar num departamento de Arte Pública na Faculdade de Belas Artes de Barcelona. Já sem grandes obrigações académicas e num período de autodescoberta — via muitas exposições, frequentava festivais, assistia a conferências — aproximei-me do documentário. Já de regresso a Lisboa frequentei um curso de documentário da Videoteca de Lisboa, com a realizadora Margarida Cardoso, minha mentora e amiga até hoje. Daí até decidir ir para Cuba estudar cinema “à séria” foi um pulo. Foram vários “cliques”, mas sem dúvida que a primeira vez, o primeiro filme, foi como uma revelação: afinal existe uma forma de arte onde eu me sinto inteira!? A satisfação é imensa. A partir daí nunca mais quis deixar de trabalhar em cinema. Não foi um caminho imediato, mas sinto que foi um caminho feliz, com encontros humanos riquíssimos. Sempre senti o apoio dos meus pares, dos festivais, bem como o apreço dos espectadores, e o facto de ter frequentado uma escola de cinema fora de Portugal, abriu-me muito os horizontes e a rede de contactos, fundamental nesta profissão.

Que referências ou experiências a influenciaram mais no início?
É engraçado que as primeiras referências não foram filmes, mas sim exposições: Ficciones Documentales e “Víctor Erice Abbas Kiarostami: Correspondencias, ambas com uma série de instalações e multi-projeções. Visitei-as em Barcelona em 2004 (na Caixa Fórum e no CCCB, respetivamente) e constituíram um verdadeiro impulso para me aproximar do documentário, um despertar para o cinema. No início, a experiência que mais me marcou foi o trabalho concreto no terreno, entrevistando pessoas, escutando-as, e perceber que o mundo podia ser captado com uma câmara e um microfone. Não tinha a preocupação do financiamento, punha a câmara na mochila e lá ia eu. Os dois primeiros documentários foram feitos em coautoria (com a Rita Brás) e formam uma espécie de díptico sobre um jornal de classificados (o Jornal Ocasião). Fazíamos uma bolinha nos classificados que nos pareciam mais interessantes e íamos atrás das histórias por trás. Ligávamos e marcávamos um primeiro encontro… O resto já podem imaginar.

Quais têm sido os maiores desafios na sua carreira?
O maior desafio tem sido a difusão dos filmes. Outro desafio, transversal a tantas outras pessoas que trabalham no sector cultural em Portugal, tem sido a dificuldade em “pagar as contas” ao final do mês. Trabalho noutras coisas que também me dão prazer e estão relacionadas com o cinema, mas é insuficiente para me sentir gratificada financeiramente, devido à irregularidade e ao baixo valor dos salários. É difícil ser profissional independente.

Sente que houve algum momento decisivo na sua carreira até agora?
O momento decisivo foi a minha vivência em Cuba, durante três anos. Formei-me em realização de documentários pela Escola Internacional de Cinema de San António de Los Baños (Cuba), fundada por García Márquez e outros prestigiosos intelectuais latino-americanos. Eu costumo dizer, na brincadeira, que existe um período a.C. e um período d.C. Antes de estudar cinema, tinha feito três documentários (curtas ou média-metragens) que até tiveram um bom percurso de festivais e foram exibidos na RTP, mas só na escola aprendi os fundamentos da escrita de guião, concebi de forma criativa a construção sonora de um filme, treinei-me na fotografia e percebi mais a fundo as estratégias narrativas por trás da montagem.

Que filmes realizou antes de “Damas”?
Realizei “A Ocasião”, “A Ocasião Seguinte” e “Porta Blindada” (entre 2006 e 2008), durante o período em que estudei em Cuba, fiz várias curtas-metragens, das quais detaco “El Carteiro” e “Compacta e Revolucionaria”. É engraçado porque comecei com projetos com uma duração maior e depois reduzi o tempo, ao contrário do que é costume na carreira de um cineasta. Em seguida realizei “Sobre Viver” (2012), um documentário filmado numa comunidade pastorícia, no norte de Portugal. “Tales on Blindness(2014) é um documentário de ensaio sobre o contexto da presença portuguesa na Índia. Depois estive uma época sem realizar, em que trabalhei na pesquisa e desenvolvimento de filmes de outros realizadores, o que me deu uma enorme bagagem e preparação para esta nova etapa. Em plena pandemia fiz “O Dia Inicial” (produzido pela Blablaba Media), um documentário pelo qual tenho imenso carinho, mas que infelizmente não conseguimos distribuir.

Como foi a produção de “Damas”?
Este é o meu primeiro filme com financiamento à produção do ICA, o instituto do Cinema e do Audiovisual. Isso faz uma grande diferença. Trouxe-me mais estabilidade financeira, permitiu-me ter mais tempo e expandir a equipa. Dada a natureza do projeto, escolhi um formato híbrido, um documentário com recurso a ficção, que só foi possível graças ao financiamento: pagar ao elenco, criar decores, comprar arquivo histórico bastante caro, entre outras coisas. As pessoas não imaginam o custo de uns minutinhos de arquivo. O treino que trago do documentário ensinou-me a “fazer omeletes com poucos ovos”, mas também a recorrer à imaginação quando não há recursos. O facto da Ukbar Filmes, a produtora com quem trabalho, ter uma grande “estaleca” em ficções históricas, tornou tudo mais fácil. A Pandora da Cunha Telles acreditou desde o primeiro momento nesta história de mulheres pioneiras e levou comigo o sonho até ao fim.

E como nasceu a ideia para realizar este filme?
Surgiu por acaso. Estava a fazer um trabalho de pesquisa para um programa documental sobre a Primeira Guerra Mundial – “A Vida nas Trincheiras” —, produzido pela Ukbar Filmes, por ocasião da celebração dos 100 anos do fim da guerra, em 2018, e ao confrontar-me com um espólio riquíssimo de correspondência e fotografias de mulheres enfermeiras, que pertence ao Arquivo da Cruz Vermelha Portuguesa, percebi que esta história tinha mesmo que ser contada.

Damas
Os bastidores.

O que a levou a explorar a participação das mulheres portuguesas na Primeira Guerra Mundial?
Estava perante um grupo singular de mulheres muito à frente do seu tempo, que praticamente sozinhas conseguiram erguer um hospital em França, durante uma das guerras mais violentas do século XX: 1914-18. Quase tudo o que sabemos sobre a guerra chega-nos através da voz masculina. Por isso, é tão importante resgatar as vozes destas mulheres. Os relatos femininos da guerra são diferentes dos dos homens, e os seus temas falam de outras coisas. De onde vieram? Que família deixaram para trás? Quais os sentimentos que ali viveram? Quais os desejos, desencantos e sonhos destas mulheres?

Que tipo de investigação foi necessária para construir o filme?
Não procurava as proezas destas mulheres, nem atos de heroísmo, queria conhecê-las e fui atrás delas através do arquivo, mas também procurei as respetivas famílias, depois de algumas pesquisas genealógicas, que me deram elementos preciosos para conhecer de perto as suas histórias individuais. Infelizmente nem sempre foram suficientes para juntar as várias peças do puzzle, por isso continuei o meu périplo pelos arquivos portugueses (Arquivo Histórico Militar, Liga dos Combatentes, Arquivo Histórico de Cascais) e internacionais (Biblioteca Nacional de França, British Pathé, Croix-Rouge de Belgique, Imperial War Museum). Reuni-me com historiadores e investigadores que me deram pistas históricas e conselhos, mas faltava-me um olhar mais emocional e pessoal, que eu buscava. Fiz igualmente algumas leituras importantes de relatos de mulheres estrangeiras que escreveram sobre a guerra. Já munida de todos estes materiais, lancei-me na escrita de um guião que desse ordem, profundidade e sentido à história (muita coisa teve que ficar de fora, claro está).

Houve alguma história ou personagem real que a tenha marcado particularmente?
Madame Ferreira Pinto, a enfermeira chefe. Os políticos portugueses não pareciam ver com bons olhos toda a desenvoltura desta mulher (que era monárquica e Portugal era ainda uma jovem República), mas os bons conhecimentos de línguas permitiram-lhe negociar com os homens de poder das forças aliadas. Sem depender da aprovação lenta e, por vezes mesquinha, da política nacional, sobrepôs obstáculos e conseguiu o terreno para o hospital, bem como todo o equipamento necessário para o seu recheio: o Hospital de Ambleteuse da Cruz Vermelha Portuguesa. No lugar onde foi erguido, existe atualmente um monumento em memória de todos os soldados portugueses mortos na guerra e a relembrando que naquele local foi construído, pela Cruz Vermelha Portuguesa, um Hospital de Guerra.

Por que escolheu o nome “Damas”? O que representa?
Estas enfermeiras da Cruz Vermelha eram conhecidas como “damas enfermeiras”, tinham mesmo uma folha de compromisso que tinham que assinar antes de partirem para a guerra, em França. Decidi deixar cair a palavra enfermeiras, pois este filme fala ao mesmo tempo de todas as mulheres que neste período tão conturbado tiveram que assegurar o trabalho agrícola, assumiram profissões jamais ocupadas por mulheres (carteiro, motorista, obreiro), devido à contingência da guerra: o facto dos seus maridos terem partido para a frente de combate.

Que mensagem quer que o público leve consigo depois de ver “Damas”?
Mais do que analisar e dar a conhecer os efeitos produzidos pela mobilização das mulheres portuguesas para a guerra, “Damas” pretende ser um retrato íntimo sobre a “saga” de um grupo de mulheres na construção de um hospital, e paralelamente, uma metáfora perfeita da real luta pela igualdade de género.

ARTIGOS RECOMENDADOS