Desde que abriu portas nos Jardins do Palácio de Cristal, a Galeria Municipal do Porto tornou-se um dos polos culturais mais consistentes e acessíveis da cidade. Pensada como um espaço de experimentação artística, a GMP tem vindo a afirmar-se pela diversidade de propostas, pelo cruzamento de linguagens e pela aposta contínua em artistas nacionais e internacionais. Ao longo dos últimos anos, a galeria consolidou uma linha programática que privilegia o pensamento crítico, as práticas contemporâneas e o diálogo com o espaço público que a rodeia. A entrada gratuita, sempre mantida como princípio, reforçou esta vocação democrática: um lugar aberto a todos, onde é possível descobrir tendências, revisitar nomes fundamentais e acompanhar a produção artística atual.
A partir do próximo sábado, 15 de novembro, entre as 17 e as 20 horas, a Galeria Municipal inaugura um novo ciclo composto por três exposições que ocupam os diferentes pisos do edifício. Todas gratuitas, ficam patentes até 15 de fevereiro e revelam universos distintos, mas complementares, que percorrem territórios como a memória, a comunidade, a herança colonial e a pedagogia artística.
No piso 0, abre “Estado de espírito”, a mais ampla apresentação já dedicada à dupla Mariana Caló e Francisco Queimadela, com curadoria de João Laia. Com mais de 15 anos de trabalho conjunto, os artistas exploram o filme e o vídeo combinando técnicas analógicas e digitais, sempre num diálogo com a fotografia, o desenho e a escultura. A exposição reúne obras inéditas e peças essenciais do seu percurso, articuladas em torno da ideia de comunidade como espaço de encontro entre cultura e natureza. As imagens evocam hábitos rurais, rituais de oralidade, espiritualidade ancestral, trabalho agrícola e momentos familiares, desenhando um retrato íntimo das dinâmicas sociais que moldam o quotidiano.
Subindo ao piso 1, encontra-se “Recursões: uma cartografia de territórios inacabados”, uma exposição coletiva com curadoria de Kiluanji Kia Henda e Margarida Waco. Aqui, o artista angolano dialoga com três criadores do seu país — Lilianne Kiame, Flávio Cardoso e Raul Jorge Gourgel — num projeto que parte da ideia de recursão como um movimento de retorno contínuo entre passado e presente. As obras, que atravessam fotografia, vídeo, instalação, pintura e performance, constroem uma reflexão sobre as promessas falhadas da modernidade, as ruínas materiais e simbólicas do período colonial e o modo como Angola se transforma num arquivo vivo de memórias e especulações. O resultado é um mapa contemporâneo que devolve ao visitante um olhar crítico sobre território, paisagem e identidade.
Já no piso -1, a GMP apresenta “Aprender a ensinar, ensinar a aprender” com Elvira Leite, com curadoria de Matilde Seabra. Artista e pedagoga fundamental na renovação do ensino artístico em Portugal, Elvira Leite vê aqui o seu universo revisitado em duas partes. A primeira revela pinturas raramente mostradas, que cruzam figuração e abstração, num diálogo entre as primeiras décadas do seu trabalho e obras inéditas mais recentes. A segunda recria o seu atelier, transformando a galeria num espaço vivo onde se experimenta com geometrias, formas e desenhos dos seus livros-jogos. Cartas, fotografias e objetos do seu arquivo completam a imersão no seu processo criativo e no impacto duradouro da sua prática pedagógica.
As três exposições podem ser visitadas gratuitamente até 15 de fevereiro, na Galeria Municipal do Porto, nos Jardins do Palácio de Cristal — um dos lugares mais inspiradores da cidade para mergulhar na arte contemporânea.

LET'S ROCK







