Durante mais de duas décadas, Mafalda Araújo Jorge habituou-se a analisar montras como quem olha para cenários. Não eram apenas vitrines de lojas, eram composições, narrativas, exercícios de luz, cor e provocação visual. Talvez por isso faça sentido que a sua nova loja no Porto tenha uma mesa de trabalho instalada na própria montra — para que quem passa na rua a veja desenhar em tempo real. A Má-Fé, novo atelier e espaço de arte da artista portuense, abriu no sábado, 16 de maio, integrado nas tradicionais Inaugurações Simultâneas de Miguel Bombarda. Mais do que uma loja convencional, o espaço foi pensado como um “atelier vivo”, onde ilustração, decoração, window display e convívio se misturam num ambiente assumidamente retro e cinematográfico.
Aos 48 anos, Mafalda decide agora transformar aquilo que durante muito tempo viveu entre encomendas, instalações e trabalhos paralelos num projeto com identidade própria. A ligação ao desenho começou cedo. A mãe era professora de Educação Visual e a família geria a histórica papelaria Araújo & Sobrinho, no Porto. Foi aí, entre pincéis, tintas, papéis e montras montadas à mão, que começou a absorver referências visuais ainda em miúda.
“Costumava ir para lá nas férias desde os oito anos. Sentia-me em casa e adorava observar tudo”, recorda à New in Porto
Apesar de ter desenhado durante toda a vida, o percurso profissional surgiu mais tarde, numa altura particularmente delicada da vida pessoal. “Foi quando me divorciei, aos 33 anos, que comecei a fazer desenhos para poupar algum dinheiro. O que começou como hobby passou rapidamente a part-time.”
Ao mesmo tempo, foi desenvolvendo trabalho na área do window display, criando montras para lojas históricas e concept stores da cidade. A ligação entre desenho e instalação acabou por acontecer de forma natural.
“Percebi que conseguia criar montras quase como desenhos tridimensionais.”
O nome Má-Fé nasce de um jogo pessoal. “Má” vem de Mafalda. O resto ainda fica em segredo. Já o logótipo — um cavalo-marinho minimalista — recupera o símbolo da antiga empresa da família, numa espécie de homenagem silenciosa às origens.

O espaço segue a mesma lógica íntima e autobiográfica. Mafalda queria afastar-se do modelo clássico de loja e criar algo mais próximo de uma sala de estar. Há música ambiente, móveis vintage, cores fortes e referências visuais que remetem para os anos 80 e 90, décadas que marcaram a adolescência da artista. A estética retro estende-se também a algumas das suas paixões pessoais, como os automóveis clássicos, frequentemente associados ao imaginário cinematográfico e nostálgico que atravessa o projeto.
“Queria que as pessoas entrassem sem sentirem pressão para consumir. Que pudessem conversar, tomar um café, ficar um bocadinho.”
A própria montra terá um papel central no projeto. A ideia é transformá-la numa galeria em constante mutação, funcionando simultaneamente como instalação artística e portefólio vivo do trabalho da autora. O objetivo passa por renovar o exterior regularmente, com intervenções ligadas a épocas festivas, temas culturais ou novas séries de ilustração. “Uma boa montra não serve só para chamar atenção. Conta uma história e define a identidade de um espaço”, explica.
O traço de Mafalda mistura realismo, humor e cultura pop. Muitos dos desenhos são acompanhados por títulos provocadores ou irónicos — “Psycho Killer”, “Painkiller” ou “Take Your Shot” são alguns exemplos — funcionando quase como pequenas punchlines visuais. Cada peça custa em média 650€ e pode demorar cerca de uma semana a concluir, embora a artista admita que a fase conceptual ocupa mais tempo do que a execução.
A escolha do Bairro das Artes também não foi por acaso. “É uma zona que as pessoas associam imediatamente à criatividade e ao dinamismo artístico”, diz. Existe ainda uma razão mais prática: vive a poucos minutos do atelier e queria recuperar uma relação mais próxima com o comércio de rua.
Para Mafalda, o objetivo é simples: “Gostaria que as pessoas passassem em frente à Má-Fé e sentissem curiosidade. Que percebessem que há ali qualquer coisa diferente.”
Carregue na galeria para conhecer o novo atelier da artista e o seu trabalho.







