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Marisa Liz: “Rezei para que o António Variações gostasse do resultado final”

A cantora lançou o primeiro tema a solo, que é um inédito do icónico artista português que se perdera no tempo. Oiça a canção.
Marisa Liz no videoclip de “Guerra Nuclear”.

Em novembro do ano passado, os Amor Electro anunciaram que iriam fazer uma pausa na carreira por tempo indeterminado. Contudo, a banda tem continuado a atuar ao longo dos últimos meses, fazendo os concertos que já tinham acordado.

Após 12 anos à frente da banda, Marisa Liz estreia-se agora a solo. Tem estado a preparar o primeiro álbum em nome próprio, e nos últimos dias apresentou o seu primeiro tema, que é bastante especial por se tratar de “Guerra Nuclear”, um inédito de António Variações cuja mensagem permanece atual e relevante.

A produção é de Moullinex, numa faixa também co-produzida pela cantora e onde se pode ouvir a voz do próprio Variações. O tema foi provavelmente gravado no final de 1983, perdurou numa cassete enquanto maquete mas nunca foi editado em disco.  

A NiT falou com Marisa Liz sobre esta canção e a nova fase da carreira — numa altura em que também se prepara para regressar à cadeira de mentora no “The Voice Portugal”, cuja nova temporada estreia na RTP1 no domingo, 25 de setembro. Leia a entrevista.

Como descobriu que existia este inédito do António Variações e que teria possibilidade de o interpretar e lançar?
Os herdeiros decidiram que estava na hora de partilhar esta canção com todos, por todos os motivos e mais alguns. O Variações não teve oportunidade de passar esta mensagem, porque, infelizmente, morreu no ano a seguir — tendo em conta a data em que se pensa que isto foi feito, pois não há certezas. E eles mandaram a canção para a [editora] Universal para terem ajuda nesse sentido. E eu lutei por ela. Disse-lhes que gostava mesmo muito, precisava até, de gravar isto. Pela letra que é, pelo facto de ser a minha primeira canção a solo depois de tudo o que já fiz e este ano vou fazer 40 anos, portanto é uma mudança grande na minha vida. E precisava de dizer estas palavras. Era quase como não ir sozinha para a minha primeira canção — ir com o António. E ir com o António é quase ir com Deus, não é? Tudo corre bem. Eles precisavam de uma maquete para me ouvirem a cantar a música, fiz com o Diogo Branco — ele na guitarra. Cada vez que eu tentava cantar a música emocionava-me, não conseguia cantar, parava a meio, achava que isto já não era para mim, que se calhar já não deveria ser cantora e devia era ir fazer bolos, porque gosto [risos]. Comecei a entrar numa cena de ansiedade e nervosismo, cheguei a pensar que não estava à altura para cantar esta canção. Até que cantei um take do início ao fim e disse: vai este. Passado uns dias, recebo uma mensagem da minha manager a dizer: é tua. E a partir daí foi todo um trabalho em conjunto com os herdeiros, com a editora, com o Moullinex que produziu comigo esta canção, com o Diogo que gravou as guitarras.

Quando recebeu a mensagem a confirmar que a canção era sua, como reagiu?
Não te sei bem dizer o que senti. Há aquela felicidade em que choras, e depois há aquela felicidade, como também acontece com uma dor muito grande… Sabes quando bates com o mindinho e não consegues soltar um único som? Porque a dor é tão aguda que nem consegues chorar, nem gritar, nem sequer dizer uma asneira, simplesmente existes. E foi o que senti. Todos os dias andava a perguntar-lhe: “já sabes? Já sabes?!” E ela: “Marisa, calma, relaxa, quando tiver uma resposta digo-te”. Fui para o Rio de Janeiro compor, faço a viagem toda sem rede e quando ligo os dados móveis no Rio de Janeiro é quando recebo esta mensagem. E foi exatamente isso que senti: não consegui fazer um som porque não estava a acreditar que isto estava a acontecer. É um presente que… não há dinheiro que pague isto na vida. Pode-me acontecer tudo daqui para a frente que isto já não me tiram: eu a cantar com o António Variações. Sei lá, nem sei que diga. Depois fartei-me de chorar e agradecer. A gente não sabe o que há depois da vida, mas na minha cabeça tentei imaginar que ele me estaria a ouvir, e agradeci ter a oportunidade de cantar isto, de ter estas palavras, de ter a voz dele juntamente com a minha. Rezei para que ele gostasse do resultado final [risos] e que não ficasse passado com aquilo que a gente fez. 

Debateu-se muito com esse peso da responsabilidade?
Só no início. Quando me debati mesmo foi quando tentei gravar a maquete. Aí foi quando me caiu o “não sei se consigo fazer isto”, “não sei se sou a pessoa certa”, “não vou cantar isto da forma como deve ser cantada”, aí bateu-me tudo. Quando recebi a mensagem a dizer “é tua”, a partir daí a única coisa que tinha no coração é “vamos fazer e lançar isto o quanto antes, esta mensagem tem de sair já”. E estávamos todos de acordo em relação a isso. Portanto, todo o processo a seguir foi já com um chip completamente diferente. Tenho esta responsabilidade, é grande, mas não vou abdicar dela nunca. Passou para “vou fazer o melhor que sei, vou sentir estas palavras como as senti da primeira vez que a cantei”. É impossível, para qualquer pessoa que ouve esta letra, não sentir. Estamos a falar sobre nós, sobre a nossa sobrevivência, sobre a falta de humanidade, sobre coisas que me tiram o sono há tantos anos. E a música tem um papel que pode ser tão importante. Cada vez menos temos músicas revolucionárias… E os músicos sempre tiveram esse papel. Fui tentando ter um pouco esse papel, de forma mais subtil, em Amor Electro. E aqui não há subtilezas. É isto que tenho para dizer e tenho a sorte de o dizer através das palavras do António. 

Referiu o processo com os herdeiros do António Variações. Em que consistiu? Foi algo mais burocrático?
Não, algo mais emocional e pessoal. O Jaime, irmão do António, quis conhecer-me pessoalmente. Isto é tudo de coração. Não foi só alguém ligar a alguém e dizer “vamos fazer isto” e pronto. Não, houve uma relação entre as pessoas — aliás, tudo o que a letra mostra. Isso existiu em todo o processo. Reuni-me com o Jaime duas vezes. A primeira para ele me conhecer pessoalmente, para sentirmos o pulso um do outro, para ele me falar sobre o António, para eu lhe falar sobre aquilo que eu achava do António e as coisas que sentia. Foi um momento muito bonito e emocionante. Ele sendo irmão e tendo tido a relação que teve com o António Variações, que eu obviamente nunca tive — a única que tenho é de inspiração e admiração gigante —, criei com o Jaime uma ligação que não pude ter com o António Variações. E é uma pessoa que vou acarinhar sempre. Ele esteve durante todo o processo, por dentro do vídeo que eu queria fazer, do tipo de produção da música, e foi tudo muito fácil. A partir do momento em que houve esta reunião e a confiança de que eu iria abraçar isto com todo o respeito que o António merece, foi carta branca para ser livre. “Marisa, faz a tua cena.” Então convidei o Moullinex, eles ouviram o tema e adoraram. A resposta foi super positiva e estavam muito felizes por isto ter seguido este rumo, com o vídeo a mesma coisa… E hoje em dia toda a gente coloca o António Variações num sítio positivo e o admira, mas quando ele era vivo não foi bem assim. E emociona o irmão saber disso. Não que ele tenha comentado, mas sente-se o orgulho de toda a família no António e no génio que ele era. E teres o irmão a recordar coisas que viveu com ele, todas estas conversas… e eu estar junto de uma pessoa que defendeu a liberdade num mundo tão prisioneiro e que, apesar de julgado, continuou sempre a ser aquilo que era. É um ensinamento. Obviamente o mundo de alguma forma continua prisioneiro, daí que esta música infelizmente ainda faça sentido.

É admiradora da obra do António Variações desde muito cedo?
Desde miúda. Ouvia muita música portuguesa com a minha família. Obviamente ouvia as músicas do António Variações e gostava, mas só na minha adolescência comecei a debruçar-me sobre a obra dele e cheguei a cantar vários temas dele nos bares. Identificava-me bastante com a “Estou Além”. Durante toda a minha adolescência e início da fase adulta, em vez de explicar aquilo que eu era, dizia “ouve a ‘Estou Além’ e está lá tudo”. Eu e milhares ou milhões de pessoas, que se ouvirem a música se vão identificar. Esse é o poder da música. Mas desde sempre que foi um artista que não me foi indiferente. E depois passou a ser obrigatório quando eu já era mais velha. Está no topo das minhas referências em Portugal.

“Guerra Nuclear” acabou por coincidir com a altura em que estava a pensar começar um percurso a solo, após a pausa anunciada pelos Amor Electro no ano passado. Este tema mudou muito os planos que tinha para a sua carreira individual?
Depois de Amor Electro ter anunciado a pausa, comecei a compor. Já tinha várias canções, estávamos a ponderar um primeiro single e entretanto caiu este presente do céu. E estou a ficar super orgulhosa deste disco que está a ser feito. Acho que vai haver coisas que vão surpreender — espero que pelo lado positivo [risos]. Musicalmente, vão-me ver noutros planetas. Eu já tinha canções com as quais estava confiante para que fossem um ponto de partida. Mas na verdade não estava a conseguir escolher nenhuma delas. Se foi coincidência ou não, não sei, mas isto caiu do céu na altura certa. Foi quando estava a pensar sobre isso e a compor mais temas, de repente oiço esta canção e quando vi a mensagem “é tua”, não houve dúvidas dentro de mim que eu ainda não tinha escolhido o single porque ele ainda não tinha chegado. Não tive dúvidas de que isto seria o que eu queria cantar e dizer, na primeira vez que aparecesse sem os Amor Electro.

O disco está em que fase?
Está na fase de pré-produção. Já temos metade do disco pré-produzido, vamos finalizar nos próximos tempos. Irá sair outro single entre outubro e novembro — e o disco sairá, talvez, em março. 

O álbum tem algum conceito específico sobre o qual possa revelar um pouco?
O que posso dizer é que durante muitos anos escrevi a história dos outros. 90 ou 95 por cento das letras que fiz nos outros discos não eram sobre mim. Neste disco, há uma parte mais autobiográfica. E quis compor com muitos compositores que admiro. Foi pensada uma composição com partilha não só em Portugal como no Brasil, e compositores que nem sei bem como é que isto aconteceu. Tenho tido muita sorte, mas também tenho lutado muito por aquilo em que acredito. E não quis ir a meio gás. Tinha aqui vários sonhos e consegui concretizar muitos deles com as pessoas com quem tive oportunidade de compor. O disco vai ter uma vertente minha, não de tudo o que sou, mas uma grande parte. Seja a nível estético, musical, literário…

Fazer um disco a solo era uma vontade antiga?
Não, nem nunca me passou pela cabeça. Aliás, sendo muito sincera, passava-me pela cabeça se calhar aos 60 e tal anos — e continua a passar —  fazer assim um disco mais conceptual. Adorava ter um disco para aí de três horas, com músicas com 15 minutos e que fazem todo o sentido na nossa cabeça… Hoje em dia já não se consome música dessa forma mas qualquer dia hei-de fazer esse disco. Não que me falte alguma coisa, que me esteja a controlar para não fazer mais do que aquilo que estou a fazer, estou completamente livre neste disco, a música que vai existir é aquela que queria. Mas fazer um disco a solo não fazia parte dos meus planos. Depois de tudo o que Amor Electro passou, e que foi emocionalmente muito pesado para nós — a perda do nosso amigo e tudo mais —, quando decidimos fazer a pausa, foi pela nossa amizade, tínhamos que nos reorganizar emocionalmente. Depois de tantas mudanças drásticas, tivemos que nos reorganizar. E isto é porque somos amigos. E só depois de tomarmos essa decisão é que pensei: tenho que fazer alguma coisa.

Abriu-se espaço para isso, no fundo.
Sim, depois disso todos nós… o Mauro tem lançado várias canções e videoclips que até têm estado nomeados para prémios; o Ricardo tem a escola de música na Madeira; o Vasco toca com algumas pessoas e tem as coisas todas do humor; o Tiago é produtor, manager e tem a agência Nação Valente. Cada um de nós foi sempre criando coisas paralelas porque somos assim, porque faz parte da personalidade de todos. E eu não tinha pensado em nada. Depois de anunciarmos a pausa, tive que pensar no que queria fazer. Qual é que seria o caminho a seguir. Obviamente sabia que o caminho era música, não pus em causa se iria fazer outra coisa, mas que música é que eu queria fazer? Que disco? Com que letras? Composto por quem? Se iam ser só composições minhas? Depois cheguei aqui, até este caminho, porque queria partilhar as composições, até porque precisava de aprender. E tem sido uma escola tremenda fazer este disco, esta partilha musical que vai servir para o resto da minha vida.

Porque escolheu o Moullinex para produzir este tema?
Nós já estávamos a trabalhar no meu disco, estávamos numa fase inicial, começámos a trabalhar numa das primeiras músicas, e houve logo uma boa vibe e forma de trabalhar muito natural e positiva. Quando surge a oportunidade de gravar “Guerra Nuclear”, pensei que teria de ser ele. E que iríamos fazer isto em conjunto. Éramos sempre os dois e o Diogo Branco que gravou as guitarras. E houve uma abertura, quase que o obriguei nesse sentido [risos], porque eu já tinha várias ideias bem definidas de produção. E a base que o Moullinex me apresenta deixou-me completamente rendida. Tivemos algumas conversas sobre a produção do tema e aquilo que eu gostaria mais era que, se eventualmente o Variações estivesse vivo em 2022 e lançasse esta canção, que isto fosse próximo do universo musical que ele escolheria. Obviamente nunca vamos ter essa resposta, mas foi neste objetivo que nos centrámos. E algumas influências que tentei incluir, meio Pink Floyd, até nas bombas que se ouvem — que não são bombas, porque estão disfarçadas —, as marcações do tempo, é para dar uma ilusão de que isto está a acontecer. Toda a canção foi pensada com um conceito. Todos os sons que entraram não foram escolhidos de uma forma puramente estética, no sentido de “isto é bonito”. Não, foi “isto faz sentido”, “este som está demasiado fofinho”, e todo este trabalho correu de uma forma tão positiva que não estava a ver outra pessoa para fazer isto comigo noutro momento. Além de ele ser um artista incrível e de admirar o trabalho dele, traz uma sonoridade completamente diferente da que eu trago. E a pré-produção que estamos a fazer do disco tem corrido muito bem.

Marisa Liz no vídeo de “Guerra Nuclear”.

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