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Miguel Guedes: “Tocar no Rock à Moda do Porto é voltar a um sítio onde fomos muito felizes”

A banda portuense, Blind Zero, toca esta sexta-feira nos jardins do Palácio de Cristal. O vocalista falou com a NiP.

Nascidos na década do rock e do grunge, numa altura em que a música produzida nos Estados Unidos da América e em Inglaterra invadia Portugal e era consumida em grandes doses, os Blind Zero formaram-se em 1994 e, um ano depois, lançaram o primeiro EP “Recognize”, que esgotou em apenas nove dias. Atualmente, é uma peça de coleção.

Seguiu-se o primeiro longa-duração, “Trigger”, que agitou o panorama musical português, tornando-se o primeiro disco rock cantado em inglês de uma banda nacional a atingir o galardão de Disco de Ouro. 30 anos depois, contam com milhares de discos vendidos, nove álbuns editados e um DVD ao vivo para a MTV, em Milão. Os Blind Zero fazem parte da história da música em Portugal. Contudo, a banda garante, no ano em que celebram três décadas de carreira, que ainda há muito mais para viver. 

Em maio deste ano, a banda apresentou “Courage and Doom”, o esperado sucessor de “Often Trees” (2017), composto durante os tempos de isolamento que o mundo viveu durante a pandemia. “Este nono disco dos Blind Zero regista tempos como nunca se viram e que sucessivas gerações nunca viveram. Dor, angústia e sobrevivência. Tempos que condenaram este disco a ser um resultado de somas e dos impulsos exteriores que nos ocuparam e que permanecem, ainda, como usurpadores do nosso mundo interior e até da nossa intimidade. Atos irrefutáveis como a morte ou a perda de chão”, tal como explica Miguel Guedes, vocalista da banda, à NiP.

O também diretor do Coliseu Porto Ageas, acrescenta: “O lado luminoso de poder sobrevoar para olhar tempos únicos em que novas relações se criam após sentido deserto. Há uma ânsia luminosa de reencontro que percorre o disco e que tenta afastá-lo da condenação em que foi escrito e gravado. A redenção parece ter-se transformado num pecado capital, mas é muito desejada”.

O álbum começou a ser pensado antes de a vida de todo o mundo mudar e acabou por ser gravado numa fase de reencontros possíveis e na angústia de uma guerra a entrar pela porta do lado. “Often Trees” era um disco mais orgânico, que vive da simbiose e recorte dos instrumentos do coletivo.

Já “Couragem and Doom” começa com uma meticulosa exploração individual de sons e ambientes atmosféricos, com sintetizadores e programações a definirem paisagens sónicas para, depois, serem transmutadas por rendilhas de instrumentos convencionais. Este novo ponto de partida, menos convencional, faz com que o plano de fundo seja o alicerce de toda a construção musical, tendo em consideração a sua influência e envolvência.

“Running Back To You” é um dos singles que mais se destaca no novo álbum da banda, que subirá ao palco do Rock à Moda do Porto esta sexta-feira, 25, nos jardins do Palácio de Cristal. O festival acontece entre sexta-feira e sábado e conta com nomes como Sérgio Godinho, os Plaza, en, Turbojunkie e Ecos da Cave. A constituir os Blind Zero estão Miguel Guedes (voz), Nuxo Espinheira (baixo, teclado e voz), Vasco Espinheira (guitarra) e Pedro Guedes (bateria). 

A New in Porto falou com Miguel Guedes, numa reflexão sobre os 30 anos de carreira e em jeito de antevisão do concerto de sexta-feira que, além de mostrar o novo disco de comemoração das três décadas da banda, exige a apresentação de músicas obrigatórias e icónicas da banda como “Recognize”, “Slow time love”, “Shine on”, entre outras. Com um percurso ímpar, o grupo garante demonstrar em palco a sua verdadeira essência, com um espetáculo que será único e irrepetível.

Leia a entrevista na íntegra que Miguel Guedes deu à New in Porto.

30 anos depois de terem começado enquanto banda, o que significa tocar num festival realizado na cidade para os portuenses e para celebrar a música ‘made in Porto’?
É, desde logo, uma alegria muito grande. Ao fim de 30 anos, tocarmos num local onde já tocámos muitas vezes, quer seja nos jardins do Palácio de Cristal, dentro do Pavilhão Super Bock, antigo Pavilhão Rosa Mota, como em espaços à volta. Ainda durante a pandemia, demos um concerto entre os jardins e o Pavilhão que foi muito bonito, naquele momento tão frágil e difícil que todos estávamos a viver. Para nós, regressarmos ao fim de 30 anos num momento em que comemoramos o nosso 30.º aniversário é voltarmos a um sítio onde já fomos muito felizes. É motivo de vitalidade, sobretudo numa noite especial, com outros músicos que estiveram connosco nas últimas três décadas. Será uma noite de celebração e de disco novo.

No concerto desta sexta-feira, o alinhamento será exclusivamente com temas do novo álbum ou vão relembrar êxitos icónicos da banda?
O Rock à Moda do Porto é um conceito que convoca bandas com uma ligação natural e umbilical ao Porto. Nesse sentido, estamos obrigados a tocar canções antigas. Vamos passar por alguns álbuns, não religiosamente por todos, mas quase todos, sobretudo o primeiro. E vamos entregar algumas das canções do novo álbum, pois o que mais queremos é apresentar esta nova vida da banda. Mas é claro que vamos passar por todo o nosso percurso. Vai ser um concerto especial, porque será uma espécie de síntese daquilo que tem sido o nosso caminho.

Quais as vossas expectativas para este concerto e o que é que o público pode esperar?
É um espetáculo especial, num sítio icónico e cheio de história para os Blind Zero. Insere-se num festival das bandas do Porto, sendo um concerto só nosso numa noite que é de muita gente. Temos vários públicos e a noção disso, e procuraremos que seja uma noite de rock and roll e comunhão daquilo que são traços comuns de identidade entre várias bandas do Porto, que têm sentimentos muito próprios e comuns. É algo bonito e queremos que fique espelhado nesta noite de sexta-feira, que seja uma febre de sexta-feira à noite.

Em 30 anos de carreira consegue destacar algum acontecimento que tenha marcado a banda?
São muitos acontecimentos, muitos momentos. Cada concerto é especial, tocamos tanto para 60 pessoas como para 60 mil, acho que é no invisível e no que guardas para ti e te lembras em pequenos esplendores. Às vezes, são pequenos pormenores e, outras vezes, são sensações. O último concerto que demos foi no Peso da Régua e foi muito bonito transportar essas sensações connosco.

Falando agora da cidade, qual é o seu spot favorito do Porto?
Gosto muito dos jardins do Palácio de Cristal. É um sítio com muita presença e história para mim. É um sítio que aconselho vivamente para passear, bem como para pensar, para ler, para ver, para conhecer. 

E qual é a sua atividade de eleição?
Gosto de estar perto do mar, do rio. Esse contacto com a água do Porto. Gosto de mergulhar, mas claro, não costumo mergulhar nesta zona. Porém, a minha atividade favorita é imaginar como poderia mergulhar no mar do Porto.

O seu espaço cultural?
Vou dizer o Coliseu do Porto, apesar de ser suspeito. Acho que estamos num momento de vitalidade e transformação e com muita vontade de sair para a rua e cumprir a missão do Coliseu, que é ser uma imensa casa de democracia, pluralidade e diversidade.

Por fim, que restaurante portuense recomendaria?
Não sou de comer muito, nem muita coisa. Mas acho que aquele que eu considero ser o sítio onde se consegue viver a essencia do País e, acima de tudo do Porto, é o espaço onde vou comer daqui a cinco minutos, que é o Moinho do Vento.

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