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O humor educativo (e racista) de Archie Bunker que nunca poderia ser feito hoje

O discurso polémico da personagem ajudou a sociedade a debater temas controversos nos anos 70. Hoje, seria cancelado.
Sammy Davis Jr. foi um dos convidados recorrentes do programa

“É um facto bem conhecido que as mulheres valem menos do que os homens”, explica o protagonista à colega de trabalho que se queixa por receber menos do que um homem a desempenhar a mesma função. “Andas a ler a ‘Playboy’?”, questiona. “Não, a Bíblia”. E explica.

“A Bíblia diz que Deus fez o homem à sua imagem. Só depois fez a mulher, de uma costela [de Adão] — um corte de carne barato”, justifica. Quando percebe que o salário da colega é igual ao seu, elabora uma teoria (pouco) complexa.

“Esperem pelo dia em que as mulheres recebam o mesmo que os homens. Onde é que isto vai parar?”, diz. “A igualdade é injusta. Pensem nisto: que sentido faz um homem trabalhar toda uma vida para tentar chegar a algum lado, se a única coisa que vai conseguir é ser igual aos outros?”

Atualmente segmento deste género, emitido na televisão, rapidamente daria origem a pedidos de cancelamento e a uma avalanche de críticas nas redes sociais. Ou, provavelmente, nunca passaria pelas várias edições até ao corte final. Mas foi exibido na televisão nacional norte-americana e chegou a todos os lares.

O protagonista não é um dos muitos comediantes que trocaram o palco pela televisão, mas sim o eterno e icónico Archie Bunker, estrela de “All In The Family”, a sitcom que fez sucesso durante a década de 70. Racista, misógino, homofóbico. Foi rotulado de tudo um pouco — e apesar de algumas críticas, isso nunca impediu que as audiências olhassem para ele e para o programa como aquilo que era: uma comédia arrojada que trouxe para o discurso público o que só se dizia sem pudor entre quatro paredes.

Bunker era a representação caricatural de tantos e tantos homens brancos, reacionário, botas de elásticos, indignados com a natural evolução da sociedade. Milhões partilhavam das opiniões de Bunker, mas quando as ideias eram expostas ao ridículo na televisão nacional, fora da bolha dos bairros brancos suburbanos, perdiam toda a sua força — e passaram a ser vistas como realmente eram: uma mentalidade retrógrada e datada.

O espírito arrojado elevou a série a um estatuto intemporal, mesmo assentando em descrições altamente racistas e termos pejorativos. Confrontado com a chegada de uma família negra ao bairro exclusivamente branco, Bunker perdeu a paciência e deu uma lição aos seus familiares. “Mandem-me os vossos pobres, os vagabundos, os porcos… E todos os países os mandaram para cá — vieram em enxames, como formigas: os espanhóis, os caribenhos, os japonocas, os chinocas, os krauts [termo pejorativo para alemães], os judeus e os maricas ingleses”, vocifera Bunker.

“Vêm todos para cá e são livres de assentarem nas suas respetivas secções, separados, onde se sentem seguros. Se vais lá meter o bedelho, partem-te a cabeça. É isso que faz da América grande.” Uma explicação que valeria gritos de cancelamento a um Bunker no século XXI.

Quase cinco décadas depois, o clima mudou. A recente polémica que envolve uma piada de Jimmy Carr no seu novo especial na Netflix passaria despercebida na boca de Bunker — e provavelmente estaríamos, tantos anos depois, a elogiar o facto de acrescentar valor à discussão sobre o Holocausto, com a partilha de um dado que muitos provavelmente desconhecem.

Tal como Bunker encontrou uma forma de debater temas socialmente relevantes como a igualdade, o racismo, a guerra, através do humor, também nos poderia fazer mergulhar em alguns dos pormenores históricos mais sórdidos e desconhecidos. Foi isso que Carr fez antes, durante e depois da polémica piada.

Quando as pessoas falam sobre o Holocausto, falam sobre a tragédia e o horror de seis milhões de vidas de judeus, perdidas na máquina de guerra nazi”, começou o comediante britânico por dizer em “His Dark Material”. “Mas nunca falam sobre os milhares de ciganos que foram mortos pelos nazis. Nunca ninguém fala sobre isso, porque nunca ninguém quer falar sobre a parte positiva.”

Apesar de o especial de comédia ter estreado no início de janeiro,   polémica só explodiu nas redes sociais um mês depois. Mas muitos poderão ter visto apenas o excerto ou, pior, lido apenas a transcrição da piada, que deixam de fora a explicação do comediante — mas que nunca seria necessária, caso todos compreendessem que o humor sem limites é uma arma poderosíssima.

“O terceiro motivo pelo qual esta é uma boa piada é porque tem qualidade educativa. Toda a gente sabe que seis milhões de judeus morreram durante a II Guerra Mundial”, notou. “O que muita gente não sabe, até porque não nos é ensinado nas escolas, é que os nazis também mataram milhares de ciganos, homossexuais, deficientes…”

Nada disto livrou Carr de aterrar no centro de um furacão de indignação, com milhares a pedirem a sua cabeça — ou, porque estamos no século XXI, o seu cancelamento. “Não vou sem dar luta”, desafiou o comediante.

A verdade é que o humor é e continua a ser uma forma de desarmar temas complexos. Precisamente o que quer provar Bruno Nogueira com o seu novo programa, “Tabu”, ainda sem data de estreia, mas que rouba o conceito a um original belga.

“Tabu”, que também foi produzido na Austrália, brinca com os limites do humor, ao forçar o apresentador a criar um stand up especial sobre temas delicados: doenças terminais, deficiências, homossexualidade, pobreza, racismo. O twist? Terá que viver uma semana com quatro convidados afetados pelo tema, onde irá descobrir as fraquezas e as forças de cada um.

“O fator mais importante é perceber o que vai fazer rir os convidados”, explica o apresentador e humorista encarregue pela versão australiana. “As piadas específicas sobre cada indivíduo — preciso mesmo que eles se riam dessa piada. Isto é tudo feito para eles e é isso que faz o conceito funcionar: conseguir que se riam de si próprios.” E se alguém que tem um par de meses de vida pela frente consegue encontrar humor nessa situação, porque havemos todos de ficar ofendidos em seu nome?

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