O que têm em comum um enfermeiro, uma professora de francês e uma formadora de cerâmica? Os três procuravam o mesmo: um espaço para abrandar e para relaxar. Foi assim que a cerâmica entrou na vida de três brasileiros que hoje dão forma ao novo Atelier Oca, no Porto. O espaço abriu a 12 de janeiro, na Rua do Heroísmo, e nasce da vontade de criar, mais do que um atelier, um lugar onde diferentes pessoas se juntam, trabalham e aprendem. Sempre sem pressão.
“Queríamos que fosse um espaço coletivo, que agregasse e onde as pessoas se pudessem ajudar no dia a dia”, explica Lidiane Batista, de 30 anos, formadora em cerâmica e uma das fundadoras. O nome não foi escolhido ao acaso. “Oca” é uma referência às casas indígenas brasileiras, estruturas comunitárias onde vivem várias pessoas. A escolha reflete tanto a origem dos três sócios como o conceito do projeto. “É uma homenagem ao Brasil e à ideia de casa partilhada”, acrescenta.
Além de Lidiane, fazem parte do projeto Tiago Lopes da Silva, de 28 anos, enfermeiro no IPO, e Joanna Bastos, de 30, professora de francês. Nenhum deles começou na cerâmica ao mesmo tempo, mas todos chegaram ali por causa da necessidade de desacelerar.
Lidiane começou durante a pandemia, ainda no Brasil, depois de experimentar diferentes cursos. “O que ficou foi a cerâmica. Era um tempo de pausa, de criar e respirar”, recorda. Mais tarde, passou por Espanha para continuar a formação e acabou por se fixar em Portugal há cerca de três anos e meio.
Joanna chegou mais recentemente ao País, há pouco mais de um ano, para fazer um doutoramento em linguística, mas já ensinava francês numa universidade no Rio de Janeiro. Acabou por entrar no mundo da cerâmica depois de conhecer Lidiane e participar em residências. Já Tiago, que vive há oito anos no Porto, encontrou na prática uma forma de equilibrar o ritmo exigente do trabalho hospitalar. “Foi uma forma de ter um hobby criativo e desligar um pouco”, explica a fundadora.
Os três conheceram-se num antigo atelier onde partilhavam espaço e horários para produzir. A ideia de criar algo próprio surgiu naturalmente, mas encontrar o sítio certo demorou. Durante cerca de seis meses procuraram espaços, inicialmente com foco na zona de Miguel Bombarda, mas sem sucesso.
Acabaram por descobrir o atual espaço quase por acaso. “Isto era uma loja de portas. Não dava para perceber a dimensão porque estava tudo tapado”, conta. Quando entraram, perceberam o potencial: um espaço comprido, com pé-direito alto, muita luz natural e diferentes zonas de trabalho.

O atelier distribui-se por várias áreas. No piso principal, uma grande mesa central serve de base para aulas e workshops, rodeada por estantes com peças de diferentes dimensões, desde objetos utilitários a esculturas. Há ainda zonas dedicadas à produção, armazenamento e exposição.
No piso superior, uma espécie de mezzanine, realizam-se algumas aulas e atividades. O espaço inclui também uma área exterior, que deverá receber sessões de ioga durante o verão, uma das experiências que já começaram a testar no arranque do projeto, com o estúdio wellness Plena.
A dinâmica do Atelier Oca funciona em três frentes principais: workshops, cowork e venda de peças. Qualquer pessoa pode participar nas sessões, mesmo sem experiência prévia. “A oficina é aberta a todos. Não é preciso saber nada para começar”, garante Lidiane.
Os workshops mais procurados são sessões avulsas de duas horas, com todos os materiais e queimas incluídos. Para adultos, o valor é de 40€, enquanto as versões para miúdos custam 25€. Há também a opção de pintura de azulejo, com um preço de 20€.
Para quem quer ir mais longe, existem cursos contínuos, com três horas por semana, que totalizam cerca de 12 horas mensais, por 95€. Neste formato, os participantes desenvolvem projetos próprios com acompanhamento técnico e têm ainda dez por cento de desconto nas queimas. “A pessoa pode trazer uma ideia e trabalhamos em conjunto para a concretizar”, explica Lidiane.
Outra das opções é o curso de iniciação à cerâmica, com a duração de um mês, que custa 120€ e inclui duas horas semanais, focadas nas técnicas base, com materiais e queimas incluídos.
Existe também uma vertente importante de cowork em cerâmica. O atelier disponibiliza o espaço a quem já tem alguma prática e precisa de um local para trabalhar, seja de forma pontual ou regular. Também há serviço de forno, usado por estudantes e artistas que produzem em casa, mas não têm onde cozer as peças.
Além disso, o Atelier Oca funciona como uma pequena galeria. As prateleiras exibem peças feitas pelos três fundadores, alunos, residentes e outros artistas convidados. Os preços variam bastante: começam nos 10€ e podem chegar aos 300€ ou 400€, dependendo da complexidade.
A abertura do espaço trouxe também uma nova dinâmica à zona. Apesar de não ser um polo artístico tradicional da cidade, os fundadores acreditam que há espaço para crescer. “Sentimos que aqui havia alguma falta deste tipo de oferta. E as pessoas têm reagido bem”, diz Lidiane.
Mesmo tendo aberto numa altura mais calma do ano, em janeiro, o feedback tem sido positivo. O atelier tem recebido tanto moradores como pessoas de outras zonas da cidade, curiosas com a experiência.
A médio prazo, os planos passam por reforçar a programação e explorar mais o potencial do espaço, incluindo eventos e mercados. A ideia mantém-se: continuar a construir um lugar aberto, onde a cerâmica é o ponto de partida, mas não o único foco.

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