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Próxima mostra gratuita do Batalha quer pôr todos a refletir sobre o racismo no século XXI

A nona edição da MICAR — Mostra Internacional de Cinema Anti-Racista decorre de 3 a 5 de novembro, no Batalha Centro Cinema.
O filme "Prism" encerra este ciclo de cinema.

O tom de pele continua a ser motivo de discórdia em pleno século XXI? Esta e muitas outras questões que têm vindo a ser levantadas desde os primórdios da sociedade serão respondidas na edição deste ano da MICAR — Mostra Internacional de Cinema Anti-Racial. Resgata-se também o debate sobre a reparação histórica do passado e do presente no sentido da violência racial.

“Este debate visa confrontar diretamente um muro de silêncio com o alicerce no Estado Novo, mas que o Portugal Democrático não soube derrubar na sua totalidade. O cinema será a tela a partir da qual reconvocar-se-á um processo de descolonização de mentalidades que se mantém inacabado e urgente”, lê-se em comunicado.

Ao longo de três dias poderá assistir a obras cinematográficas que abordam temas como o racismo, a imigração e as minorias étnicas. Além das sessões de filmes, será disponibilizado um espaço de diálogo com valores assentes numa sociedade mais justa, onde todos podem usufruir dos mesmos direitos de cidadania, independentemente do tom de pele.

“Migrópolis”, “Zajota” and the Boogie Spirit” e “Nayola” são os primeiros filmes que estreiam a mostra, logo no dia 3 de novembro, sexta-feira. O primeiro trata-se de um filme de animação, que faz uma viagem ao passado de crianças que deixaram a sua terra natal e levam consigo só as memórias. O segundo filme conta a história do colonialismo, da escravatura transatlântica e do espírito resiliente dos africanos. Por fim, “Nayola” mostra a vida e os sonhos de três mulheres e os direitos humanos no meio da Guerra Civil angolana.

Neste dia, “Daughters of the dust” também estará em exibição. O filme aborda a cultura Gullah das ilhas marítimas ao largo da costa de Carolina do Sul e da Geórgia. A última apresentação do dia vai para “Sambizanga”, que apresenta a história de Domingos Xavier, ativista angolado que foi torturado, sem nunca denunciar os seus companheiros.

No dia seguinte, sábado, 4 de novembro é a vez de “Música Invisível”, um registo documental sobre a música das comunidades ciganas. “I am what I am — The story of the Gipsy Mafia” conta a história de dois irmãos, Skill e Buddy e de como as suas canções criticam o racismo, a segregação dos ciganos e o capitalismo neoliberal.

“Tarrafal — Memórias do Campo da Morte Lenta” explora as memórias de antifascistas portugueses e nacionalistas de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde, presos no Campo de Concentração do Tarrafal. Neste dia serão ainda exibidos mais três filmes.

“Sonhos de uma revolução”, “Uma memória em três atos” e “Mueda, Memória e Massacre” para fechar o dia. Os três filmes refletem sobre a descolonização e o processo de luto do povo moçambicano, onde as balas se calaram há quase meio século, mas ainda é possível ouvir o reflexo da guerra colonial. Trata-se de um estilo híbrido cinematográfico, que junta ficção e documentário.

No último dia da mostra, os filmes em destaque são “Debaixo do Tapete”, “Guiné-Bissau: da memória ao futuro” e “Mais um dia de vida”. O primeiro retrata a história de Catarina Demony e o tráfico transatlântico de pessoas. No segundo, reflete-se sobre mais de quatro décadas de construção do país depois das guerras coloniais e de libertação, aos momentos controversos que se seguiram à independência. Já o terceiro filme é um registo autobiográfico de Ryszard Kapuściński, jornalista e fotógrafo angolano, que esteve em Angola no conturbado verão de 1975.

Para fechar o ciclo de cinema, o filme “Prism” aborda o legado racista na tecnologia cinematográfica e fotográfica, pela mão de três realizadoras, Éléanore Yameogo, Rosine Mbajam e An van Dienderem. O portal de notícias da empresa municipal Ágora ainda avança que no final das apresentações dos filmes, haverá um espaço de debate com a presença dos realizadores assim como de convidados especiais, numa “espécie de reflexão coletiva sobre os temas abordados”.

O evento realiza-se desde 2014, é promovido pela SOS Racismo e conta com o apoio da Câmara Municipal do Porto. A entrada é gratuita, mediante levantamento de bilhete no próprio dia, existindo um limite de dois bilhetes por pessoa. Se não quiser perder alguma das sessões, saiba que as estações de metro dos Aliados, de São Bento ou do Bolhão ficam a poucos passos do recinto.

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