Antes de alguém reparar nas dezenas de motociclos em exposição, há um olhar que prende a atenção. Surge gravado na parede, em tons de cinzento, como se sempre tivesse feito parte daquele edifício. Não é apenas uma obra de arte. É um convite para parar e lembrar que cada viagem começa muito antes de se ligar o motor.
O mural foi inaugurado na sexta-feira, 10 de julho, no novo espaço da BMW Motorrad da BMcar, no Porto. À primeira vista, pode parecer mais um elemento artístico integrado no maior concessionário BMW Motorrad da Europa. Mas, para Rui Basílio, o artista que lhe deu forma, representa um dos capítulos mais marcantes da sua vida.
Tudo começou em 2015, quando sofreu um grave acidente de mota. O impacto deixou-lhe um capacete partido ao meio, uma fratura no osso frontal, três fraturas no rosto e um derrame cerebral. Sobreviveu, mas saiu daquela experiência com uma forma completamente diferente de olhar para a liberdade, a velocidade e a responsabilidade.
“O dia do acidente marca um momento de viragem na minha forma de olhar a vida. Felizmente não passou de um bom susto, mas fraturar o osso das ‘fontes’, lascar o osso do rosto em três sítios, um derrame no cérebro e um capacete partido a meio faz-nos, claramente, abrandar um pouco e olhar em redor”, recorda o artista.
E continua: “A irresponsabilidade do acidente foi totalmente minha e apenas me prejudiquei a mim, no entanto, se o desfecho da história não tivesse sido assim tão positivo, tinha ainda familiares em sofrimento e, principalmente, não estava aqui a escrever-vos a apresentar o meu trabalho. Um verdadeiro desperdício.”
Foi a essa memória que regressou quando recebeu o convite para criar uma intervenção permanente para o novo espaço da BMW Motorrad. “Assim que a BMcar me desafiou, senti de imediato que o acidente não me aconteceu por acaso. Aquele momento de sentimento e ensinamento tinha de ser retratado naquela parede.”

O resultado é uma obra onde rebeldia e responsabilidade convivem lado a lado. São duas ideias que, muitas vezes, parecem incompatíveis no universo das motas, mas que Rui quis aproximar através da arte. “Depois do susto, há o respeito, a valorização e o sentido de responsabilidade perante os outros que nos rodeiam”, resume.
Natural de Évora, Rui Basílio conta que, olhando para trás, os momentos mais marcantes da sua vida estiveram quase sempre ligados à criação artística. Embora desenhasse e criasse desde cedo, foi em 2019, ao vencer o concurso “Feel the Culture”, que percebeu que podia transformar essa paixão numa profissão.
“Nos meus 35 anos de vida, os momentos que mais e melhor relembro estão quase todos relacionados com algum momento artístico. Felizmente, ter ganho o concurso ‘Feel the Culture’ em 2019 fez com que novas oportunidades aparecessem e, a partir daí, passei a oficializar e profissionalizar o meu percurso artístico.”
A sensibilidade aos pequenos pormenores continua a marcar o seu trabalho. Diz que se inspira tanto em grandes acontecimentos como nas marcas deixadas pelo tempo nas pessoas.
“Sou facilmente sensibilizado, por exemplo, pelas rugas no rosto ou por uma pele gasta e cansada das mãos de quem observo. Estes são apenas pequenos exemplos que explicam claramente o quanto um pequeno detalhe influencia por completo a minha forma de pensar e de criar.”
Essa atenção ao detalhe também se reflete na escolha dos materiais utilizados na intervenção. Em vez de recorrer apenas à tinta, Rui trabalhou com cimento, pedra, alcatrão e ferramentas habitualmente associadas à construção.

“O cimento representa o vínculo sólido e fortalecido entre o utilizador e a marca. A rebarbadora evoca uma atitude de rebeldia grotesca. A tinta preta simboliza o alcatrão da estrada e a tinta branca representa os traços contínuos e descontínuos que acompanham o percurso.”
Mais do que decorar uma parede, a intenção foi criar uma experiência para quem passa pelo espaço. “Quis fazer com que houvesse um pequeno, mas verdadeiro momento de introspeção no cruzamento de olhares antes da saída do espaço de cada cliente, de modo a sentir o peso da grande responsabilidade ao colocar-se na via pública.”
A obra passou a integrar o novo concessionário BMW Motorrad da BMcar, inaugurado também a 10 de julho. Localizado no Porto, o espaço resulta de um investimento de cerca de dois milhões de euros e ocupa uma área de aproximadamente dois mil metros quadrados, assumindo-se como o maior concessionário BMW Motorrad da Europa.
O novo polo reúne showroom, oficina especializada, serviço pós-venda e áreas dedicadas à experiência de marca, expondo modelos de todos os segmentos da BMW Motorrad, desde Adventure e Touring a Sport e Urban Mobility, incluindo as mais recentes novidades da marca e soluções de mobilidade elétrica.
“Este novo espaço representa um investimento estratégico para a BMcar e reforça a nossa ambição de afirmar a BMW Motorrad como uma referência em Portugal. Queremos criar uma experiência diferenciadora, que aproxime ainda mais a marca da comunidade motociclista”, afirma Pedro Rodrigues, CEO da BMcar.
A oficina, com 200 metros quadrados, tem capacidade para realizar aproximadamente 400 intervenções mensais, incluindo assistência e reparação de motociclos elétricos. Com esta aposta, o grupo pretende alcançar uma quota de mercado de 15 por cento da BMW Motorrad em Portugal até 2027.
Para Rui Basílio, no entanto, a maior conquista não está apenas na dimensão da obra nem no local onde ficará exposta, mas na mensagem que espera deixar a quem a observa. “Sempre que consigo trabalhar para uma sociedade melhor, sinto-me útil.”
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