cultura

“Take On Me”: a curiosa história de uma das canções mais épicas dos anos 80

Três miúdos noruegueses formaram os A-Ha e trouxeram consigo um êxito no bolso que só à terceira tentativa foi bem-sucedido. Vão atuar no Rock in Rio Lisboa.
O videoclipe é inconfundível

“Take On Me” é universalmente consensual. Não o foi, contudo, em 1984, quando a primeira versão do tema foi lançado no mercado. A grande esperança dos três miúdos noruegueses que acreditavam ter ouro nas mãos foi frustrada pela performance miserável do single no Reino Unido. Venderam apenas 300 cópias.

Em casa, na Noruega, o tema chegou ao terceiro posto da lista de mais vendidos, mas mesmo assim era insuficiente. A história poderia ter enterrado os A-Ha, mas não foi isso que aconteceu.

O tema seria ainda lançado por duas ocasiões. Membros da banda e produtores acreditavam que tinham os ingredientes certos para o sucesso e que seria possível acertar a fórmula. Foi preciso mais um ano de trabalho árduo até que “Take On Me” pegasse e, quando isso aconteceu, um fenómeno inexplicável surpreendeu até os próprios membros, Magne Furuholmen, Morten Harket e Paul Waaktaar-Savoy.

O impensável aconteceu quando o single não só pegou nos Estados Unidos como atingiu o primeiro lugar do top. Foi a primeira vez que uma banda norueguesa conseguiu cumprir a proeza. O tema manteve-se no topo das tabelas durante 25 semanas. Estima-se que o single tenha vendido mais de sete milhões de cópias, o que faz dele um dos mais bem-sucedidos de sempre.

Hoje, os A-Ha já não são os jovens de então, mas com idades entre os 59 e os 62, continuam a interpretar “Take On Me” nos palcos. Irão fazê-lo precisamente no Parque da Bela Vista, no Palco Mundo do Rock in Rio Lisboa, a 25 de junho.

O início desta história acontece em Oslo, nos ensaios de uma banda chamada Bridges. “Eles tinham tudo. Só não me tinham a mim”, explicava em 2015 Harket, o vocalista, do momento em que se cruzou com Furuholmen e Waaktaar-Savoy. “Eu sabia que era um ingrediente necessário.”

Dono de uma voz única, Harket acabaria por se juntar aos dois compatriotas e formar os A-Ha. O objetivo? Fazerem música e verem o seu talento reconhecido. Porém, para o fazerem, teriam que escapar da Noruega. Viajaram para o Reino Unido em 1982, mas acabariam por regressar, derrotados, mas ainda com energia para voltar a tentar a sorte.

Consigo levavam um tema ainda na sua fase muito inicial mas que todos reconheciam ter potencial. “Adorávamos estar no Reino Unido, mas era difícil. Não tínhamos dinheiro, estávamos literalmente a morrer à fome. Começou a desenhar-se um cenário muito feio”, lembra Harket, que chegou a desmaiar na rua. Com os últimos trocos que tinham, enviaram demos a Terry Slater, que os adorou e os recomendou a Andre Wickham, da Warner Brothers Records. Wickham viajou até Londres para os ver.

“Tocaram três temas”, recorda. “O terceiro era o ‘Take On Me’ e não acreditava no que estava a ouvir. Como é que alguém que parece uma estrela de cinema canta como Roy Orbison?”

“O Paul [Waaktaar-Savoy] mostrou-me o tema pela primeira vez na casa dos pais dele, na cave. Tinha uma velha guitarra com pinturas hippie e acompanhou os acordes com o Magne a tocar o riff no piano”, recorda Harket. “No momento em que o ouvi, percebi que ia ser o que nos ia lançar.”

“Era apenas um riff. Escrevemos o resto em conjunto”, nota. “Aquilo fazia-me lembrar um anúncio para pastilhas elásticas. Foi isso que influenciou a melodia do verso. Depois o Paul lembrou-se de usarmos a versatilidade da minha voz no refrão, ter notas a subir em oitavas como o ‘E Assim Falava Zaratustra’ de Strauss. E quanto ao atingir aquela última nota, ou tens asas ou não tens. A voz não está na garganta, está no sangue.”

A primeira versão tinha também influência de Ray Manzarek, o teclista e co-fundador dos The Doors. “Foi ele quem trouxe a música clássica à pop. Tinha uma forma de tocar o piano que era muito matemática mas melódica e estruturada”, explica Furuholmen à “Rolling Stone”.

Assim que o tema começou a aproximar-se da sua versão final, foi necessário imaginar o videoclipe que o iria acompanhar. Criou-se uma versão quase genérica: os três membros a tocarem o tema num fundo monocromático. O single e o videoclipe foram um falhanço total. “Lançar uma gravação fraca com o pior videoclipe que se possa imaginar não ajudou em nada”, concluiu Furuholmen.

A banda estava desesperada por sentir que tinha “perdido ”Take On Me’ como um single de sucesso” e recorreu a uma última tentativa de pedir mais dinheiro à editora para uma terceira chance. “Estranhamente”, confessa Furuholmen, o pedido deu frutos.

Um novo produtor reverteu à versão mais inicial do tema e a Warner trouxe o seu diretor criativo para tentar encontrar uma nova solução para o videoclipe. Num debate de ideias, foi colocado em cima da mesa uma obscura curta feita pelo animador Michael Patterson, que transformava imagens reais em esboços desenhados a lápis.

“Eu e a minha colega Candace recebemos um pedido da distribuidora, que um tipo de Hollywood queria uma cópia grátis do ‘Commuter’. Mandei-o dar uma volta”, recorda Patterson à “Rolling Stone”.

Ficou, contudo, com o número de telefone do interessado. Dez meses depois, o dinheiro escasseava e o animador decidiu ligar-lhe. Do outro lado, perguntaram-lhe se teria interesse em fazer um videoclipe.

“Os videoclipes que tinham lançado não eram suficientemente únicos”, revela Jeff Ayeroff, o diretor criativo da Warners que comandou o derradeiro videoclipe de “Take On Me”. “Por vezes, o que está por detrás de um videoclipe bem-sucedido é algo visualmente estimulante que garanta mais tempo de antena. Isso permite que a música se vá entranhando nos ouvidos, simplesmente porque está por todo o lado.”

“O Jeff Ayeroff disse-me que tinha uma ideia: uma personagem de banda-desenhada que ganha vida e se apaixona por uma rapariga. Durante 16 semanas, quando não estávamos a trabalhar no videoclipe, estávamos a dormir. Fizemos cerca de dois mil esboços.” O videoclipe que conjugava os desenhos com imagens reais foi um êxito notável e fez finalmente justiça ao tema dos A-Ha que, por duas ocasiões, tinha falhado nos tops de vendas.

Preencheu, claro, as slots da então toda-poderosa MTV. Mas a verdadeira prova da sua intemporalidade é o facto de, em 2022, o videoclipe de “Take On Me” ter ultrapassado já as 1,4 mil milhões de visualizações.

“Nunca ninguém tinha visto algo como aquilo. Vimos muita gente a copiar a ideia, ano após ano. Uma vez parámos para pôr gasolina e vimos que o empregado estava a desenhar frames. Perguntei-lhe o que estava a fazer e ele diz-me: ‘Ah, estamos a copiar o trabalho de outro tipo, sabes, aquele videoclipe dos A-Ha?”, conta Patterson.

O videoclipe catapultou o tema que, por sua vez, atirou os três miúdos noruegueses para a fama. No entanto, se na velha Noruega continuaram a ser estrelas, no resto do mundo, A-Ha passou a ser sinónimo de one hit wonder. “Nunca imaginei que ‘Take On Me’ teria todo esse sucesso. Percebemos que iria ofuscar todos os nossos outros temas. Isso é algo que começas por compreender, dado todo o sucesso. Depois começas a ficar ressentido com tudo”, explica Furuholmen. “Eventualmente, acabas novamente por aceitar e pensar que afinal, és um sortudo por ter feito uma canção que diz tanto a tanta gente, ao ponto de a continuarem a ouvir ao fim de 30 anos.”

MAIS HISTÓRIAS DO PORTO

AGENDA