cultura

Teatro Municipal do Porto abre a nova temporada com espetáculos gratuitos (e não só)

Entre setembro e dezembro, o Rivoli e o Campo Alegre recebem estreias, dança, teatro, concertos, poesia e marionetas.

No início do outono, tudo começa a fechar mais cedo. No Teatro Municipal do Porto, acontece o contrário. O Rivoli e o Campo Alegre voltam a acender as luzes em setembro para quatro meses de dança, teatro, música, poesia, marionetas e performances que levam o público do centro do Porto até à periferia de Maputo, da costa de Beirute a uma república utópica do século XIX.

A primeira parte da temporada 2026/2027 reúne, até dezembro, onze estreias absolutas, outras tantas estreias nacionais, oito coproduções e cinco coapresentações. O programa combina os regressos de criadores como Né Barros, Joana Providência, Phia Ménard, a Compagnie Bakélite e o Teatro Experimental do Porto com artistas e coletivos que se apresentam pela primeira vez no TMP.

“O outono é, tradicionalmente, um tempo de desaceleração: de colheitas feitas, de portas que se fecham. Mas, à semelhança do que acontece noutros teatros mundo afora, recebemos o outono como uma estação de começos”, explica Drew Klein, diretor artístico do Teatro Municipal do Porto, naquela que será a sua última temporada à frente da entidade cultural portuense.

O arranque acontece a 18 e 19 de setembro, com um programa gratuito que sai das salas e ocupa a Praça de D. João I. “Efectos Especiales”, de Luciana Acuña e Alejo Moguillansky, transforma o centro da cidade no cenário de um filme rodado ao vivo em plano-sequência. Ao longo do percurso, diferentes intérpretes inventam sucessivas formas de morrer perante a arquitetura urbana, entre chuva, neve e fumo colorido. Acontece às 19h30 nos dois dias e, no último ensaio da rodagem, o público pode integrar a ação.

Na noite de 18 de setembro, às 21h30, Mindy Seu apresenta “A Sexual History of the Internet” no palco do Grande Auditório do Rivoli. A palestra interativa percorre as origens perversas e menos conhecidas das ferramentas digitais e cruza tecnologia, sexualidade, inovação e exploração. Os espectadores formam um coro de leitura através de um guião partilhado nos telemóveis. A entrada é gratuita, mas exige o levantamento de bilhete no próprio dia.

A festa prolonga-se a 19 de setembro, com três atuações do ensemble português de trombones Slide Bones Symbiosis, às 15, 17 e 19 horas, uma oficina com Né Barros, às 16 horas e um concerto dos Unsafe Space Garden, às 21h30. O coletivo de Guimarães leva à Praça de D. João I “O Melhor e o Pior da Música Biológica”, disco que mistura rock psicadélico, pop, funk, disco e referências à tradição musical portuguesa.

Ainda em setembro, Clayton Nascimento apresenta “Macacos” nos dias 25 e 26, às 19h30, no Pequeno Auditório do Rivoli. O monólogo aborda o racismo estrutural no Brasil, o apagamento das memórias negras e as ligações coloniais com Portugal.

A temporada começa na rua e todos são chamados.

Outubro começa com a estreia de “Zonas de Sombra”, de Né Barros, nos dias 1 e 2, às 19h30, no Rivoli. A criação junta movimento, palavra e música para explorar as dimensões psicológicas, metafísicas e invisíveis da sombra. Nos dias 2 e 3, os Palcos Instáveis apresentam ainda “TAMBOR”, de Melissa Pérez Sousa e “The Ruin is a Tail”, de Sancha Meca Castro. Os dois trabalhos partem do corpo como arquivo de memórias, migrações e gestos.

O FIMP, Festival Internacional de Marionetas do Porto, ocupa o Campo Alegre a partir de 10 de outubro. “Eu quero a Lua!”, das Partículas Elementares, conta a história de uma menina que adoece por desejar alcançar a Lua; “Transport: Fasten Your Seat Belts!”, do Klaipeda Puppet Theatre, usa a exploração espacial para questionar o progresso tecnológico e a crise do planeta; e “Erma”, de Catarina Falcão, constrói um poema visual sobre a solidão em tempos de guerra. Os bilhetes variam entre 2,50€ e 9€.

Um dos destaques do festival chega nos dias 16 e 17 de outubro. Em “Nocturne (Parade)”, Phia Ménard e a Compagnie Non Nova colocam bonecos antropomórficos, paisagens insufláveis, esqueletos e bandeiras numa experiência sensorial sobre a vida, a morte e a passagem da escuridão para a luz.

As Quintas de Leitura regressam a 22 de outubro, às 22 horas, com “Alguma coisa onde a tua mão escrevesse cartas para chover”, um encontro entre as poetas Filipa Leal e Francisca Bartilotti. Segue-se, nos dias 23 e 24, o ciclo Make Trouble: Eco, com “ABSOLUTO”, de Mariana Leite Soares e “Masterpiece”, de Luisa Fernanda Alfonso.

O mês termina com “Atlas, mapeamento poético”, de Joana Providência e do Teatro do Bolhão, nos dias 29 e 30, às 19h30. Seis intérpretes cruzam a experiência da imigração em Portugal com diferentes universos poéticos através do som, da palavra e do gesto. Para Drew Klein, a peça “celebra a capacidade da poesia para atravessar fronteiras e encontrar pontos de contacto inesperados entre perspetivas aparentemente distantes”.

Em novembro, Isabél Zuaa leva “AFRO SAL.OYÁ” ao Rivoli nos dias 6 e 7. O espetáculo-concerto-pop-ritualístico acompanha a criação do álbum de uma artista afro-saloia que cresceu na periferia rural de Lisboa. Nas mesmas datas, o Campo Alegre recebe a Mostra Estufa, com “Equilíbrios”, de Pedro Matias, “NOCAUTE”, de Inês Pinho e “Albatroz”, de Vasco Gomes, apresentados num bilhete conjunto de 9€.

Há muitas estreias.

Nos dias 13 e 14, “Dzudza”, de Idio Chichava, reúne dança, cantos populares e o simbolismo da capulana numa celebração da vida e da resistência inspirada pelo Mercado de Xiquelene, em Maputo. A 14 de novembro, “#Não somos cactos#”, de Joana Magalhães e do Teatro de Marionetas do Porto, aborda a escassez de água e as migrações provocadas pela crise climática. No dia seguinte, Marina Herlop apresenta o novo álbum, “Dja Dja”.

O programa continua a 19 de novembro, às 19h30, com o boca-rota, um projeto emergente do Porto que cruza poesia, experimentação e música sem fronteiras definidas. Criado por Sofia Bodas de Carvalho e José Costa, conta também com as colaborações dos músicos João Freitas, Gabriel Valente e Susana Brochado. Em palco, histórias verídicas, e outras que poderiam sê-lo, misturam-se com as texturas das guitarras, do contrabaixo e da percussão, num ambiente intimista em que as palavras se afastam das estruturas tradicionais da rima.

Nos dias 20 e 21, Carolina Bianchi apresenta “The Brotherhood”, segundo capítulo da trilogia “Cadela Força”. Com quase quatro horas de duração, a peça investiga as estruturas de poder e as masculinidades tóxicas no meio artístico.

A 27 e 28 de novembro, os Palcos Instáveis regressam com “Manual de Defesa”, de Júlio Cerdeira, sobre corpos queer, identidade e resistência e “Mechita”, de Sol Garcia, que cruza memórias de infância, feminilidade e herança cigana. O mês fecha, nos dias 28 e 29, com “A Epopeia dos Bani Hilal”, do Khashabi Theatre. A criação recupera uma saga árabe oral sobre a migração da tribo Banī Hilāl através da música, da narração e da estética do folclore palestiniano.

Dezembro começa com Panda Bear e Sonic Boom, que apresentam “A ? of WHEN” no Rivoli, a 3 de dezembro. O disco combina harpa, steel drums e influências mariachi com reflexões sobre fadiga digital e ansiedade ecológica. Nos dias 4 e 5, “When I Saw the Sea”, de Ali Chahrour, dá voz a três trabalhadoras domésticas migrantes sujeitas ao sistema Kafala no Líbano.

Para as famílias, a Compagnie Bakélite apresenta, a 5 de dezembro, “L’amour du risque”, um bailado de 30 minutos para robôs aspiradores controlados por inteligência artificial, que transforma um jantar romântico num desastre cómico.

De 10 a 12 de dezembro, o Teatro Experimental do Porto estreia “Icária, Icária, Icária”, de Rui Pina Coelho. A conferência-espetáculo parte do romance utópico de Étienne Cabet para discutir imaginação política, capitalismo e colapso ambiental. O ano termina a 17 de dezembro com as Quintas de Leitura e “Nas tuas mãos começa o precipício”, um serão de poesia, música e circo contemporâneo inspirado num verso de Luís Miguel Nava.

“Algumas propostas desafiarão as nossas certezas; outras proporcionarão momentos de prazer. Em conjunto, compõem uma temporada marcada pela curiosidade, pela troca de ideias e pela descoberta”, resume Drew Klein. Os bilhetes já estão disponíveis nas bilheteiras locais do Rivoli e do Campo Alegre e online, com preços entre 2,50€ e 12€.

 

 
 
 
 
 
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