Muito antes de chegarem aos livros ilustrados e aos filmes da Disney, os contos de fadas e princesas nasceram da tradição oral europeia. Histórias transmitidas de geração em geração, contadas à luz de velas, em torno da fogueira ou no interior das casas rurais, onde cada narrador lhes acrescentava detalhes, moralidades e elementos fantásticos. Só no século XIX, com o trabalho dos Irmãos Grimm, estas narrativas foram recolhidas, escritas e fixadas num formato mais próximo daquele que hoje conhecemos. Jacob e Wilhelm Grimm publicaram versões que preservavam o espírito popular, com fortes componentes simbólicas, por vezes sombrias, e que serviam tanto para entreter como para ensinar.
Entre elas está a história de “Branca de Neve”, a jovem perseguida pela madrasta obcecada pela própria beleza. Do espelho mágico à maçã envenenada, o conto tornou-se um dos pilares do imaginário infantil. Já a “Gata Borralheira”, eternizada como “Cinderela”, apresenta uma heroína humilhada pela família, que encontra na magia e na bondade o caminho para mudar o seu destino. Por sua vez, a “Bela Adormecida” fala sobre ciclos de vida, tempo suspenso e renascimento, numa narrativa em que o sono e o despertar assumem dimensões simbólicas profundas. Estas histórias, embora muito populares, foram sempre reinventadas, reinterpretadas e discutidas ao longo dos séculos — e continuam a inspirar novas leituras.
É precisamente a partir destas figuras clássicas que o Teatro Nacional São João (TNSJ) apresenta uma nova produção própria: “Branca de Neve & Outros Dramalhetes”, com dramaturgia e encenação de Nuno Carinhas. O espetáculo estreia a 20 de novembro e revisita três poemas dramáticos do escritor suíço Robert Walser: “Branca de Neve”, “Gata Borralheira” e “A Bela Adormecida”. Autor de uma das obras mais singulares do século XX, Walser era conhecido pelo humor delicado, pela ironia e pela capacidade de desconstruir a forma tradicional dos contos de fadas.
Em Walser, as heroínas surgem reinventadas. Branca de Neve perdoa a madrasta que tentou matá-la, Gata Borralheira duvida do príncipe e reconhece a honestidade no ódio das meias-irmãs, e a Bela Adormecida lamenta ter sido despertada por uma personagem “absurda e despretensiosa”. Histórias que, como escreveu o autor, parecem começar “onde os contos dos Irmãos Grimm acabam”. A encenação de Nuno Carinhas segue esta sensibilidade, explorando temas como a liberdade, o desejo de escape e a busca da felicidade — elementos centrais na obra de Walser.
O elenco inclui Alberto Magassela, Joana Carvalho, Lisa Reis, Luísa Cruz, Patrícia Queirós, Paulo Freixinho, Pedro Almendra e Sara Carinhas, que surge em vídeo com doze personagens. O espetáculo estará em cena até 14 de dezembro, com sessões às quartas, quintas e sábados às 19 horas, sextas às 21 horas e domingos às 16 horas. A sessão de 6 de dezembro terá interpretação em Língua Gestual Portuguesa e a de 7 de dezembro, audiodescrição. Os bilhetes já estão à venda online, com preços que variam entre os 5€ e os 20€.
A programação paralela inclui ainda o ciclo “O Teatro Vai ao Cinema, O Cinema Vai ao Teatro”, com filmes inspirados na obra de Walser, e a exposição “Microgramas”, de Avelino Sá, patente no Salão Nobre durante todo o período da peça.

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